Por Lúcia Muniz Em Artigos

Mística no Cristianismo

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“Que todos sejam um como tu, Pai, estás em mim e eu em ti. Que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que tu me deste, para que eles sejam um, como nós somos um: eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitamente unidos.”(Jo 17, 21-23).

Tendo como ponto de partida a beleza do mistério dual-Pai e Filho-, iniciemos nossa reflexão com a categórica afirmação do teólogo católico Karl Rahner: “o cristianismo do século XXI será místico ou desaparecerá”. Tal afirmação provoca certo impacto, visto que, na compreensão do senso comum o “místico” é alguém que destoa da realidade, alguém que vive nas nuvens, em outro mundo, um ET. Todavia, o que interessa para nós é buscarmos a compreensão etimológica da palavra “mística” para entendê-la no âmbito do Cristianismo.

Segundo o Dicionário de Conceitos Fundamentais de Teologia, da Paulus, podemos dizer que:

“Etimologicamente, mística provém do grego myô. Este verbo significa o procedimento de fechar os olhos e olhar para o interior. Daí se deriva, sobretudo, o tipo de mística do mergulho no divino. Constata-se, ademais, historicamente, uma associação linguística e uma conexão objetiva com os cultos mistéricos: myéô significa iniciar-se nos mistérios. Mystês era, portanto, o iniciado nos mistérios.”[2]

Então, mística e mistério são palavras relacionadas, que vibram no mesmo universo de ideias. E, ampliando um pouquinho mais o universo de compreensão da mística podemos continuar dizendo que, o real sentido da mística envolve o ser humano como um todo, não só no seu aspecto religioso, mas também no político e no social. Nessa dimensão, a mística passa a ser compreendida como algo tão ligado ao cotidiano das pessoas que, ousamos dizer: todo homem traz adormecido na sua essência, o “ser místico”. Ora, podemos perguntar: Quando, então, aflora no homem a sua mística?

O homem místico nasce quando ele faz a grande viagem em busca do encontro com o Pai. Quando o meu EU decide, por convicção própria: CREIO, no MISTÉRIO DA FÉ e vou ao encontro do TU. Quem de forma esplêndida explica o “Creio em ti” é o cardeal Ratzinger:

“A fé cristã vive do fato de não apenas haver um sentido objetivo, mas de esse sentido me conhecer e amar, de eu poder me confiar a ele com a atitude da criança que sabe acolhida com todas as suas perguntas no tu da mãe. Dessa maneira, a fé, a confiança e o amor são, em última análise, uma coisa só, e todos os conteúdos que a fé envolve são nada mais que concretizações daquela reviravolta que forma a base de tudo, ou seja, “Creio em ti”, da descoberta de Deus na face do homem Jesus de Nazaré. ”[3]

Podemos afirmar que a fé é uma experiência fundamentalmente humana, que, como experiência purifica a razão, no sentido de que, “a experiência da fé vai permitir ao cientista de qualquer disciplina aventurar-se pelo verdadeiro conhecer e o verdadeiro saber que não revelam apenas a razão, pois encontram sua origem em “outro” Saber ou no saber do Outro.”[4]

Portanto, o místico é o homem que vive em profunda experiência pessoal com Deus, na busca da descoberta do espaço interior que todo homem possui e, que, muitas vezes não sabe da sua existência. Anselm Grün, monge alemão, diz que:

“A história da mística no cristianismo começa com Jesus Cristo. Para os cristãos, Ele é o Filho de Deus. Mas, independente desta afirmação sobre sua natureza, podemos dizer que Jesus foi um homem místico. Ele realizou Deus em si. Principalmente no Evangelho de são João, Ele se refere à sua unidade com o Pai; mas também, nos outros Evangelhos, lemos diversas vezes como Jesus se retirava sozinho para, em oração, sentir a proximidade do Pai. Na oração, Ele encontra sua natureza, sabe que é UM com Deus. Em sua pregação, Ele quer nos falar de Deus, de modo que também nós possamos vivenciá-lo.”[5]

No Cristianismo, o cristão místico é o homem que realiza uma profunda experiência com Deus e, é impulsionado a mudar o quadro de injustiça social no qual esteja inserido. No mundo contemporâneo, podemos citar homens e mulheres místicos tais como: Dom Hélder Câmara, Madre Teresa de Calcutá, Ir. Dorothy, Edith Stein e tantos outros que vivem no anonimato das suas experiências.

O cristianismo, oriundo do judaísmo, tem como essência a revelação de Deus – Deus fala aos homens. Toda religião revelada é marcadamente caracterizada pela livre comunicação que Deus escolhe fazer de si com sua criação – o homem pecador. Assim, constatamos na Sagrada Escritura, no AT e continua  no NT, com a vinda de Cristo, que substanciado pela forma humana, viveu num tempo histórico a comunicação pessoal de Deus Pai em Deus Filho.  Jesus, numa perspectiva comunitária, planta as raízes para o surgimento da Igreja – perpetuação livre e permanente da comunicação do seu Criador com a sua criatura.

Na verdade, a maioria dos cristãos pensa que Jesus veio para fundar uma nova religião. Não é verdade. O judaísmo era a sua religião e ele era um piedoso e fiel seguidor dos seus ensinamentos. Toda a educação de Jesus dada por Maria e José, foi pautada no AT, entretanto, quando Jesus começou a sua vida pública, após ter observado todas as distorções que o povo deu a sua religião, ele passa a anunciar a boa nova: o Projeto do Pai. O Reino de Deus é para todos, principalmente para os doentes, sofredores, explorados, marginalizados pela sua condição social. Esse serão os primeiros a entrar no Reino do Pai.

Assim, no cristianismo do mundo ocidental, o homem é uma criatura inteiramente dependente da “graça de Deus”, ou seja, o homem deve viver a sua existência terrena numa intima relação de filialidade ao Pai, seu criador, qualificando-se para ser aqui na terra um instrumento de comunicação e revelação do Reino de Deus. Nessa dimensão o homem é infinitamente pequeno, quase nada, pois é a graça de Deus que é tudo em sua vida.

Alimentada pelas ideias do monge trapista Thomas Merton reafirmamos o nosso credo. Cristianismo é a revelação do próprio Deus no mistério da encarnação de Cristo, revelação esta que é declarada na Sagrada Escritura e confirmada também através da experiência vivencial de unidade com Cristo, quando todos nós somos convidados a viver o sobrenatural no mistério da fé.

 

 

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