Presente em cordões, terços e outros objetos de devoção, a cruz é um dos símbolos mais conhecidos da fé cristã. Para alguns peregrinos, porém, ela também acompanha fisicamente o caminho até o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, carregada ao longo de quilômetros de caminhada e marcada por histórias pessoais de fé, gratidão e esperança.
É o caso de Cauê Ribeiro, de 31 anos, morador de Itaquera (SP), e Francisco da Silva, de 64 anos, que saiu de Charqueada (SP) rumo à Casa da Mãe Aparecida. Embora tenham motivações diferentes, os dois carregam suas cruzes como expressão de suas histórias com Nossa Senhora e de experiências que continuam a fortalecer a fé de outros devotos.
A relação de Cauê com a peregrinação já soma 19 anos, sendo 11 deles carregando uma cruz. O gesto de levar a cruz começou em 2015, após seu tio sofrer um acidente de carro e ficar em coma. Diante daquela situação, ele recorreu a Nossa Senhora Aparecida em oração, pedindo que o melhor fosse feito pelo do familiar.
O tio faleceu, mas Cauê encontrou na experiência uma razão para continuar sua caminhada de fé. A decisão de carregar a cruz também foi marcada por uma lembrança: antes do acidente, seu tio, que era caminhoneiro, havia comentado que gostaria que uma cruz fosse colocada no local caso morresse na estrada.sde então, Cauê passou a levar esse símbolo em suas peregrinções, como sinal de gratidão e de sua devoção à Mãe Aparecida.
“A cruz é um significado do amor de Deus e também da Mãe Aparecida, que concebeu Jesus Cristo para morrer por nós”, explica.
Ao longo dos anos, a estrada também se tornou um lugar de aprendizado. Para ele, a convivência com outros peregrinos e os gestos de solidariedade encontrados pelo caminho revelam que a caminhada vai além do esforço físico.
“A Dutra ensina muito sobre o amor do ser humano um pelo outro, de um ajudar o outro, de um estar preocupado com o outro”, afirma.
Aos 64 anos, Francisco da Silva chegou ao Santuário Nacional depois de uma caminhada de aproximadamente 17 dias, iniciada em Charqueada (SP). A motivação para percorrer o trajeto foi uma promessa relacionada à sobrinha, que enfrentava um câncer e faleceu aos 38 anos.
Mesmo após a perda, Francisco decidiu seguir até Aparecida para cumprir o que havia prometido. Sua cruz, que tem cerca de 12 metros de travessão, também enfrentou dificuldades pelo caminho: durante o percurso, um carro atingiu a estrutura, que se quebrou. Ele fez um reparo improvisado e continuou a viagem.
“Eu vim para pagar a promessa feita por ela”, conta Francisco.
Ao falar da sobrinha, Francisco se emociona. A saudade se mistura à preocupação com o filho dela, de 11 anos, e ao desejo de que a família siga em frente. Para ele, a caminhada é uma forma de manter viva a promessa e expressar sua devoção.
A cruz também passou a acolher as intenções de outras pessoas. Durante a peregrinação, devotos escrevem seus nomes na estrutura e fazem pedidos, confiando suas esperanças à oração. Francisco compreende esse gesto como parte da experiência de fé e penitência que acompanha o caminho.
Em seu testemunho, ele destaca que suas orações não se limitam às próprias necessidades. “Todo dia que eu levanto da minha cama para trabalhar, eu peço para Nossa Senhora o melhor para nós. Para todo mundo, não é só para mim”, afirma.
No Santuário Nacional, as cruzes chamam a atenção de quem passa. Além de observar as estruturas e conhecer as histórias dos peregrinos, muitos devotos fazem questão de se aproximar, escrever seus nomes e registrar o encontro em fotografias.
Esses gestos revelam que a experiência não se encerra na história de quem carrega a cruz. Ao conhecer as motivações de Cauê e Francisco, outros fiéis encontram inspiração para suas próprias caminhadas, pedidos e agradecimentos. O exemplo dos peregrinos passa a fazer parte da experiência de fé de quem cruza seu caminho.
Para Cauê, a solidariedade encontrada na estrada é uma das maiores lições da peregrinação. Francisco também relata que não precisou gastar com nada, a solidariedade das pessoas o ajudou a chegar até a Casa da Mãe Aparecida. Suas mensagens são um convite para que as pessoas cultivem a empatia e reconheçam o valor de ajudar umas às outras.
“O ser humano deveria ser mais unido. E vamos todos seguir firmes, fortes e felizes”, deseja Cauê.
Entre o peso da madeira e as histórias que elas acompanham, as cruzes de Cauê e Francisco apontam para uma fé que se manifesta de diferentes maneiras: na gratidão, na saudade, no cumprimento de uma promessa e na disposição de continuar caminhando. Em Aparecida, esses testemunhos também recordam que a devoção pode inspirar outras pessoas e fortalecer os laços de esperança e solidariedade entre os peregrinos.
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