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Existe um bispo responsável pela Lua?

Com as missões destinadas à exploração da lua, o bispo da Diocese de Orlando pode ser considerado como o “Bispo da Lua”. Leia sobre!

Escrito por Pe. José Inácio Medeiros, C.Ss.R.

16 ABR 2026 - 15H38 (Atualizada em 17 ABR 2026 - 11H02)

NASA

Muitas vezes, para se falar de alguém que vive constantemente desligado da realidade, ausente daquilo que acontece, se usa a expressão que diz que tal pessoa vive “no mundo da lua”. São muitos os que assim vivem!

Mas que exista um bispo responsável pela lua, pouca gente sabe. Na atualidade, Dom John Noonan seria, por direito, o responsável pelo satélite natural da Terra, apesar de ele não viver “no mundo da lua”.

Bispo da Lua? Como assim?

A expressão nasceu da interpretação do Código de Direito Canônico promulgado em 1917, segundo o qual um território recém-descoberto deveria ficar ligado à diocese de onde partiu a expedição que fez a descoberta. Como as missões destinadas à exploração da lua saem do centro espacial do Cabo Canaveral, localizado na Flórida, na Diocese de Orlando, o bispo desta diocese pode ser considerado como o “Bispo da Lua”.

Essa questão foi bastante comentada nas décadas de 1960/70, quando as missões Apollo levaram diversos astronautas à lua. Com a missão Artemis II, lançada pela NASA em 1º de abril, levando 04 astronautas de volta ao satélite natural da Terra depois de mais de 50 anos, essa curiosidade histórica voltou a ser comentada.

Existe até um episódio cuja veracidade não é de todo comprovada, que pode ter dado origem a essa história de “Bispo da Lua”. Ele narra o encontro do bispo de Orlando, diocese recém-criada em 1968, com o Papa Paulo VI, no Vaticano. Conta o episódio que Dom Borders, durante o encontro com o Papa, soltou, na maior naturalidade: “O senhor sabe, Santidade, que eu sou o Bispo da Lua?” É de se imaginar a cara de espanto e surpresa do Santo Padre!

Era das grandes navegações

Nos séculos XV e XVI, as mais fortes nações europeias saíram à conquista do mundo, valendo-se das descobertas náuticas e científicas que facilitaram e tornaram mais seguras as viagens pelos “mares nunca dantes navegados”, como cantou o poeta Luis de Camões nos Lusíadas.

Desta forma, com a chegada de Cristóvão Colombo à América em 1492 e de Pedro Álvares Cabral ao Brasil em 1500, despertou-se a questão do pertencimento das terras “recém-conquistadas”. Decidiu-se então que as terras de colonização espanhola ficariam ligadas à jurisdição eclesiástica da Arquidiocese de Sevilha, na Espanha.

Como a expedição foi financiada pelos Reis Católicos da Espanha (Castela), a responsabilidade espiritual recaiu sobre a metrópole espanhola. Inicialmente, não havia dioceses locais nas ilhas descobertas. Apenas mais tarde, com a estruturação da colonização, foram criadas as primeiras dioceses na ilha de Hispaniola, atual República Dominicana e Haiti. A Diocese de Concepción de la Vega e a Diocese de São Domingos (Santo Domingo) foram erigidas por bula papal em 1504, embora só tenham funcionado plenamente a partir de 1511.

As “terras descobertas” por Pedro Álvares Cabral em 1500 estavam sujeitas à jurisdição eclesiástica da Ordem de Cristo (Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo). O território recém-descoberto, primeiramente chamado de "Terra de Santa Cruz", ficou sob a administração espiritual e temporal dessa ordem que, com o beneplácito papal, tinha a responsabilidade de evangelizar as terras conseguidas com a expansão marítima. A bandeira da Ordem de Cristo, que também era ostentada nas velas das naus portuguesas, chegou a ser abençoada antes da partida e erguida na primeira missa celebrada em território brasileiro no dia 26 de abril de 1500, por Frei Henrique de Coimbra.

Em 26 de abril de 1551, foi então criada a primeira diocese brasileira, São Salvador da Bahia. A nova diocese foi desmembrada do território da Diocese, depois, a Arquidiocese de Funchal, localizada na Ilha da Madeira, que tinha jurisdição sobre vastas áreas descobertas pelos portugueses, incluindo o Brasil. A criação da nova diocese se deu para organizar a igreja nas novas terras, cobrindo todo o território brasileiro da época. Até 1676, a Diocese de Salvador fazia parte da Província Eclesiástica de Funchal, quando foi elevada à categoria de Arquidiocese e Sé Primacial do Brasil, tornando-se sede metropolitana.

Se um dia, portanto, a lua for ocupada de forma permanente, a Igreja que lá se estabelecer deverá ser primeiramente ligada a Orlando, até que tenha condições de ganhar vida própria, com a consequente criação de alguma circunscrição eclesiástica.

Explicações canônicas

Quando da descoberta da América e do Brasil, ainda não havia um código elaborado de leis canônicas, que somente passaria a existir em 1917, rezando, em um de seus cânones, que os novos territórios descobertos deveriam ficar sob a jurisdição da diocese de onde partiu a expedição exploratória. Existiam diversos códigos e compilações de leis que depois seriam aglutinados todos em um único código.

Com as viagens espaciais, veio a decorrência: como as missões espaciais saíam de Orlando, seu bispo se tornaria o responsável pela Lua, uma vez que o Código de 1917 ainda estava em vigência. Tecnicamente, ele seria o responsável pela maior diocese do mundo em termos de área, mas com uma população reduzidíssima, uma vez que a população temporária da Lua nunca passou de 2 pessoas. Mais tarde foi esclarecido que, como a Lua era inabitada, a referida jurisdição não significaria nada, a não ser a partir do momento em que o satélite natural da Terra começasse a ser habitado permanentemente.

Conta-se também que o astronauta Buzz Aldrin, da missão Apollo XI, católico que era, tenha recebido autorização especial para levar a eucaristia consigo, comungando na lua.

A possibilidade de se ter uma Diocese responsável pelas pessoas católicas que um dia vierem a habitar a lua de forma permanente mostra, entretanto, que a organização da Igreja é mesmo “universal”, indo junto com o ser humano onde quer que ele consiga chegar.

A curiosa referência ao “Bispo da Lua” destaca a longa história da Igreja Católica de expandir seu alcance e influência para novos territórios. A Igreja sempre teve uma forte presença no “Novo Mundo”, com os primeiros missionários chegando às Américas com Cristóvão Colombo em 1492. A Igreja também sempre teve uma forte presença na África, Ásia e Oceania.

Por outro lado, o Vaticano tem uma longa história científica, tendo um observatório astronômico em seu território, sendo ligado a inúmeros astrônomos que deram contribuição à ciência. A segunda maior cratera visível na Lua é chamada de Clavius, em homenagem a Christopher Clavius (+1612), padre, astrônomo e matemático jesuíta que, entre muitas outras contribuições, aperfeiçoou o calendário gregoriano.

Código de Direito Canônico de 1983

O Código de Direito Canônico atualmente em vigor aborda a "ocupação" de novos territórios sob uma perspectiva missionária, pastoral e de evangelização, e não de conquista territorial geopolítica, como muitas vezes se fez no passado.

Em seus cânones 781-792, o Código estabelece que a Igreja tem o dever de anunciar o Evangelho e que todos os fiéis devem colaborar nessa missão. A atuação em territórios não evangelizados (terras de missão) visa à implantação da Igreja e ao estabelecimento de novas comunidades cristãs.

O Código reflete a eclesiologia do Concílio Vaticano II, que enfatiza a missão como fundamental e que a Igreja deve se expandir para novas áreas geográficas ou culturais para levar a mensagem salvífica.

Leia sobre: O sonho do ser humano em conquistar o espaço

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