Mundo

As preciosas e históricas Madonelles

Escrito por Pe. José Inácio Medeiros, C.Ss.R.

16 ABR 2026 - 11H26

Natalia Cabral

Em Roma existem dezenas de museus e galerias de arte para visitar, com milhares de obras-primas de gênios da arte mundial para serem admiradas. Isso sem falar na grande quantidade de monumentos de valor histórico e artístico que podem ser encontrados e visitados, sobretudo, nos quarteirões que formam o centro histórico da cidade, numa extensão de mais ou menos 19 km.

Existe, porém, uma expressão de arte espalhada pela cidade que muitas vezes fica esquecida e longe dos olhos dos visitantes que percorrem as ruas e praças e que pode ser apreciada sem pagar nenhuma taxa, como é necessário em relação às galerias e museus. Trata-se das chamadas Madonnelles.

Pequenos santuários espalhados pela cidade

Elas estão colocadas quase na altura dos olhos em muitas esquinas e cruzamentos da cidade ou em cantos mais obscuros. Uma Madonnelle é como se fosse um pequeno santuário mariano, cujo nome pode ser traduzido como “pequena Madona” (pequena Virgem ou pequena Nossa Senhora).

Existem centenas delas, de todos os tamanhos e formatos, espalhados pelas ruas de Roma, instaladas como uma prece para que Nossa Senhora proteja os habitantes e zele pela Cidade Eterna.

Essa devoção começou há pouco mais de 500 anos, e as pesquisas indicam que o primeiro santuário mariano tenha sido instalado no bairro de Ponte, em Roma. Em seu auge, havia cerca de 3 mil Madonnelles espalhadas pela cidade e pelo menos metade delas existe ainda hoje.

A devoção às Madonnelles foi popular especialmente entre os séculos XVII e XIX, coincidindo com o fim da Contrarreforma, em reação à Reforma Protestante, quando a devoção às imagens e a Nossa Senhora foi bastante criticada.

Em resposta, a Igreja fortaleceu a arte, encomendando algumas das iconografias religiosas mais conhecidas da história. A maioria dessas obras-primas estavam instaladas nas igrejas de Roma, mas muitos artistas anônimos canalizaram seus dons para a criação das Madonnelles, que podiam ser iluminadas por pequenas lamparinas a óleo que, por sua vez, ajudavam na iluminação pública. Além disso, havia a prática de se acender velas e de colocar vasos de flores perto desses santuários.

Uma antiga tradição

A prática de se erguer santuários devocionais públicos vem desde os tempos muito antigos. A partir da fundação da cidade, os romanos faziam pequenos santuários dedicados aos chamados Lares, que eram as antigas divindades guardiãs das famílias romanas.

Os romanos acreditavam que essas divindades eram espíritos positivos dos mortos, reverenciados como observadores e protetores. Santuários chamados lararia foram também construídos nas casas para a devoção pessoal, familiar e invocação de proteção contra o mal. Na cidade de Pompéia, que foi preservada debaixo das cinzas e detritos expelidos pelo Vesúvio e que há décadas vem sendo escavada, foram encontrados alguns exemplares desses santuários domésticos bem preservados.

Com o passar do tempo, os lares se transformaram numa devoção bastante popular e alguns santuários conhecidos como “lares compitales” foram também instalados nas ruas, colocados em cruzamentos onde o movimento de pedestres e de veículos era grande. Como os romanos diminuíam a velocidade diante deles, os lares compitales ganharam maior visibilidade.

Conforme o cristianismo foi ganhando força, especialmente depois que a Igreja ganhou liberdade de culto e de ação a partir do século IV, os lares compitales foram desaparecendo e as imagens e oratórios de Nossa Senhora ou de alguns santos passaram a substituir as divindades pagãs como protetoras das ruas de Roma, especialmente em seus cruzamentos.

No final do século XIX, apenas a Nossa Senhora era confiado o zelo pela cidade, posição que ainda mantém, ganhando expressão com as Madonelles ou com ícones considerados milagrosos, a exemplo do Salus Populi Romani colocado na Basílica Santa Maria Maior que o Papa Francisco sempre visitava.

Natalia Cabral Natalia Cabral Madonelle N. Sra. do Perpétuo Socorro na Via Merulana

Milagres e devoções

Numerosos milagres foram atribuídos às Madonnelles, a maioria deles referindo-se aos olhos de Nossa Senhora nessas imagens, que dizem chorar, sangrar ou se mover de um lado para o outro como que acompanhando o movimento das pessoas.

Em 9 de julho de 1796, com as forças de Napoleão varrendo a Itália, grande quantidade de pessoas relatou que os olhos das Madonnelles as seguiam enquanto passavam. Cinco desses casos foram confirmados como milagrosos pela Igreja, e uma capela foi construída em torno de uma dessas Madonelle: a Madonna dell'Archetto. Essa continua a ser a menor igreja de Roma hoje, localizada a poucos quarteirões da famosa Fontana di Trevi.

Outro exemplo, esse ligado aos Missionários Redentoristas, trata-se do ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro colocado na casa onde uma criança foi curada por Nossa Senhora quando a procissão que levava o ícone da Santa Maria Maior para a igreja de Santo Afonso passou diante dessa casa.

Como a cidade de Roma e outras cidades do interior vivem da fé cristã que está enraizada na cultura das pessoas, passando de geração em geração, a colocação de uma Madonelle foge do aspecto meramente religioso para se tornar uma tradição cultural que atravessa gerações

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