Por Ir. Afonso Murad Em Artigos Atualizada em 18 MAR 2019 - 12H13

A mulher de Apocalipse 12

maria_no_apocalipse

Leia Apocalipse 12,1-17. Veja como a narrativa se desenvolve. Observe cada personagem, para compreender o texto em sua profundidade.

O sinal no céu (v. 1-2): Apocalipse 12 começa como um sonho lindo. Um grande sinal aparece no céu: uma mulher com a glória e o poder de Deus, pois está brilhando, vestida de sol. Lida de forma equilibrada com as forças da natureza, e o ciclo da vida, pois tem a lua debaixo dos pés. A mulher já recebeu de Deus a certeza da vitória, pois carrega uma coroa de doze estrelas, sinal de poder real.

Mas nem tudo é bonito no sonho. A mulher está grávida, vai dar à luz. Passa por momentos confusos e difíceis, de muita dor, mas sabe que eles são preparação para um novo tempo. Assim é o povo de Deus nesse mundo. Ele recebe do Senhor a glória e o poder, para gerar o novo na história. Mas experimenta um parto doloroso. Na bíblia, a dor de parto significa a crise que acompanha a passagem para uma situação nova, na qual a vida vai triunfar. Assim aconteceu com os discípulos de Jesus, quando acompanharam sua morte e ressurreição (Jo 16, 21s).

A imagem pode também aludir a Maria, a mãe de Jesus, que deu à luz ao Messias e experimentou o tempo novo do Reino de Deus e da ressurreição de Jesus.

Assim, primariamente, a mulher significa a comunidade cristã, o povo messiânico. Mas pode também se estender a Maria, a mãe do messias.

O dragão e a mulher (v. 3-6): O sonho se transforma em pesadelo. Aparece um dragão, um literalmente um “bicho de sete cabeças”, cheio de poder e força. Intimida com os seus dez chifres. Carrega nas cabeças sete diademas, sinal que é respeitado como autoridade aparentemente perfeita e invencível. Quer devorar o filho da mulher, como as forças do mal fizeram com Jesus, durante sua vida, desembocando sua paixão e morte. Mas o Senhor ressuscitado já está junto de Deus. O mal não pode com Ele. Perceba que a narrativa não é linear. O filho, logo depois de nascido, já foi arrebatado para junto de Deus e de seu poder eterno (=trono). Na prática, Jesus, o filho de Deus encarnado, viveu neste mundo um longo tempo, o que não pode ser ignorado. É preciso ter claro que, no apocalipse, o “céu” não corresponde ao conceito clássico, que o contrapõe ao inferno. A palavra é a mesma, mas o sentido é muito diferente. Trata-se dos “bastidores da história”, onde se joga a luta decisiva do bem e do mal, e não do lugar ou situação pós-morte, reservado aos eleitos de Deus. Você imaginaria que o símbolo da maldade pudesse atacar Maria em pleno céu, como o entendemos tradicionalmente? Não podemos fazer uma interpretação literal de Apoc 12, senão entraremos num beco sem saída. A mulher foge para o deserto, onde Deus lhe prepara um lugar e a alimenta por um tempo limitado. Quem é a mulher? O povo de Deus, os seguidores de Jesus que, como Maria, fazem a sua vontade de Deus e dão à luz ao Messias. Enquanto estamos nesse mundo, passamos pelas durezas de deserto. Mas não estamos sós, pois Deus nos nutre com sua Palavra e seu Espírito. Na Bíblia, o deserto é lugar da tentação e do encontro com Deus, o espaço de purificação e crescimento, onde a pessoa e o povo têm a oportunidade de provar o Essencial.

A luta continua (v. 7-17): O dragão, o dono do time do Mal, e seus guerreiros combatem contra os anjos de Deus e perdem a luta, nos bastidores (=céu). João tem claro que Deus já venceu a peleja. E os cristãos também, especialmente os que, como Jesus, são capazes até de morrer para serem fiéis ao bem e à verdade. Mas a luta na terra vai ficar ainda mais forte. A mulher é perseguida de novo pelo dragão, que quer destruí-la. Felizmente, Deus vem em seu auxílio. Dá asas de águia à mulher. No deserto, ela é alimentada por Deus. A corrente caudalosa, vomitada pela serpente, é tragada pela terra. O apocalipse sinaliza que também a natureza colabora com aqueles que se empenham pelo Bem. O final do relato é ainda mais forte: “enfurecido contra a mulher, o dragão foi combater o resto da descendência dela, os que observam os mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus” (v.17). Faz lembrar da promessa de Gênesis 3,15s, de que a humanidade (= descendência da mulher) não vai mais ceder à tentação do mal (= a serpente) e que os dois lutarão. Mesmo ferida, a mulher esmagará a cabeça da serpente, matando-a. Mas, no apocalipse, a vitória sobre a serpente (= o dragão) virá do poder de Deus, através de um enviado (Ap 20,2s). Muitas vezes nos sentimos como essa mulher no deserto: frágil, desprotegida, cercada pelo poder da maldade, mas envolvida e salva por Deus. O Apocalipse foi escrito para alimentar nossa esperança. Sabemos que, como Maria, recebemos a glória e o poder de Deus. Mas estamos situados num mundo de pecado, cheio de violência e de mal. Aliás, cada um de nós carrega um pouco de mulher e de dragão, de bem e mal, de ternura e de violência. Mas estas dimensões de luz e trevas estão em proporções distintas em cada pessoa. À medida que crescemos na fé, na esperança e no amor solidário, passamos de forma mais clara para o time de Jesus. Deixamos de ser torcedores de arquibancada e entramos no jogo para valer. Maria, nossa companheira, nos assegura, junto com Jesus, que a vitória será de Deus e de seus aliados. E terá um resultado lindo: uma nova criação, um novo céu e uma nova terra. Dela participarão todos os seres, especialmente os humanos.

Resumindo: o texto de Apocalipse 12 primariamente se refere à comunidade dos seguidores de Jesus, a Igreja perseguida, o grupo de homens e mulheres que se empenham pelo Bem, o Povo de Deus peregrino, que continuamente gera o messias, sob a ação da Graça de Deus. Portanto, é um relato de natureza cristológico e eclesiológico. Sua mensagem esperançada é clara: mesmo que o Povo de Deus esteja sofrendo para garantir o Bem e construir o novo na história, e o poder destruidor do Mal pareça mais forte, Deus está conosco, e sua vitória é garantida.Mas, secundariamente, apocalipse 12 pode ser também aplicado a Maria, com a mãe do messias e imagem do Povo de Deus. Especialmente porque a plasticidade das imagens e das analogias do apocalipse nos permitem interpretações múltiplas e complementares.

Fonte: Maria, toda de Deus e tão humana. Ir. Afonso Murad. Paulinas.

Doutor em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Professor de Teologia no ISTA (Instituto Santo Tomás de Aquino) e na Faculdade Jesuíta (FAJE), em Belo Horizonte

 

2 Comentários

Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.

0

Boleto

Anterior
Próximo
Reportar erro! Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou
de informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por Ir. Afonso Murad, em Artigos

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.