Liturgia

Três degraus da integridade

Escrito por Pe. Luiz Carlos de Oliveira, C.Ss.R.

26 JUL 2014 - 08H00 (Atualizada em 27 SET 2021 - 09H12)

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Pobreza que enriquece

As tentações de Jesus no deserto são as nossas tentações. Ele venceu e nós vencemos Nele. Ali mostrou o mal que nos atinge. Quando falamos de pobreza, castidade e obediência temos a resposta concreta às tentações.

Quando os votos são vividos por padres, religiosos e freiras, dizemos que é uma obrigação deles. Mas é uma oferta para todos. Jesus é sempre o modelo de todos. Ele, contudo, não impõe seu modo de viver, mas como viver. Jesus, depois de 40 dias, teve fome. Esta sua fome é o desejo de ter bens como solução para a vida.

Jesus diz claramente: “Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4Ex 8,3). Quando alguém fala de pobreza cristã, não se refere ao sofrimento do povo. Está dizendo que a Palavra de Deus tem força para orientar o uso de todos os bens. Inclusive, os dedicados ao serviço religioso não podem justificar que são pobres se vivem ricamente, sem se preocuparem com a orientação do uso dos bens numa vida doada.

Não adianta ter a Palavra de Deus na boca se não for assumida para orientar a vida. Há os que dizem que prosperidade é bênção de Deus. Se o tesouro não estiver no Céu, a traça rói e o ladrão rouba (Mt 6,19). A ganância pelos bens, sob desculpa de garantia do futuro, pode empobrecer mais ainda os necessitados. Pior ainda é ser rico à custa da pobreza de outros.

Não podemos dar o salário maior porque é muito elevado, mas podemos fazer gastos elevados e inúteis com o que ganhamos com o trabalho dos outros, que lutam com necessidades. O jogo econômico nem sempre é evangélico. A integridade humana passa também pela justiça no uso dos bens.

O desapego nos faz ricos com o pouco que possamos ter. A quem Deus é a riqueza, todo o que toca se torna ouro.

Corpo transformado

A espiritualidade teve dificuldades em relação ao corpo. Como Deus considera o corpo? O Filho de Deus teve um corpo. É no corpo que vivemos e nos santificamos. Jesus deu o estímulo do amor para vivermos bem a corporeidade com tudo o que ela tem de bonito, bom e com tantas tendências. Castidade sem amor é doença.

Deus colocou em nós as paixões para serem usadas no amor para com todos. O amor é a escola para vivermos as riquezas do corpo e da mente. O amor não é só um bem querer que pode ser egoísta, mas uma entrega de vida um ao outro e aos filhos, no casamento, e uma vida de doação a quem escolheu o caminho do celibato.

Pureza não é puritanismo, que é repressão do ser humano em suas potencialidades. É força do amor presente em nós. A integridade liberta. A castidade promove o amor. A resposta à tentação da adoração ao prazer é a adoração ao Pai. Jesus disse: Somente a Deus adorarás (Mt 4,10; Dt 6,13).

Compondo juntos

O terceiro grau da integridade se refere a uma questão que toca a totalidade do ser, pois está presente em tudo. Corpo se controla, bens materiais se equilibram, mas a vontade toca o interior que tudo rege. Chamamos de obediência. Esta causa muitas dificuldades, pois toca o orgulho e a prepotência.

O mal dessa tentação está em se colocar no lugar de Deus. O bem que dela resulta é saber compor como corpo para viver para o bem. A palavra 'obediência' vem de ouvir. Deixar tocar o coração, sair de si sem se perder.

O Salmo 94 reza: “Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor”. Jesus, em resposta ao orgulho que se fecha e vive só para si, diz: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Mt 4,7). Foi esse o pecado de Adão. Foi aqui que Jesus nos salvou. A pessoa é integra, quando sai de si. A obediência não é dominação nem servidão, mas compor juntos para o Reino.

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