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As sirenes de Roma

Curiosidade de hoje nasceu de uma necessidade durante a guerra. Confira!

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Escrito por Pe. José Inácio Medeiros, C.Ss.R.

05 MAI 2026 - 09H25

Pierre-Olivier/Adobe Stock

Se alguma pessoa um pouco mais curiosa ao passar pelas ruas de Roma, observar bem, verá que no alto de alguns prédios da região central ou histórica da cidade existem ainda alguns conjuntos de sirenes e de alto-falantes colocados sobre os terraços.

Eles estão ali desde antes da Segunda Guerra Mundial, mas hoje não passam de relíquias históricas, antigos monumentos sonoros dos tempos analógicos, memória de um tempo felizmente distante, ainda guardando o céu, mas sem seu som sombrio, agora relegado à história.

Existem alguns conjuntos claramente visíveis em edifícios públicos e até mesmo sobre o Palazzo Brancaccio, bem pertinho da Casa Geral dos Missionários Redentoristas, localizada à Via Merulana.

Essas sirenes e alto-falantes são remanescentes da Segunda Guerra Mundial, quando eram usados para avisar a população sobre a aproximação de algum possível ataque aéreo.

Atualmente funcionam como um "museu a céu aberto" e não mais como sistemas de alerta ativo para a população. Com o avanço da tecnologia digital a Defesa Civil, por exemplo, usa aplicativos da internet para avisar a população de algum risco iminente de tempestade ou qualquer outro cataclisma natura.

Alina/Adobe Stock Alina/Adobe Stock Sirene de alerta de ataque aéreo

Alerta da população tem tempos de guerra

A guerra, que para as gerações mais jovens é recordada apenas como sinais da brutalidade do passado, quando se trata das grandes civilizações, retornou não muito longe das fronteiras italianas. Hoje, nas cidades ucranianas, bombardeios são anunciados por uma rede de sirenes que produz um som que ninguém jamais esquecerá, assim como as gerações mais velhas carregam a memória daquele sinal intenso e contínuo que os levava a se refugiar em túneis e porões.

A aproximação dos bombardeiros era anunciada por uma rede de 56 conjuntos de alto-falantes distribuídos pela cidade. Cada sirene era conectada à seguinte por uma rede aérea de cabos com quilômetros de comprimento, chamada de "catenária".

A central que conectava os conjuntos ficava no porão do Palazzo Viminale e lá terminava a rede de cabos que atravessava os bairros. Alguns cabos chegavam ao Palazzo Valentini, sede da Prefeitura, onde havia um segundo centro de emergência. Depois da guerra, o sistema de alarme permaneceu em operação até 1975, devido ao período da Guerra Fria. Havia temores de ataque com armas nucleares e as sirenes deveriam soar em caso de alto nível de radioatividade.

O sistema de alarme

A instalação da primeira rede de sirenes em Roma foi feita em meados da década de 1930. Muito antes, porém, durante a Primeira Guerra Mundial, o sistema de alarme antiaéreo em Roma era confiado aos tiros de canhão localizados no Castel Sant'Angelo, localizado pertinho do Vaticano, a trombetas, cornetas e sinos.

Com a Segunda Guerra Mundial a tecnologia evoluiu e já não se precisava mais dos sinos das igrejas e conventos. Além disso, a autarquia de guerra impôs em 1942, o recolhimento de todos os sinos dos edifícios religiosos porque eram ricos em metais preciosos úteis para a fabricação de armas. Em pouco tempo, porém, a medida foi suspensa e os sinos da maioria das igrejas foram salvos de serem derretidos.

O sistema de alarme por sirenes e alto-falantes foi reforçado entre 1940 e 1942, especialmente nas áreas periféricas da cidade, após a entrada da Itália na guerra.

Felizmente, fora da guerra, nunca houve necessidade de se utilizar tal sistema, mas os custos de manutenção das instalações foram alvo de uma longa disputa entre o Capitólio e o Ministério do Interior.

Especialistas estimam que ainda restem de 26 a 30 dessas sirenes no alto dos telhados romanos, não sendo mais funcionais, sendo chamadas de "sentinelas da memória", estando sendo localizadas para uma possível preservação como patrimônio histórico.

O bombardeio de Roma

Sendo muitas vezes objeto de chacota dos romanos, os sistemas de alarme pouco funcionaram nas vezes em que a cidade de Roma foi bombardeada. O primeiro ataque aéreo foi realizado em julho e um segundo ataque aconteceu em 13 de agosto de 1943 e, em ambos os casos, não funcionaram a contento, e quando ligado, o sinal chegou tarde e os bombardeios já tinham cessado, além do mais, muitos alto-falantes estavam fora de serviço.

O som das sirenes que em 19 de julho precedeu a chegada das bombas por um curto período, despertou a incredulidade dos romanos e os confrontou com a dura realidade: Roma também havia se tornado alvo de bombardeios como já acontecia em muitas cidades da Itália e da Europa. Até então, declarações tentavam tranquilizar a população sobre a inviolabilidade da capital. Muitos diziam: "ah, a cidade é santa, não pode ser atacada do céu". Outros afirmavam: "Roma é um patrimônio da humanidade" ou então "O Papa está em Roma, e até os aliados sabem disso". Todas as certezas desmoronaram com os primeiros ataques.

Somente com a declaração de Roma como “Cidade aberta”, graças à diplomacia do Papa Pio XII, os ataques cessaram e a população não mais precisou se esconder nos porões e túneis.

Após a libertação de Roma, em 4 de junho de 1944, as sirenes pararam de soar por um tempo e com o fim da guerra foi decidido desmantelar esses sistemas em todo o país.

Em Roma, já em 1945, 45 sirenes foram desativadas, mas outras continuaram. Nas décadas de 1950 e 1960, sua manutenção era justificada pelo medo de armas nucleares, deixando de funcionar totalmente em 21 de dezembro de 1975, quando o último som foi ouvido. Desde então, mais da metade foi desativada, 26 permanecem nos telhados de Roma, cercados por antenas parabólicas de TV e de outros sistemas.

Se um dia, esperando que isso nunca seja preciso, a guerra voltar a acontecer, quem sabe as sirenes serão religadas, pois em caso de desligamento de todos os instrumentos digitais, o bom e velho analógico voltaria a funcionar.

.: Leia mais sobre: Portugal e a Segunda Guerra Mundial

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