O início do mês de outubro foi marcado, em Aparecida, por celebrações voltadas àquilo que está na origem da vida cristã: a missão. Na Basílica Histórica, na noite de 30 de setembro, e no Santuário Nacional, na manhã de 1º de outubro, a abertura do Mês Missionário reuniu bispos, sacerdotes, religiosas, representantes das Pontifícias Obras Missionárias e devotos.
Na primeira celebração, a presidência foi de Dom Esmeraldo Barreto de Farias, bispo emérito de Araçuaí (MG), com a presença e concelebração de Dom Maurício da Silva Jardim, bispo de Rondonópolis-Guiratinga (MT) e presidente da Comissão Episcopal para Ação Missionária e Cooperação Eclesial da CNBB. No dia seguinte, no Altar Central do Santuário Nacional, Dom Maurício presidiu a celebração.
Outubro é o mês em que a Igreja no Brasil intensifica a reflexão e as ações da Campanha Missionária, mas também é o período em que o Santuário vive a preparação e a Festa de Nossa Senhora Aparecida. A presença da Comissão Missionária da CNBB em Aparecida reforçou a ligação entre esses dois momentos: a devoção à Mãe Aparecida acontece dentro de uma Igreja chamada a anunciar Jesus e a fazer chegar o Evangelho aos diferentes ambientes da vida.
Na homilia da Basílica Histórica, Dom Esmeraldo partiu da cena do Evangelho em que Jesus está a caminho com os discípulos. A imagem do caminho, tão presente na experiência dos romeiros que chegam a Aparecida, serviu para falar diretamente da missão.
“A imagem de estar a caminho é uma imagem muito bonita, por quê? Porque ser missionário é estar a caminho com Jesus, que é o missionário do Pai, que desce do céu, aqui caminhou conosco e continua caminhando conosco. Reparem que, quando o padre Rafael proclamou o Evangelho, ele proclamou assim: ‘O Senhor esteja convosco’. Qual foi a nossa resposta? Deus está aqui em nós e Jesus está no meio de nós. Parado ou caminhando? Caminhando, porque Ele nos acompanha.”
O bispo emérito de Araçuaí relacionou essa presença de Cristo com a própria experiência de quem chega ao Santuário como romeiro. Jesus não apenas é encontrado na celebração: Ele acompanha o cristão depois dela, nos lugares onde vive, trabalha e convive. Por isso, a missão não começa com uma atividade pastoral específica, mas com a própria condição de batizado.
“Jesus caminha conosco; Ele quer que saiamos com Ele como seus discípulos no lugar onde a gente mora, onde nós trabalhamos, por onde andarmos, também durante as romarias, Ele caminha conosco. Todos somos discípulos e missionários desde o batismo. Então, isso aqui é muito importante. Eu pergunto para vocês: vocês já estão missionários e missionárias, sim ou não?”
Essa compreensão também ajuda a olhar para o Mês Missionário para além das atividades pastorais realizadas em outubro. O leigo que trabalha, a família, o sacerdote, a religiosa, o diácono e o bispo participam da missão a partir da vocação que receberam. Na celebração, Dom Esmeraldo lembrou ainda que essa missão se desenvolve em diferentes espaços da vida, e não somente dentro da igreja.
O tema escolhido para este ano — “Um em Cristo, unidos na missão” — foi apresentado em estreita relação com a mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial das Missões. No Santuário Nacional, Dom Maurício destacou a afirmação do Pontífice de que “no centro da missão está o mistério da união com Cristo”.
A reflexão encontrou um lugar particularmente expressivo no Santuário Nacional. Ao explicar o espaço da Basílica, Dom Maurício lembrou que o altar, a Palavra e a Eucaristia estão no centro da construção. As representações das águas que percorrem o piso remetem ao Batismo; Nossa Senhora Aparecida aponta para Cristo; e, nas laterais, homens e mulheres recordam diferentes testemunhas da fé e da missão.
Para Dom Maurício, essa configuração do Santuário ajuda a compreender a relação entre o lugar e o tema do Mês Missionário: Cristo está no centro, e é a partir dele que a missão se desenvolve. A unidade, portanto, não significa que todos devam exercer a mesma função ou pensar da mesma maneira. Os diferentes carismas e vocações encontram em Cristo o ponto de convergência.
A reflexão também chamou atenção para o efeito das divisões sobre o testemunho cristão:
“A missão requer corações reconciliados, corações desejosos de comunhão, de caminhar juntos. A divisão vem do diabo, mas Deus é comunhão, é união. Se a unidade é a condição da missão, o amor é a essência da missão. A missão é o anúncio do Evangelho do amor de Deus encarnado no rosto e na vida de Jesus Cristo.”
A mensagem do Papa Leão XIV para este ano também insiste nessa relação entre comunhão e missão. A unidade cristã não pode ser confundida com uniformidade: os diferentes carismas e vocações encontram seu ponto de convergência em Cristo. É dessa comunhão que nasce a capacidade de anunciar o Evangelho juntos.
Outra imagem usada por Dom Maurício durante a celebração ajuda a traduzir essa responsabilidade para a vida cotidiana. O bispo comparou a ação missionária à água que chega às casas pelos canos. A fonte é Deus; os cristãos são os canais pelos quais o amor recebido pode alcançar outras pessoas.
“A fonte desta vida missionária nossa é a Santíssima Trindade. Nós bebemos desta água, participamos desta fonte, mas não somos a fonte. A fonte é a Santíssima Trindade e Deus é uma fonte inesgotável de amor que sempre envia. Não sei se vocês já viram uma nascente: a nascente é bonita porque você chega ali e a água está saindo lá de dentro para fora. E mesmo que a gente ponha uma mão ou outra coisa, ela continua saindo assim. Deus é uma fonte inesgotável de amor que envia, que sai e que envia. Nós somos chamados a ser condutores desse amor de Deus.”
A imagem ajuda a aproximar o tema da experiência concreta do devoto. A fé recebida não fica restrita ao momento da oração. Ela alcança a maneira como cada pessoa trata a família, os colegas de trabalho, os vizinhos e aqueles que encontra pelo caminho. É nesse cotidiano que o cristão pode deixar passar aquilo que recebeu de Deus.
Dom Maurício resumiu essa participação de maneira bastante concreta:
“A missão se realiza pelos joelhos dos que rezam, pelas mãos dos que ajudam e também a missão se realiza com o coração de quem ama e de quem se compadece, com os olhos de quem vê os sofrimentos dos outros e suas alegrias e com os pés dos que se dispõem a caminhar.”
O Mês Missionário de 2026 tem ainda um marco histórico: são 100 anos do Dia Mundial das Missões, instituído em 1926 pelo Papa Pio XI. Ao recordar a data, as celebrações reforçaram que a missão não pertence a um pequeno grupo dentro da Igreja. Ela envolve leigos, consagrados e ministros ordenados e alcança a família, a comunidade, o trabalho e a sociedade.
Em Aparecida, essa compreensão ganha uma dimensão própria. A Casa da Mãe recebe romeiros que chegam de diferentes partes do Brasil, muitos deles para agradecer, pedir uma graça ou simplesmente permanecer alguns momentos diante da imagem de Nossa Senhora. O Mês Missionário recorda que essa experiência de fé não termina diante do altar.
Nas duas celebrações, a figura de Nossa Senhora Aparecida, Mãe Missionária, apareceu ligada a esse movimento de saída. Maria aponta para Cristo e, como recordou Dom Maurício ao explicar a arquitetura do Santuário, conduz o olhar do devoto para o altar. A devoção à Padroeira do Brasil, assim, está inserida na própria dinâmica da vida cristã: encontrar Jesus, permanecer com Ele e levar sua presença para os caminhos da vida.
É esse o sentido de começar o mês de outubro em Aparecida: enquanto a Igreja celebra a Mãe e Padroeira do Brasil, também recorda a cada batizado que a fé recebida precisa encontrar caminhos para chegar ao outro. E, neste ano, o convite vem acompanhado de uma condição apresentada pelo próprio tema: permanecer em Cristo para caminhar juntos na missão.
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