Como as novas tecnologias estão transformando a maneira como as pessoas se comunicam, se informam e se relacionam? E como a Igreja pode acompanhar essas mudanças sem perder de vista sua missão?
Essas questões estiveram presentes no 3º Congresso de Comunicação da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), realizado nos dias 10 e 11 de setembro, na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo (SP). Com o tema “Inovação, Tecnologias Emergentes, Humanidades e Comunicação”, o encontro reuniu cerca de 300 participantes, entre religiosos e religiosas, comunicadores, pesquisadores, professores, estudantes e profissionais de diferentes áreas.
Inteligência artificial, algoritmos, cultura digital, redes sociais, ética, dignidade humana e novas formas de produção de conteúdo estiveram entre os assuntos abordados ao longo dos dois dias.
Na abertura, a coordenadora-geral do Congresso e assessora de Comunicação da CRB Nacional, Ir. Neusa Santos, apresentou o propósito do encontro:
“Desejamos que este Congresso seja um espaço de encontro, escuta, aprendizado e construção de uma comunicação cada vez mais humana e comprometida com a vida.”
A frase ajuda a compreender a perspectiva que atravessou a programação. As discussões não ficaram restritas às ferramentas que surgem no ambiente digital, mas buscaram compreender o que essas tecnologias estão produzindo na sociedade e nas relações humanas.
Uma transformação que vai além das ferramentas
A conferência magna, conduzida pela pesquisadora Lucia Santaella, tratou das relações entre inteligência artificial, algoritmos e cultura digital. A discussão abordou os efeitos dessas tecnologias na comunicação, na produção do conhecimento, na circulação de informações e na construção de sentidos.
Ao longo do Congresso, a inteligência artificial voltou a aparecer sob diferentes perspectivas: como tecnologia que modifica processos de trabalho, como elemento que interfere na circulação de informações e também como questão ética, especialmente quando suas aplicações atingem a dignidade e as relações humanas.
Esse olhar é importante porque a transformação digital não acontece apenas na tela. Ela também altera hábitos, expectativas, formas de participação e maneiras de estabelecer relações.
A conferência da professora Nataša Govekar, do Dicastério para a Comunicação da Santa Sé, tratou justamente das mudanças provocadas pela cultura digital nas linguagens, nos relacionamentos e nas formas de compreender tempo, espaço e missão.
Outro eixo do Congresso foi a influência dos algoritmos e das plataformas digitais.
O professor Matheus Jacon Pereira discutiu o funcionamento dos algoritmos e os processos de seleção, recomendação e distribuição de conteúdos. A reflexão mostrou como essas tecnologias interferem naquilo que os usuários acessam, compartilham e utilizam para compreender a realidade.
No dia seguinte, o professor Eugênio Trivinho aprofundou a discussão sobre visibilidade, poder, disputa pela atenção e existência em tempo real.
Para quem trabalha com comunicação, essas questões ajudam a compreender que publicar um conteúdo na internet não significa simplesmente colocá-lo à disposição do público. A maneira como ele será encontrado, recomendado e consumido também depende de sistemas e plataformas que possuem suas próprias lógicas.
Essa realidade desafia os comunicadores a conhecer melhor o ambiente em que atuam, sem deixar que a busca por visibilidade seja o único critério para definir o que merece ser comunicado.
A presença da Igreja nesse cenário também foi discutida durante o encontro.
A Ir. Nina Krapić, vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé, falou sobre os influenciadores religiosos no ambiente digital e apresentou as redes sociais como espaços de encontro, evangelização e comunicação. Discernimento, responsabilidade, coerência e ética foram apontados como critérios para aqueles que comunicam a fé nesses ambientes.
A questão interessa diretamente aos meios de comunicação católicos. Afinal, estar presente no ambiente digital não significa apenas adaptar conteúdos para diferentes plataformas. É preciso compreender as linguagens e os comportamentos que existem nesses espaços e, ao mesmo tempo, preservar a finalidade da comunicação da Igreja.
Nesse sentido, a discussão sobre tecnologia também se transforma em uma discussão sobre responsabilidade editorial e pastoral.
No segundo dia, as conferências abordaram as transformações provocadas pela cultura digital nos hábitos, nas instituições e nas formas de participação social. Também foram discutidas as relações de poder e a disputa pela atenção nos ambientes digitais, além da relação entre tecnologia, ética e humanidades.
A comunicação foi apresentada, assim, em uma perspectiva que ultrapassa a produção e a distribuição de conteúdos. Ela envolve escuta, relacionamento, formação e construção de vínculos.
Essa talvez seja uma das questões centrais deixadas pelo Congresso: diante de ferramentas cada vez mais capazes de produzir e distribuir conteúdos, o que significa preservar a dimensão humana da comunicação?
Para a Igreja, a resposta passa pelo próprio sentido de sua presença nos ambientes digitais. As tecnologias podem ampliar o alcance da mensagem, facilitar processos e criar novas possibilidades de diálogo. Mas continuam sendo as pessoas que dão sentido à comunicação.
O próximo Congresso de Comunicação da CRB já foi anunciado para os dias 16 e 17 de setembro de 2027, com o tema “Comunicação e Inteligência Artificial: conexões, solidão e o futuro das relações humanas”.
A escolha do tema mostra que a discussão está longe de terminar. À medida que a inteligência artificial e outras tecnologias passam a ocupar novos espaços da vida cotidiana, também cresce a necessidade de compreender seus efeitos e discernir como utilizá-las a serviço das pessoas.
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