Durante séculos, a comunidade afro-brasileira foi sistematicamente marginalizada, sendo uma marca dolorosa dos tempos em que foram escravizados, do descaso pós-abolição e do racismo estrutural que se enraizou na sociedade.
Apesar das conquistas alcançadas com intensa luta, as profundas cicatrizes de quase 400 anos de escravidão persistem.
O carisma da Congregação Redentorista encontra nessa dor um campo de missão, já que o objetivo sempre foi levar a Copiosa Redenção aos mais necessitados.
Em suas homilias e ações, os Missionários Redentoristas têm ressaltado a importância de um enfoque na questão racial, reconhecendo a complexidade da relação histórica entre a Igreja e a comunidade negra.
O Portal A12 teve a oportunidade de conversar com quatro Missionários Redentoristas negros da Província Nossa Senhora Aparecida, que utilizam seus ministérios para promover a igualdade racial entre os fiéis.
Os redentoristas entrevistados contribuem ativamente para a causa da igualdade racial por meio de uma abordagem versátil, realizada em diferentes frentes de trabalho.
A valorização da cultura e da ancestralidade negra é presente dentro Congregação Redentorista. Um exemplo notável é o Pe. Vanderlei Souza, C.Ss.R., que compartilha um legado familiar de Congadeiros de Viçosa (MG), sendo sua mãe a Rainha Conga mais velha do grupo. O sacerdote destacou a maneira como a história do povo negro se entrelaça com as Sagradas Escrituras:
“Quando nós falamos de história afrodescente, é uma história marcada pelo sofrimento, dor e escravização. E quando nós encontramos o início da fé cristã, ela começa na memória da escravização no Egito, na ceia de Jesus com os discípulos, então temos muito mais a ver dentro da história com os sofrimentos e as penas do que divergências”. Temos a dor, temos as marcas da escravização, e temos a vitória”.
De acordo com Pe. Carlos Vítor, C.Ss.R., as grandes transformações no mundo eclesial tiveram início após o Concílio Vaticano II, que buscou aproximar a Igreja do mundo moderno. Esse movimento permitiu um diálogo mais aberto e, consequentemente, uma compreensão renovada da realidade social:
“Com o Vaticano II, o negro passou a ser reconhecido. E como revelação de Deus, foi aberto um amplo espaço na Igreja para se falar e conversar sobre a pessoa do negro, da negra e as tradições que nosso povo, aqui no Brasil, precisou se reinventar para continuar a viver a dimensão da sua fé, de seu amor a Deus e seus antepassados”.
O Pe. Rogério Ramos, C.Ss.R., enfatizou a importância do engajamento da juventude na superação do preconceito que ainda persiste:
“Os jovens são de uma geração com muitíssimas possibilidades, de liberdades que eu não tive na minha juventude por uma série de fatores. Hoje, vocês podem nos ajudar a superar esse drama estruturado em nossa sociedade. Como? Vocês têm um ímpeto, uma busca, que supera condicionamentos que outrora eram muito fortes, muito impostos”.
Para o Ir. Orlando Augusto, C.Ss.R., a era digital é crucial para a formação de uma nova geração livre de preconceitos:
“Nós vivemos na era digital, hoje, para que as nossas gerações possam estar preparadas para enfrentarem e saberem lidar com questões de desigualdade racial, que ainda continuam muito presentes, é preciso ter uma bagagem. Principalmente através da internet, é louvável vermos iniciativas de grupos, coletivos e pessoas que se dedicam a ensinar o letramento racial e conteúdos históricos para que a população negra possa, cada vez mais, se aprofundar em seus valores”.
.:: Conheça a Articulação dos Missionários Redentoristas Negros ::.
Apesar dos avanços e da crescente conscientização, essa discussão está longe de ser concluída. A estrutura racial discriminatória no Brasil ainda se manifesta e os Missionários Redentoristas reconhecem que essa realidade não pode ser ignorada.
O compromisso, portanto, se estende à reflexão e à ação contínua, buscando ajudar a sociedade em geral, auxiliando no processo de formação da mentalidade dos jovens em relação à questão racial.
A continuidade desse diálogo é vista como oportuna, coerente e necessária para aprofundar a identidade do fiel negro e negra dentro da Igreja.
add_circle_outline Especial Consciência Negra no Jornal Regional
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