O ano de 2026 começou com mais um episódio de intervenção dos Estados Unidos no continente Latino-Americano, dessa vez para destituir Nicolás Maduro, presidente da Venezuela acusado de favorecer o narcotráfico. Essa foi apenas a última de uma série de intervenções dos Estados Unidos em países vizinhos da América Central e do Sul.
Para justificar, os norte-americanos se baseiam na chamada “Doutrina Monroe” elaborada em 1823, que justifica tal ação. Desde o início do século XX, Washington já realizou uma série de operações militares diretas ou “encobertas”, para remover governos incômodos, apoiar líderes políticos “amigos” ou proteger interesses econômicos no que chamam de “quintal de casa".
A última vez que as forças de Washington haviam intervindo para depor um ditador, também sob a acusação de tráfico de drogas e violação dos direitos humanos, aconteceu em 1989 contra o general Manuel Noriega, no Panamá, que, a exemplo de Nicolas Maduro, também foi levado aos Estados Unidos para ser julgado e posteriormente condenado.
Após a Segunda Guerra Mundial, o mundo se dividiu em dois grandes blocos compostos por países rivais. De um lado estavam os Estados Unidos com os países do bloco capitalista e de outro a União Soviética com os países do bloco socialista.
Nessa conjunção de mundo, os países da América Latina e Caribe postaram-se ao lado dos Estados Unidos que conduziram intervenções militares e operações secretas organizadas pela CIA em diversos países, influenciando governos e promovendo conflitos sob pretextos estratégicos e ideológicos.
As intervenções faziam parte de uma política externa de longa duração e os Estados Unidos passaram a enxergar o continente como uma área de influência estratégica. Essa postura que já vinha desde o século XIX se intensificou ao longo do século XX, no espírito da Guerra Fria.
Fala-se em Guerra Fria porque havia um enfrentamento entre os líderes dos dois blocos sem o necessário uso de armas nucleares, que seria danoso para ambos. A guerra se fazia por meio de sustentação de governos aliados, golpes, ações secretas e defesa de interesses na forma de pressões comerciais e econômicas.
O princípio era e continua sendo bastante simples: combinar diplomacia com o uso de força militar para proteger interesses considerados vitais pelos EUA. O foco das intervenções passou a ser o combate ao comunismo que a ideologia apresentava como o grande inimigo a ser vencido.
A Revolução Cubana ocorrida em 1959 reforçou o temor de Washington em relação à expansão da influência soviética no continente e, dessa vez, bem pertinho do país. Essa revolução levaria o mundo a uma quase guerra nuclear com a Crise dos Mísseis em 1962, pois a União Soviética ameaçou instalar mísseis nucleares em Cuba, praticamente no quintal dos Estados Unidos.
Na Guatemala, em 1954, a CIA (Central de Inteligência e Ação) apoiou a derrubada do presidente Jacobo Árbenz após reformas agrárias que atingiram interesses de uma grande empresa americana. O golpe abriu caminho para décadas de instabilidade política e violência, além de servir de modelo para outras intervenções na região. Em 1961, aconteceu a invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, por grupos ligados aos Estados Unidos. O fracasso da operação não apenas fortaleceu o regime de Fidel Castro, como também contribuiu diretamente para a Crise dos Mísseis de 1962, levando o mundo à beira de uma guerra nuclear.
Grande Bandeira Nacional de Cuba pendurada em um prédio, Cuba
Em 1983, aconteceu a invasão de Granada e, no mesmo período, os Estados Unidos apoiaram os Contras na Nicarágua, o que evidencia a tentativa de barrar governos alinhados à esquerda. No caso da Nicarágua, o conflito provocou impactos sociais e econômicos profundos e se tornou um dos maiores escândalos políticos da história americana, com o caso Irã-Contras. E de crise em crise, o país nunca mais se restabeleceu, como se vê atualmente. O Panamá, por sua vez, foi invadido em 1989, o que resultou na queda do general Manuel Noriega, mas trouxe consequências de longo prazo.
Em mais de um século, as intervenções dos EUA na América Latina deixaram marcas profundas. Golpes, conflitos armados e instabilidade política moldaram a história de vários países, levantando debates que permanecem atuais sobre soberania, interesses geopolíticos e limites da política externa americana no continente.
A sistematização dessa doutrina foi feita pelo quinto presidente dos EUA, James Monroe, em 1823. Ela previa a recusa de qualquer ingerência nas questões políticas das Américas por parte de potências estrangeiras. Mais tarde, com Theodore Roosevelt, os Estados Unidos passaram a reivindicar o direito de intervir nos países da América Latina para proteger seus interesses, mantendo a estabilidade e a ordem.
James Monroe
Assim fundamentados e sem nenhuma oposição nos primeiros anos do século XX, houve diversas incursões de tropas norte-americanas. Em 1912, ocorreu a ocupação da Nicarágua, com a criação de uma espécie de protetorado administrado por Washington; em 1954 se deu a derrubada do presidente democraticamente eleito, Jacobo Árbenz Guzmán, da Guatemala, substituído por uma junta militar liderada por Carlos Castillo Armas. Seguiram-se então uns 30 anos de sangrenta guerra civil.
Em 1961, ocorreu o já citado fracassado desembarque na Baía dos Porcos, apoiado pelo presidente John F. Kennedy, numa tentativa de derrubada do regime de Fidel Castro. Ainda no início dos anos 60, a desestabilização do Brasil levou à queda de João Goulart (1964) e à invasão da República Dominicana para impedir, na ótica dos EUA, que a ilha se tornasse uma “segunda Cuba” (1965).
Os anos de 1970/80 estão ligados ao apoio às ditaduras militares na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, apoiada pelos serviços secretos dos EUA, que sistematicamente eliminaram dissidentes, opositores ou simples simpatizantes das ideologias de esquerda. Em 1973, os Estados Unidos apoiaram a queda do presidente Salvador Allende no Chile, substituído por uma junta militar e depois pelo governo de Augusto Pinochet que dominou o país com mão de ferro por cerca de 17 anos.
Nos anos de 1980, os EUA apoiaram secretamente os contrarrevolucionários nicaraguenses, com o objetivo de desestabilizar o governo sandinista de inspiração marxista. Em El Salvador, por outro lado, foram enviados conselheiros militares para ajudar a sufocar as rebeliões da “Frente Farabundo Martí" para a "Libertação Nacional”, de extrema esquerda. Isso deu origem a uma guerra civil de 1980 a 1992, que causou a morte de mais de 70 mil pessoas.
Como diz o ditado: “de boas maneiras e bons desejos o cemitério está cheio”, mas bom desejo e reta intenção certamente não fazem parte do cardápio dos Estados Unidos.
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