Por Marília Ribeiro Em Música

Entrevista com Ir. Miria Kolling: "o canto é o coração da Liturgia"

Nesse ano de 2015, a Ir. Miria Kolling da Congregação do Imaculado Coração de Maria está celebrando 45 anos de caminho musical. A religiosa é compositora de música litúrgica e religiosa, musicista, pedagoga e já gravou mais de 30 trabalhos em LPs e CDs, como também livros sobre canto e liturgia.Ir Miria

O caminho na música da compositora foi celebrada no 17º Encontro Nacional de Canto Pastoral que aconteceu na cidade de Aparecida entre os dia 5 e 7 de junho.

O portal A12.com conversou com Ir. Miria Kolling sobre suas experiências relecionadas a musica litúrgica e religiosa.

Portal A12 - Nesses 45 anos de carreira musical, quais as principais mudanças na música Litúrgica e Religiosa?
Ir. Miria Kolling- Surgiram muitos e bons compositores, sobretudo jovens, que estão sendo acompanhados, valorizados e incentivados pelo Setor de Música da CNBB.

- Investiu-se mais na formação litúrgica e musical dos agentes e ministros da música: Semanas de Liturgia, Encontros de Compositores, CELMU (Curso Ecumênico de Liturgia e Música), Encontros de Liturgia e Canto Pastoral, e várias outras iniciativas.

- Muitas gravações de Missas, hinos e canções, tanto para a celebração litúrgica, que requer uma música específica (chamada ritual ou ministerial), como para a religiosa, de mensagem e evangelização, de caráter mais geral.

- O Hinário Litúrgico, onde constam os cantos próprios para a Liturgia, em vários volumes, e que dão uma certa direção e conteúdo apropriado, orientando o povo de Deus para o uso correto dos cantos litúrgicos, o que tem sido de grande proveito para as comunidades. Também o livro “Cantos e Orações”, lançado pela Editora Vozes, com cerca de 1.500 cantos litúrgicos, equipe da qual participei.

- Vasta bibliografia sobre Liturgia, assim como documentos da CNBB, publicados pelas nossas Editoras católicas, de suma importância para a formação dos ministros e agentes da música.

 

É preciso esclarecer melhor a função dos músicos e cantores de Igreja: quando celebramos os Mistérios de Deus, sobretudo a Eucaristia, o centro é Jesus Cristo e não nós mesmos...

Portal A12 - Quais subsídios e apoio, na sua opinião, faltam para que os músicos consigam cada vez mais aprimorar o seu trabalho dentro das Igrejas?
Ir. Miria Kolling- Preparo técnico, estudo da teoria musical, vivência cristã e espiritual, conhecimento litúrgico, para exercer com competência o ministério da música na Celebração dos mistérios de Deus!

- Há muita falta de discernimento na escolha adequada dos cantos propriamente litúrgicos. Canta-se qualquer canto, sem levar em conta o mistério celebrado, a Palavra de Deus, o tempo litúrgico, cada momento celebrativo, enfim, o Mistério Pascal de Cristo, cume e fonte da nossa vida cristã e pastoral. A referência central deve ser Jesus Cristo e seu mistério salvador.

- A formação litúrgica dos ministros da música e do canto é pobre, quase inexistente. Lembro o liturgista e músico francês Pe. Joseph Gelineau, que teve grande influência na música renovada, após o Concílio Vaticano II. Dois livros seus, lançados ultimamente pela Paulus, são fundamentais para a compreensão e vivência do Mistério de Cristo, sobretudo quando se trata da Missa: Os cantos da missa no seu enraizamento ritual e Assembleia: povo convocado pelo Senhor. Entre tantas orientações importantes, afirma o autor que antes de serem cantores e tocadores, os músicos de igreja deveriam conhecer, aprofundar, copreender o ministério de Cristo. Muitos dos nossos músicos nem sabem o que se passa na celebração, só vão para tocar, mais como funcionários do que servidores e participantes, junto com a assembleia dos batizados.

- Com relação aos textos, que devem ser inspirados nas fontes bíblicas e litúrgicas, há muitos cantos com letras intimistas, subjetivas, sentimentais, além dos erros de português... e que falam mais de si do que do mistério de Cristo... Parece ser música litúrgica, mas quando analisadas, não condizem com a ação litúrgica, não expressam os ritos, não fazem mergulhar no mistério celebrado. Também as melodias, muitas vezes, sem inspiração, contrariam o próprio sentido da letra. Basta ouvir alguns Salmos que se compõem e cantam hoje em dia, sem critério nem nexo, sem a participação da comunidade, longos e incantáveis... Melhor seria que fossem bem proclamados do que assim mal cantados!...

- É preciso esclarecer melhor a função dos músicos e cantores de Igreja: quando celebramos os Mistérios de Deus, sobretudo a Eucaristia, o centro é Jesus Cristo e não nós mesmos, quem toca ou canta. Não fazemos show... o que se canta na Liturgia não se canta em outro lugar! Nossas vozes – e nossos instrumentos – mudam quando cantam para Deus. Deve ser percebida a diferença! Para a Divina, Sagrada Liturgia, só cabe Santa Música! E não uma música qualquer...

- Alguns documentos, como a Sacrosanctum Concilium, o Estudo 79 da CNBB, sobre a Música Litúrgica no Brasil, Animação da vida litúrgica no Brasil, a Instrução Geral sobre o Missal Romano e outros, não podem faltar nas comunidades, e devem ser estudados e conhecidos pelos agentes.

 

A Igreja precisa investir na formação dos músicos! Orientar, incentivar, dar oportunidades, fornecer subsídios... mas também exigir mais preparo e disposição de aprender. 

 Portal A12 - Qual deve ser o papel da Igreja na formação do músico que atua nas celebrações?
Ir. Miria Kolling- A Igreja precisa investir na formação dos músicos! Orientar, incentivar, dar oportunidades, fornecer subsídios... mas também exigir mais preparo e disposição de aprender. Nesse sentido, as igrejas evangélicas estão bem mais avançadas, em geral têm uma escola de música, aprendem teoria e instrumento, contam com bons corais, assumem o ministério com competência.

- Uma questão fundamental que o Concilio coloca é a participação de toda a assembleia no canto: Procure-se, por todos os meios, restabelecer e favorecer a participação plena e ativa de todo o povo na liturgia. (Sacrosanctum Concilium, nr. 14). E uma das formas mais privilegiadas de participação é o canto. Portanto, o cantor ou grupo de canto não pode abafar a voz do povo, ou cantar sozinho, sem levar em conta a comunidade. Ensaiar os cantos antes da Missa, preparar o repertório, em função da Palavra, do Tempo Litúrgico, de cada momento celebrativo, incentivar a assembleia, dirigir o canto, são meios que devem ser usados para fomentar a participação. A Liturgia é de Jesus Cristo e da Igreja, e não minha, portanto eu devo me adequar às suas exigências.

- Que tal, onde for possível, fazer um estudo regular, básico, de teoria musical, técnica vocal, estudo de algum instrumento, formação musical e litúrgica?... Conheço algumas comunidades que já tomaram tal iniciativa como fruto dos nossos Encontros, e grandes foram os progressos, para melhor desempenho dos ministros e participação da assembleia!... Faz bem sair da zona de conforto (que nos acomoda na mesmice e rotina) e empenhar-nos por aprender, aprofundar e assim melhor louvar o nosso Deus, servindo os irmãos com alegria, frutificando em vida!...

 Portal A12 - O que mais a encanta na música litúrgica e religiosa?
Ir. Miria Kolling- Uma liturgia bem celebrada, quando há harmonia entre os diversos ministérios e funções, onde se reza cantando e se canta rezando, com desejo de voltar sempre de novo, se encontrar com a comunidade, deixando-se transformar pela Palavra e alimentar pela Eucaristia.

- Falo mais da música litúrgica, diferente da religiosa, como já disse anteriormente. Cantar a liturgia, o mistério salvador de Cristo, “curtir a salvação que o Pai nos trouxe em Jesus Cristo”, como já dizia nosso querido poeta Pe. Lucio Floro, é sublime, é o céu na terra, a antecipação da liturgia celeste. Não há nada que faça tão bem à alma e nos aproxime tanto de Deus como a aclamação de todo um povo, pelo canto.

 

Verdadeira experiência de céu é ouvir toda a assembleia cantando, participando da liturgia, como sujeito da celebração. 

- Verdadeira experiência de céu é ouvir toda a assembleia cantando, participando da liturgia, como sujeito da celebração. Só na Liturgia, e de modo especial na Celebração Eucarística, a Missa, nós antecipamos o cantar do céu, fazendo ressoar o Glória, o Aleluia, o Santo e o Hosana, a grande Ação de Graças, o Amém e a Comunhão, no Banquete do Cordeiro, caminhando no tempo rumo à eternidade!

- Participar das duas mesas, conceito resgatado pelo Concilio Vaticano II: a Mesa da Palavra, onde Deus se revela como parceiro da Aliança; e a Mesa Eucarística, onde a Palavra se faz Pão e Vinho, Corpo e Sangue do Senhor, selando sua Aliança conosco. Ambas são a mesma presença do Cristo, que nos alimenta, fortalece e vai nos transformando Nele mesmo!

- Sem mais palavras, pois o Mistério da Fé que celebramos na liturgia é profundo demais... O silêncio se faz música, e a música se faz silêncio. A Liturgia é o coração da Igreja, e o canto é o coração da Liturgia: eis tudo!

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