Por Luciana Gianesini Em Redação A12 Atualizada em 26 AGO 2019 - 16H37

Tereza Pasin: "Nossa Senhora não gostava de ficar sozinha"

'Ela queria ficar com seus filhos...'

Há mais de 300 anos, das águas do Rio Paraíba surgiu uma devoção que mudaria para sempre a história do Brasil e do mundo.

A convidada desta semana no Redação A12 ao vivo, a historiadora Tereza Pasin, responde perguntas dos devotos a respeito da história de Nossa Senhora Aparecida

Renan Ventura
Renan Ventura


Figura
muito querida e respeitada entre aqueles que conhecem um pouco mais a fundo a história da Padroeira do Brasil, há muitos anos Tereza estuda a devoção mariana mais brasileira de todas, sendo uma referência no assunto. 

Confira as curiosidades e os principais fatos ligados a essa história tão bonita da presença da Mãe Aparecida junto a seu povo.

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Por que 12 de outubro é a data escolhida para celebrar a Padroeira?

"Na verdade, a nossa festa já teve várias datas. A primeira foi 25 de março, com origem portuguesa. Depois 8 de dezembro, 11 de maio... sempre com festa. Depois, passou para o último domingo de maio. Aí voltaram para 8 de dezembro, depois 7 de setembro. Foi uma data que não deu certo, porque no período da manhã as pessoas estavam sempre envolvidas com as atividades cívicas dos desfiles da Independência, mas os padres sentiram que era pouco tempo para a celebração.

Aí a CNBB se reuniu e achou melhor passar para 12 de outubro, por conta da descoberta da América, por ser o mês do Rosário e Dia da Criança, mas também por ser o mês do encontro da imagem. Pelo diário do Conde de Assumar (aquele que seria recebido com o banquete preparado com os frutos da pesca milagrosa), ele deve ter chegado à vila por volta do dia 17 de outubro de 1717. Por isso, outubro é o mês de Nossa Senhora desde 1956", conta ela.



A imagem que está no Santuário é original?

"Sim. A imagem é a que foi encontrada no Rio Paraíba do Sul. E ela já teve sete altares. Nos sete, sempre foi a imagem encontrada no Rio.

Ela só não esteve conosco em situações especiais e por ocasião do atentado. Quando Ela voltou, foi uma festa!", diz.

Contando rapidamente sobre o encontro da imagem pelos pescadores, Tereza explica que João Alves foi quem a encontrou primeiro. Ele então a entregou para Felipe Pedroso, que era o mais velho. Ele foi quem fez o primeiro altar, em sua casa, que ficava próximo de onde hoje se situa a Santa Casa de Aparecida.

Depois, ele mudou-se para o bairro Ponte Alta. A seguir, voltou para o Itaguaçu, dando a imagem para seu filho Atanásio Pedroso, que fez o quarto oratório, onde ocorreu o Milagre das Velas.

Tendo ficado sabendo do milagre, o padre José Alves Vilela mandou que um sacristão fosse checar a imagem e, com a confirmação, mandou construir a primeira capelinha de barro, o quinto altar.

Ficando esta muito pequena para o número crescente de devotos, mandou construir uma maior, no Morro dos Coqueiros. Após uma obra que durou dez anos, tínhamos então a Basílica Velha, sob o comando do Frei Monte Carmelo. Este era o sexto altar.

Em 03 de outubro de 1982, enfim, ela veio então para o seu sétimo altar, no nicho do Santuário Nacional", explica Tereza.


"Após o encontro da imagem, em 1717, não tínhamos a Estrada Real aqui perto, mas ela era o que todos procuravam à época. Então, quem chegou aqui primeiro foram os viajantes vizinhos, depois os que vinham um pouquinho mais de longe. E hoje temos até romeiros vindos do exterior. Guaratinguetá foi uma das primeiras que vieram em romaria a pé para visitar a Mãe Aparecida.

Em 1732, Aparecida recebeu o nome de Sítio das Romarias, batizado pelos próprios viajantes. Uma das primeiras romarias veio da Igreja Santa Cruz da Beira da Estrada, mas - oficialmente e provavelmente, - os primeiros vieram de Minas Gerais", explica. "O que importa é que Nossa Mãe nunca esteve sozinha", conclui Tereza.

Por que Nossa Senhora Aparecida é negra?

Tereza conta que, através de uma carta do Padre Francisco, um jesuíta que esteve aqui em 1748, nós sabemos que quem moldou a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi Frei Agostinho de Jesus, com barro trazido de Santana do Parnaíba (SP). Este barro foi queimado em forno próprio de cerâmica, mas a imagem ficou por longos anos nas águas do rio.

"Porém, sabemos que ela ficou por 28 anos próxima à chama das velas, assumindo a cor que tem hoje, uma cor de canela escura, a Nossa Mãe Negra, que tem a nossa identidade, dos negros e índios", relata.

A Imagem já foi modificada?

"Não. Ela foi restaurada. A cabeça já caiu cinco vezes. No último atentado, em 16 de maio de 1978, a grande restauradora Maria Helena Chartuni foi quem a refez, tal qual está hoje. Ela olha para baixo, vê o que seus filhos estão passando", diz.

"O padre Alfredo Morgado, preocupado com o pescoço da imagem, que já estava muito danificado, colocou os cabelos longos, mas isso já faz tanto tempo que nós a reconhecemos assim", conclui.

Por quais lugares a Imagem passou até chegar no Santuário Nacional?

Além dos sete altares, ela também esteve na casa de Silvana da Rocha, que era parente dos três pescadores. Ela era casada com Domingos Alves e mãe de João Alves. Felipe Pedroso era seu irmão.

"Na casa de Silvana, não se sabe bem por quanto tempo, todas as sextas-feiras a comunidade se reunia para rezar diante da imagem de Nossa Senhora, que ficava em um caixote. Conta-se que se ouviam estrondos de dentro do caixote, na noite de sexta para sábado. Eu, na minha reflexão, acredito que isso era uma demonstração de que Nossa Senhora não gostava de ficar sozinha. Ela queria ficar com seus filhos. Daí, com o Milagre das Velas, foi feita a primeira capelinha", explica Tereza. 

Por que Aparecida se tornou Padroeira do Brasil?

"Que lindo foi!", exclama a historiadora. Ela conta que, em 1930, o Papa Pio XI, depois de um pedido para se ter uma festa dedicada a ela (já tínhamos nesta época o título de Rainha do Brasil e de Basílica Menor, dado em 1908), a declarou como nossa Padroeira.

CDM Santuário de Aparecida
CDM Santuário de Aparecida
Em 1931 o Rio de Janeiro celebrou Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.


"
E a festa foi maravilhosa! Aconteceu na capital da República à época, o Rio de Janeiro. A imagem foi levada de trem, com quatro vagões: o primeiro foi transformado numa capela e os outros três levaram os convidados. E assim, a viagem que deveria levar seis horas, levou dez. E as pessoas, sabendo que o 'trem de Nossa Senhora Aparecida' ia passar, foram às estações, onde o trem parou em todas elas. 

Chegando ao Rio, Dom Sebastião Leme Cintra deu a Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. No dia seguinte, enviou um telegrama ao Papa, informando a presença de 1 milhão de pessoas, o que era incrível para aquela época. Ela já era Rainha!", festeja. Aqueles que tinham perdido a passagem da santa, então, esperaram a volta do trem, que parou novamente nas estações.

Qual a origem da Imagem de Aparecida?

Tereza diz que dois padres vieram pregar na capela em 1748 e, depois, escreveram uma carta contando o que tinham visto, sobre a imagem feita por frei Agostinho de Jesus.

"Então, esta é a origem da imagem de Nossa Senhora. Ele, que era discípulo de frei Agostinho da Piedade, assim como seu predecessor, teve uma vida muito santa", pontua Pasin.

Aparecida é Nossa Senhora da Conceição?

Quando João Alves a encontrou no Rio, encontrou primeiro o corpo. Ele estava realizando um trabalho, que era providenciar peixes para o banquete que seria oferecido ao Conde de Assumar, a mando da Câmara de Vereadores da vila de Guaratinguetá.

Cansados de uma tentativa de pesca sem sucesso, encontraram então a imagem e a embrulharam na camisa, o primeiro manto de Nossa Senhora. Depois, encontrou a cabeça. Colocando-a no corpo, ele mesmo a identifica como Nossa Senhora da Conceição. Tendo aparecido aqui, ficou conhecida como 'Aparecida'. 

Quem cuidava do Santuário antes dos missionários redentoristas?

"Que pergunta bonita!", exclama. Ela diz que, inicialmente eram os padres diocesanos da Vila de Santo Antonio de Guaratinguetá. Mas o movimento de romeiros estava aumentando muito e, então, Dom Eduardo, de Goiânia, e Dom Arcoverde, de São Paulo, foram à Europa em busca de padres que pudessem ficar aqui. 

"E os Missionários Redentoristas aceitaram - e quiseram - vir. Mas aceitaram mesmo! O padre Gebardo disse: 'Não sou mais criança, tenho idade avançada, mas vou aprender aquela língua e quero ir', e assim fez, há 125 anos", finaliza.

:: Acesse A12.com/padroeira e A12.com/aparecida

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