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“Como anunciar o Evangelho com identidade?”, questiona Dom Joel

Na 62ª Assembleia Geral, bispos traçam raio-X de um Brasil com fé "porosa" e analisam os desafios da paz social.

Escrito por Luciana Gianesini

17 ABR 2026 - 12H53 (Atualizada em 17 ABR 2026 - 14H07)

Rian Torres

Os rumos da Igreja no Brasil para os próximos anos estão sendo desenhados a partir de uma leitura atenta da realidade.

Na manhã desta sexta-feira, durante a 62ª Assembleia Geral da CNBB, Dom Francisco Lima Soares, bispo de Carolina (MA), e Dom Joel Portella Amado, bispo de Petrópolis (RJ) e presidente da Comissão para a Doutrina da Fé, apresentaram as análises de conjuntura sociocultural e eclesial que interpelam a missão evangelizadora.

Dom Joel Portella Amado, bispo de Petrópolis (RJ)

O diagnóstico de um Brasil "poroso"

Ao explicar a análise eclesial, Dom Joel Portella trouxe uma reflexão inquietante sobre o comportamento religioso do brasileiro. O bispo destacou que o Brasil não se tornou menos religioso, mas sim mais plural. Ele abandonou o modelo "binário" (católico ou evangélico) para dar lugar a uma multiplicidade de ofertas espirituais.

O termo central utilizado por Dom Joel foi a "porosidade". Segundo o bispo, os fiéis circulam entre as religiões, absorvendo conteúdos de fontes variadas e montando suas próprias construções de fé. Esse fenômeno, porém, gera uma "altíssima individualização", em que o sentido de comunidade se perde. Diante desse cenário, ele lançou a pergunta:

“Como ser uma igreja que, reconhecendo esse contexto e dialogando com ele, possa anunciar o Evangelho que tem sua identidade e suas características próprias?” Dom Joel Portella Amado, bispo de Petrópolis (RJ) e presidente da Comissão para a Doutrina da Fé da CNBB

Rian Torres Rian Torres Dom Francisco Lima, bispo de Carolina (MA)

A Igreja e o "embaraço" da ausência de paz

Dom Francisco Lima detalhou a análise sociocultural, que este ano teve como eixo a falta de paz no mundo moderno. Para o bispo, a humanidade vive um "embaraço no coração", com conflitos que lembram estados medievais de "guerra de todos contra todos".

A análise tratou de temas urgentes para o católico, como a violência nas grandes cidades e a preservação do meio ambiente. Dom Francisco reforçou que a Igreja, inspirada pelo Papa, deve ser protagonista da paz, enfrentando o que chamou de "disfuncionamento social". Ele lembrou que o Evangelho é a fonte do bom senso necessário para superar a polarização política e social que afeta até as pequenas comunidades.

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Rian Torres Rian Torres Equipes jornalísticas trabalhando na cobertura da Assembleia da CNBB

O desafio da Fé encarnada no digital

A coletiva também tocou em um ponto sensível: o catolicismo nas redes sociais. Dom Joel Portella alertou que a fé não pode ser vivida apenas no digital.

"O Verbo se fez carne, o Verbo se fez presença, Cristo se fez convívio", afirmou o bispo, ressaltando que o espaço virtual deve levar à comunidade física, onde a iniciação à vida cristã acontece no contato direto com a Palavra e os irmãos.

Sobre a polarização que gera divisões internas, Dom Joel foi enfático: o perigo é deixar que o "mundo de ódio" fermente o jeito de ser cristão. O desafio proposto é inverso: que o cristão, nutrido pela paz e pelo perdão de Jesus, seja o fermento que transforma a sociedade.

Pastoral de Encontro, não de cursos

As diretrizes que estão sendo estudadas pelos bispos buscam superar a antiga "pastoral de cursos" para sacramentos. O objetivo agora é focar em processos de acolhimento real, especialmente para jovens e adultos que buscam o Batismo ou a Crisma em um mundo de incertezas.

Dom Francisco encerrou com uma nota de esperança, citando Dom Helder Câmara: enquanto os pessimistas já "nascem enganados", a Igreja deve manter o otimismo cristão na construção da civilização do amor, acreditando que o ser humano pode recuperar a fraternidade por meio do bom senso.

Reveja:

.:: A cobertura completa da 62.ª Assembleia Geral você acompanha no Portal A12.

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