O Papa Leão XIV encerrou sua viagem apostólica à França nesta segunda-feira (28), em Metz. A cidade da região da Mosela, próximo a Alemanha, recebeu três momentos da agenda do Pontífice: um encontro inter-religioso, uma reflexão sobre as raízes da Europa e a celebração da Santa Missa na Catedral de Santo Estêvão.
A escolha de Metz esteve relacionada à história da cidade e da região. O local foi marcado por conflitos entre povos europeus e também pela posterior construção de caminhos de reconciliação. A presença do Papa teve como eixo a paz, o diálogo e a unidade.
No Centro de Congressos Robert Schuman, Leão XIV encontrou representantes de diferentes tradições religiosas. Depois, participou do encontro “Nas raízes da Europa pela paz e pela unidade”. À tarde, celebrou a Eucaristia na Catedral de Santo Estêvão.
Durante o encontro inter-religioso, Leão XIV destacou a responsabilidade das religiões na construção da paz. Para o Papa, o diálogo entre diferentes tradições não significa abandonar a própria identidade.
“Dialogar não diminui a nossa identidade, mas expressa-a com simplicidade e verdade, abrindo-nos à diferença do outro.”
O Pontífice também afirmou que a religião não pode ser utilizada para justificar violência ou opressão. Segundo ele, qualquer ação que desfigure a dignidade humana não pode ser apresentada como expressão autêntica da fé.
“Invocar o nome de Deus para legitimar a violência ou a opressão configura uma profanação desse nome.”
A segunda agenda do Papa em Metz foi dedicada às raízes europeias. O encontro ocorreu no Centro de Congressos Robert Schuman, espaço que leva o nome de um dos principais nomes ligados ao processo de integração europeia.
Leão XIV recordou que Robert Schuman viveu na Mosela e exerceu atividade política pela região. Em seu discurso, o Papa retomou a importância da Declaração de 9 de maio de 1950, documento que propôs a união das produções francesa e alemã de carvão e aço e é considerado um texto fundador da integração europeia.
Para o Pontífice, a Europa é uma realidade geográfica, porém sua formação também passa por encontros entre culturas, povos e tradições.
Leão XIV citou ainda a contribuição do cristianismo e do monaquismo para a formação cultural europeia. Em Metz, ele recordou especialmente São Bento e São Crodegango.
“Não é possível falar da Europa sem fazer referência ao cristianismo.”
Segundo o Papa, a influência do cristianismo alcançou áreas como educação, assistência aos pobres, hospitais, ciência, direito e organização das cidades. Em Metz, essa herança também estaria ligada à atuação de São Crodegango e à difusão do canto gregoriano.
A guerra também esteve entre os temas centrais da reflexão do Papa. Ao recordar Robert Schuman, Leão XIV defendeu esforços concretos para a construção da paz.
“É necessário empenhar-se num diálogo paciente, demonstrar coragem nas negociações e estar disposto a sacrificar algumas posições em prol do bem maior da paz.”
O Pontífice também fez referência aos gastos militares e afirmou que a busca pela paz não deve ser confundida com uma postura ingênua. Para ele, a construção da paz exige iniciativas proporcionais aos riscos enfrentados pelo mundo.
A própria Declaração Schuman de 1950 defendia esforços criativos para preservar a paz e propunha uma integração econômica entre França e Alemanha como caminho para superar antigas rivalidades.
Leão XIV também destacou o respeito ao direito internacional e ao multilateralismo. Na avaliação apresentada em seu discurso, esses elementos podem contribuir para impedir que divergências entre países sejam resolvidas pela força.
Os jovens receberam uma atenção especial no discurso sobre a Europa. O Papa os convidou a assumir responsabilidades na construção da paz, desde as relações pessoais até a vida comunitária. “Não vos submetais à lógica da violência e da opressão.”
Em seguida, Leão XIV falou sobre família, defesa da dignidade humana e participação na vida das comunidades. “Sede construtores de comunidade!”
A mensagem dirigida aos jovens esteve relacionada ao próprio contexto da viagem apostólica. Antes de Metz, o Papa havia participado de encontros com jovens em Paris e, segundo seu balanço aos jornalistas durante o voo de retorno a Roma, o encontro com 80 mil jovens no Stade de France esteve entre os momentos mais marcantes da viagem.
Veja como foi a viagem do Papa em Paris
Na tarde de segunda-feira, Leão XIV celebrou a Santa Missa na Catedral de Santo Estêvão. O templo é um dos principais símbolos de Metz e é conhecido como “Lanterne du Bon Dieu”, ou “Lanterna do Bom Deus”.
A Catedral possui cerca de 6.500 metros quadrados de vitrais. O conjunto reúne obras de diferentes períodos e artistas, incluindo Marc Chagall. A própria catedral destaca essa característica como uma de suas principais marcas.
Na homilia, Leão XIV utilizou a arquitetura do templo como imagem para falar sobre a convivência entre diferentes culturas. “O futuro da Europa não reside na uniformidade, mas na harmonia das diferenças.”
O Papa relacionou os vitrais de Metz à capacidade de diferentes histórias e culturas formarem um conjunto. Ele também recordou que algumas das obras presentes na Catedral são de Chagall, artista judeu.
Para Leão XIV, essa característica transforma o templo em um símbolo de diálogo entre tradições. “A luz do Senhor não apaga as especificidades, mas une histórias e culturas diversas num único e maravilhoso mosaico de paz.”
A homilia retomou ainda a mensagem bíblica de direito, justiça e paz. A partir das imagens do deserto, do jardim e da casa, o Papa afirmou que a paz, embora seja um dom de Deus, também exige uma resposta humana e um esforço compartilhado.
Outro ponto da homilia foi a relação entre perdão e reconciliação. Ao comentar o Evangelho de Mateus, Leão XIV afirmou que a resposta à violência não deve ser determinada pela lógica da vingança. “Não é verdade que quem se vinga é mais forte do que quem perdoa.”
O Papa também relacionou essa mensagem à própria história da região. Metz e a Mosela foram marcadas por conflitos entre povos europeus. Para Leão XIV, essa experiência histórica pode oferecer uma referência para a superação do ressentimento.
“É preciso força e grande equilíbrio para não se deixar oprimir pelo mal, sobretudo quando as feridas sofridas são profundas.”
A reflexão terminou com um convite à construção de uma sociedade capaz de respeitar a dignidade humana e a relação do homem com Deus.
A Missa em Metz foi o último encontro público de Leão XIV durante sua viagem apostólica à França. Depois da celebração, o Papa agradeceu às autoridades civis, aos bispos, sacerdotes, diáconos, consagrados, leigos e voluntários envolvidos na organização da visita.
Durante o voo de retorno a Roma, o Pontífice também fez um balanço dos quatro dias de viagem. Ele recordou especialmente a passagem por Lourdes e o encontro com os jovens em Paris.
A conversa com os jornalistas abordou ainda temas como os abusos sexuais na Igreja, a defesa da vida, a questão da moradia, os conflitos entre Rússia e Ucrânia, os gastos militares e os riscos associados à inteligência artificial.
Sobre as guerras, Leão XIV reafirmou a defesa do diálogo. Ao ser questionado sobre Rússia e Ucrânia, afirmou:
“A Igreja continua levantando a voz. Não podemos obrigar ninguém; às vezes parece que isso pode ser inútil, mas vamos continuar falando, vamos continuar convidando, vamos continuar anunciando o Evangelho.”
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