Por Pe. Leo Pessini Em Mundo Atualizada em 29 DEZ 2017 - 10H55

Entendendo mais inquietações sobre a edição genética

Muitos pesquisadores a partir de uma perspectiva histórica evolutiva nos lembram que em medicina, nem todos os procedimentos realizados tem 100% de segurança ou eficiência. A evolução dos conhecimentos e tecnologia, aos poucos faz com que estas intervenções sejam menos perigosas ou danosas para o ser humano. Ocorre um lento processo de evolução e aperfeiçoamento. Tomemos o exemplo da cesariana que no início do século XVIII, esta prática médica causava a morte de praticamente todas as mulheres que se submetesse a esta pratica e atualmente, e uma prática médica corriqueira que salva a vida de mães e bebês. O mesmo ocorre em relação aos transplantes de coração, que no início desta inovação, há 30 anos, somente 25% dos transplantados sobreviviam. Atualmente esta percentagem está acima de 85% e o transplantado pode continuar a viver com o novo órgão, sem grandes problemas.

Shutterstock
Shutterstock

Uma regra clara é que quando uma determinada intervenção provoca mais benefícios que riscos ou danos potenciais, vale a pena ir adiante. No que toca a edição dos embriões ainda os riscos são de tal importância que nem sequer podemos falar em benefícios, afirmam muitos pesquisadores da área. Frente a este cenário, muitos falam da necessidade de estabelecer uma moratória internacional para aprofundar os estudos na área, antes de prosseguir em tentativas frustradas.

Leia MaisCrispr-Cas9: "Inquietações éticas"Entusiasmo cientifico e inquietações éticas sobre o Crispr-Cas9Uma descoberta revolucionaria na área genética - O Crispr-Cas9A pesquisa cientifica a respeito do “gene editing” ainda precisa evoluir. As últimas notícias dos cientistas e pesquisadores desta área genética que chegam ao público a respeito desta técnica do CRISPR- Cas9, nos informam que ocorreram centenas de mutações genéticas inesperadas. É o êxito de um pequeno estudo recém-publicado na prestigiosa revista cientifica Nature Methods, de autoria de Alexander Bassuk e Stephen Tsang. O título do artigo já denuncia o problema encontrado: “Unespected mutations after Crispr.CAs9 editing in vivo” (mutações inesperadas após a edição do Crisper-CAs9 in vivo). O experimento em discussão possibilitou a correção de um gene defeituoso de dois ratos, responsáveis pela sua cegueira. Ao mesmo tempo, o seu DNA modificado apresentou mutações genéticas off target (inesperadas) em número muito superiores do quanto se esperava. Os ratos, não obstante as mutações constatadas, aparentam sãos e normais, mas isto não exclui possíveis consequências no futuro, por exemplo que algumas dessas mutações induzidas se desenvolvam em formas tumorais.

Estão começando os primeiros trials (protocolos de pesquisa) em seres humanos, prestes a acontecer na China e nos EUA. Em 2016 no Reino Unido foi dada permissão para um grupo de pesquisadores utilizar o CRISPER-Cas9 em embriões humanos. Aguardemos, pois, os resultados publicados devem ser replicados e confirmados para serem partilhados com a comunidade científica.

Esta técnica de gene editing já foi aplicada em embriões humanos para torna-los mais resistentes ao vírus HIV. Os resultados até o momento mostraram que o procedimento foi totalmente ineficaz. O próximo passo poderia ser a modificação da linha germinal, ovócitos e espermatozoides, como se todos os outros passos já estivessem sido realizados com sucesso, o que não é o caso. Sendo assim isto nos faz pensar que talvez estaríamos mais próximos de uma “previsão de horóscopo”, que de um anúncio com uma fundamentação científica credível.

Enfim, o debate a respeito da ética de seres humanos geneticamente engenheirados reacendeu-se novamente, e nos defrontamos com sérios questionamentos tais como: Devemos desenhar geneticamente nossos descendentes? Se for sim, como seria isto? Quais são os limites éticos claros deste novo poder, e quais são os fins em direção aos quais deveríamos direcioná-lo? Quais são as nossas obrigações e deveres em relação as futuras gerações? Não deveríamos ter o controle sobre a evolução, de formas que nossos descendentes possam transcender a natureza humana, ou deveríamos considerar a natureza humana como um dom de nossos antepassados para a geração do presente, que devemos cuida-la para o bem das gerações futuras?                

                                 

Escrito por
Pe. Léo Pessini Currículo - Aquivo Pessoal
Pe. Leo Pessini

Professor, Pós doutorado em Bioética no Instituto de Bioética James Drane, da Universidade de Edinboro, Pensilvânia, USA, 2013-2014. Conferencista internacional com inúmeras obras publicadas no Brasil e no exterior. É religioso camiliano e atual Superior Geral dos Camilianos.

Seja o primeiro a comentar

Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.

0

Boleto

Anterior
Próximo
Reportar erro! Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou
de informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por Redação A12, em Mundo

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.