Há homenagens que pedem discurso. Outras se sustentam nos detalhes. No entardecer do último sábado (6), na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, em Taubaté (SP), os detalhes falavam bastante. O lugar, primeiro: a comunidade fica ao lado da Faculdade Dehoniana e do Convento Sagrado Coração de Jesus, onde Padre Zezinho, scj, reside. A data, depois: o segundo dia da novena em honra ao Sagrado Coração de Jesus. E, no centro de tudo, não um palco, mas o altar.
Foi ali que amigos, religiosos, músicos, colaboradores e fiéis se reuniram para agradecer pela vida e pela missão do sacerdote, que completa 85 anos nesta segunda-feira, 8 de junho.
Padre Zezinho não chegou aos 85 anos como um nome guardado apenas na lembrança de quem viveu determinada época. Nos últimos dias, voltou a ser assunto na imprensa nacional, em reportagens que recuperaram sua trajetória e também as críticas que ainda recebe de grupos católicos mais conservadores. A cena de Taubaté, porém, mostrava outro ângulo: o padre visto de perto, entre pessoas que conhecem sua história não só pelos discos, mas pela convivência.
Em muitas capas de discos de Padre Zezinho, há um elemento que chama atenção antes mesmo dos títulos: a cruz dehoniana no peito. Ela não aparece como adereço; é quase uma assinatura. Antes do cantor, do escritor, do comunicador e do compositor popular, está o sacerdote dehoniano, formado na espiritualidade do Coração de Jesus. Na celebração de sábado, isso não precisava ser explicado. Estava no lugar, na novena, na comunidade e na forma como ele foi acolhido.
Essa identidade também ajuda a compreender sua obra. Padre Zezinho nunca separou totalmente canção, catequese, pregação, livro, rádio e formação. Em seu trabalho, tudo parece nascer de uma mesma preocupação: comunicar a fé em uma língua que o povo consiga reconhecer como sua.
Por isso, sua presença na história da música católica brasileira não se resume ao fato de ter composto canções conhecidas. Ele ajudou a estabelecer um modo de evangelizar que aproximou a linguagem religiosa da vida comum, sem abandonar o conteúdo da fé.
Quem observa sua discografia, por exemplo, percebe que Padre Zezinho sempre deu peso aos títulos de seus álbuns. "Histórias que conto e canto", “Canções que a Vida Escreveu”, “Sol Nascente, Sol Poente”, “Um Certo Galileu”. Não são nomes neutros. Revelam um autor que pensa a própria obra como uma catequese. Os títulos já indicam o caminho antes mesmo da primeira faixa.
Essa atenção à palavra explica por que sua produção alcança ambientes tão diferentes: igrejas, casas, escolas, grupos de jovens, programas de rádio e encontros de formação. Padre Zezinho não escreve apenas para ser cantado em celebrações; escreveu para conversar com quem estava tentando entender Deus, a família, a juventude, a vocação, a Igreja e as dores do cotidiano.
Na missa em Taubaté, essa história apareceu de maneira concreta quando Andréia Zanardi e Padre Joãozinho, scj, cantaram juntos “Cidadão do Infinito”, música que também dá nome à biografia autorizada lançada na ocasião.
Andrea tem uma ligação direta com esse percurso. Integrante do grupo Cantores de Deus, fundado por Padre Zezinho, ela pertence a uma geração de artistas que não apenas interpretou suas composições, mas foi formada por sua maneira de unir música e evangelização.
O Padre Joãozinho, confrade dehoniano, teólogo e comunicador, concelebrou a missa, trazendo a proximidade de quem compartilha com ele o mesmo carisma e parte da mesma missão comunicadora. Quando a canção chegou ao verso “não tenho lar, mas ganhei um povo”, a frase não soou como mera poesia. Dizia tudo sobre a cena.
Entre os presentes na celebração estavam também religiosas da Congregação das Irmãs Paulinas. A presença delas tinha peso histórico. Ao longo da caminhada de Padre Zezinho, as Paulinas foram parceiras decisivas na difusão de livros, músicas, programas e projetos de comunicação. Em um tempo em que a música católica ainda buscava canais para chegar ao grande público, essa união ajudou a abrir caminhos.
A ligação apareceu também no trabalho da jornalista Gabi Bonvecchio, autora da biografia autorizada do sacerdote. Durante a celebração, ela recordou que parte do processo de pesquisa passou justamente pela convivência com as Irmãs Paulinas e pelo contato com documentos, materiais e lembranças acumuladas ao longo de décadas.
Gabi falou do trabalho e da responsabilidade de organizar uma história que muita gente conhece em pedaços: por uma música, por um disco antigo, por uma catequese, por uma entrevista, por uma frase ou por uma memória de família.
“Foi uma honra poder contar essa história. A história do Padre Zezinho é uma história inspiradora. Merece ser contada e cantada também”, destacou a jornalista.
Durante a celebração, Padre Zezinho falou pouco, mas deixou uma imagem nítida de sua forma de pensar. Recordou aprendizados dos tempos de estudo nos Estados Unidos e retomou uma lição que, segundo ele, vale especialmente para catequistas:
“A coisa mais difícil para um catequista é dialogar. A paciência de deixar um outro querer te corrigir. Mas deixa ele falar.”
Depois, completou: “Deixa ele falar. Só depois você fala.”
A assembleia sorriu. A frase tinha o jeito direto de quem passou a vida ensinando sem perder o gosto pela conversa.
Há algo importante aí. Padre Zezinho nunca foi apenas o padre das canções familiares e das melodias conhecidas. Também foi e continua sendo um interlocutor. Escreve, responde, argumenta, discorda, provoca e aceita ser questionado. Talvez por isso siga despertando adesão e incômodo.
A missa em Taubaté não teve a solenidade distante das grandes homenagens oficiais. Tinha outro tom: o de uma comunidade que conhece o homenageado pelo nome e pela presença.
Isso torna a celebração ainda mais significativa para quem acompanha Padre Zezinho a partir de fora. Aos 85 anos, ele não é apenas uma referência da música católica, nem somente um personagem importante da comunicação religiosa no Brasil. É um sacerdote que continua situado em uma comunidade concreta, dentro de uma congregação, cercado por pessoas que participaram de sua história e por outras que chegaram depois, alcançadas por aquilo que ele produziu.
Sua obra pode ser medida por discos, livros, programas e canções. Entretanto, Padre Zezinho segue sendo lembrado pelo tipo de presença que construiu na Igreja do Brasil: a de um sacerdote que fez da palavra um serviço, da música uma catequese e da comunicação um modo de permanecer junto do povo.
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