Liturgia

Liturgia: A vida cristã e a necessidade de reforma

Padre Inácio_3 (Juan Ribeiro / Rede Aparecida)

Escrito por Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R

20 JUL 2021 - 11H39

Thoom/ Shutterstock Padre celebrando missa tridentina (Thoom/ Shutterstock)

"A Liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte donde emana toda a sua força”. (SC 10).

Compreendemos a Liturgia como uma linha divisória entre o tempo e a eternidade. Com gestos, símbolos, cores, palavras, ritos, cânticos e arte, a liturgia nos conduz à eternidade, trazendo a eternidade até os seres humanos para dar sentido à sua vida e fecundar os limites do tempo, eternizando-o.

Posto isso, entendemos porque a Igreja precisa, de tempos em tempos, promover uma Reforma no modo de se viver e celebrar a liturgia, a fim de fazer com que a vida das pessoas em seu tempo esteja mais de acordo com aquilo que se celebra e, ao mesmo tempo, o mistério que se celebra reflita a vida das pessoas. Toda reforma busca fazer com que a sintonia com o mistério celebrado seja atualizada permanentemente.

Para exemplificar, cito apenas algumas reformas. No século XVI, houve a reforma litúrgica promovida a partir das orientações do Concílio de Trento, tendo como um de seus objetivos clarear dúvidas surgidas a partir do movimento reformista protestante. Já mais perto de nós, houve a reforma levada a cabo pela disposição do Papa Pio X. Esta preparou e abriu caminho para a reforma promovida pelo Concilio Vaticano II, que nos legou a preciosa constituição Sacrosanctum Concilium. Depois do Concílio Vaticano, II veio a reforma da liturgia no ano de 1970.

Nenhuma reforma tem a finalidade de engessar a vida litúrgica de uma comunidade eclesial ou da Igreja como um todo, nem levar à perda de valores essenciais da fé ou de impedir a participação dos fiéis, A reforma visa, justamente, favorecer uma melhor participação dos membros de uma comunidade no mistério que se celebra.

Compreendendo isso, podemos explicar a mentalidade de grupos ou de pessoas que são refratárias a toda e qualquer mudança. Existem cristãos que, com a conveniência e favorecimento de alguns de seus pastores, permanecem presos a certos ritos antigos, como o tridentino, como se a verdade da fé estivesse somente no passado.

Decisões do Papa Francisco

Leia Mais"Traditionis custodes": motu proprio aborda missas em rito pré-conciliarNo último dia 16 de julho, o Papa Francisco, após haver consultado os bispos do mundo inteiro, e com a análise feita pela Sagrada Congregação para o Culto e Disciplina dos Sacramentos, publicou o motu proprio Traditionis custodes, restringindo a celebração de missas no Rito Tridentino.

Este motu proprio ora publicado, revoga documento emitido anteriormente pelo papa Bento XVI, cuja aprovação se deu pela carta apostólica Summorum Pontificum, de 2007. Este reconhecia o direito de todos os sacerdotes celebrarem missa usando o Missal Romano de 1962. Antes, o papa João Paulo II já havia feito tal concessão.

A partir de agora, segundo decisão do Papa Francisco, cabe ao bispo diocesano autorizar o uso da missa tradicional em sua diocese. O bispo deve indicar um ou mais lugares onde se pode usar a liturgia na forma extraordinária, “mas não em igrejas paroquiais e sem erigir novas paróquias pessoais”. Com isso, a liturgia da missa em latim deixa de ser celebrada em lugares fechados ou para grupos muito específicos.

Thoom/ Shutterstock
Thoom/ Shutterstock

A motivação em publicar o documento está na “defesa da unidade do Corpo de Cristo”, pois como disse o Papa Francisco num dos trechos do documento, ele se viu obrigado a revogar a faculdade concedida pelos seus Predecessores, pois “o uso distorcido que foi feito desta faculdade é contrário às intenções que levaram a conceder a liberdade de celebrar a Missa com o Missal Romano de 1962".

Rejeição ao Papa e ao Concílio

Antes de redigir e publicar o documento, foi feita uma consulta a bispos de várias partes do mundo. Eles reconheceram que grupos chamados de tradicionalistas, até com o apoio de autoridades eclesiásticas, não observaram o que desejava Bento XVI, instrumentalizando a missa na forma tradicional para atacar o Papa e o Concílio Vaticano II. Além disso, o que era para ser extraordinário, para ser realizado em ocasiões específicas, acabou se generalizando e provocando tensões e divisões na Igreja de Cristo.

Pelo motu proprio agora publicado, a determinação é de que só se pode usar os livros litúrgicos posteriores à reforma litúrgica de 1970, que foi promovida segundo o espírito do Concílio e, mesmo nas missas celebradas em latim, as leituras bíblicas devem ser feitas na língua vernácula.

Reação ao documento

Como era de se esperar, as reações ao motu próprio publicado pelo Papa Francisco foram as mais diversas. Grupos de linha conservadora e tradicional se opuseram fortemente, até engendrando campanhas de difamação do Papa Francisco, juntando a contestação a esta proibição o movimento de rejeição que se faz ao tema central do próximo Sínodo Extraordinário dos Bispos.

A guisa de conclusão, convém assinalar que cada cristão procure conhecer a real motivação do documento, não se deixando conduzir por análises superficiais ou pela leitura apenas de algumas partes do documento, tomadas fora de seu contexto.

E como sempre, é preferível “errar com a Igreja, do que tentar acertar colocando-se fora dela”.

Escrito por
Padre Inácio_3 (Juan Ribeiro / Rede Aparecida)
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R

Redentorista da Província de São Paulo, graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma, já trabalha nessa área há muitos anos, tendo lecionado em diversos institutos. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da Província de São Paulo, atualmente é diretor da Rádio Aparecida

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