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A guerra não começa quando a primeira bomba cai

Declaração do cardeal de Nápoles a favor da paz, contra a violência! Confira.

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Escrito por Pe. José Inácio Medeiros, C.Ss.R.

21 MAI 2026 - 13H49 (Atualizada em 21 MAI 2026 - 15H47)

V. Korostyshevskiy/Adobe Stock

No dia 08 de maio de 2025, o Papa Leão XIV visitou a cidade de Nápoles detendo-se no Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompéia, onde celebrou a santa missa, encontrando-se depois com o clero diocesano, com religiosos e representantes das forças vivas da Igreja napolitana em sua catedral (Duomo) no centro da agitada cidade.

Considerando sua área metropolitana, a região de Nápoles abriga hoje cerca de 4 milhões de pessoas, sendo a terceira cidade mais populosa da Itália, atrás apenas de Roma e Milão. Graças ao seu crescimento desenfreado, como acontece com as regiões metropolitanas de muitos países mundo a fora, a cidade enfrenta profundos desafios socioeconômicos como as deficiências na infraestrutura e serviços urbanos, o trânsito caótico com precariedades no transporte público, altas taxas de criminalidade urbana, vulnerabilidade social e medo natural devido à proximidade do Monte Vesúvio que pode voltar a expelir fogo e cinzas de surpresa.

A presença da Camorra, a máfia napolitana, que já foi muito mais forte no passado, embora mais restrita a certos bairros específicos fora do circuito turístico, ainda afeta o desenvolvimento socioeconômico da região, trazendo insegurança generalizada.

Na ocasião da visita do Papa, o arcebispo e cardeal de Nápoles, Dom Domenico "Mimmo" Battaglia, uma das vozes mais ativas contra a Camorra fez uma forte declaração na qual definiu a organização criminosa como uma "mentira educativa, falsa promessa e furto de futuro", destacando que a máfia "não mata só quando atira, mas quando convence um jovem de que mandar é o que importa". Em sua declaração, o destemido cardeal afirmou que a Camorra age como uma "religião do dinheiro" e mata quando faz um jovem acreditar que o respeito se compra com a violência e com o medo.

Antes disso, o arcebispo de Nápoles já havia escrito carta aberta endereçada aos que ele chamou de “Mercadores da Morte'”. A cruel realidade que ele enfoca em sua carta pode ser entendida não apenas em relação aos desafios enfrentados em sua diocese, mas em relação à guerra, violência e morte que acontecem em todas as partes do mundo.

Abaixo retratamos trechos dessa carta com seu forte clamor contra a guerra e a favor da paz:

O evangelho continua a persistir

A Guerra não começa apenas quando cai a primeira bomba; começa muito antes: quando o irmão se torna um obstáculo, quando os pobres se tornam irrelevantes, quando a compaixão é julgada como ingênua, quando a economia para de servir à vida e decide dela se utilizar. A vocês que fazem negócios com o sangue dos homens, a vocês que contam lucros enquanto mães contam os filhos, a vocês que chamam 'estratégia' aquilo que o Evangelho chama de escândalo, eu dirijo palavras que não nascem da diplomacia, mas da ferida...... Estou escrevendo a você desta terra que treme. Ela treme sob os degraus dos pobres, sob o choro das crianças, sob o silêncio dos inocentes, sob o barulho feroz das armas que você construiu e vendeu. Estou escrevendo para vocês enquanto o mundo parece ter reaprendido a língua de Caim. Aquela linguagem antiga e terrível que pergunta: Sou o guardião do meu irmão? Mas sim, somos. Todos nós somos. E você, mais do que os outros, porque escolheu não só voltar o olhar, mas lucrar com a ferida do seu irmão. Há noites, neste tempo, em que a humanidade parece perdida. Longas noites, onde o céu não se consola e a terra retorna apenas escombros. E ainda assim, bem ali, no meio da noite, o Evangelho continua a persistir. Ele continua dizendo que nenhum homem nasce para ser alvo. Que nenhuma criança tem o destino do pó. Que nenhuma mãe precisa aprender a reconhecer seu filho por um pedaço de pano. Que a paz não é uma fraqueza a ser ridicularizada, mas a mais alta forma de força. Aposte nas fronteiras, no rancor, nas escaladas, nos equilíbrios armados. E enquanto isso, você chama o medo de paz, chama a dominação de ordem, chama a segurança de ameaças permanentes. Mas não há segurança onde a morte é semeada. Não há futuro em que os jovens são educados para a suspeita. Não há justiça se a riqueza dos poucos se baseia no luto de muitos. E não haverá paz enquanto a guerra continuar sendo um investimento aceitável!”

Que esse forte calor do cardeal de Nápoles ultrapasse as fronteiras da cidade, da região metropolitana e possa atingir os corações mais empedernidos. 

.:: Leia mais sobre: O Reino de Nápoles e sua influência na família Ligório

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