Por Fr. Thiago Pereira, SCJ Em Artigos

Per Cor Mariae’: A espiritualidade mariana de Léon Dehon

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A Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus possui uma saudação tradicional herdada de seu venerável fundador, Padre Léon Dehon, que, como religioso dehoniano, sempre me intrigou. Trata-se do Vivat Cor Iesu per Cor Mariae. Bom, me chamou a atenção porque, como jovem seminarista menor, no terceiro ano do Ensino Médio, tive a oportunidade de ler o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, de São Luís Maria Grignion de Montfort. E, percebi que o objetivo do santo escritor era, de fato, que as pessoas trilhassem uma via espiritual que passava pela “consagração total a Jesus Cristo, a Sabedoria Encarnada, pelas mãos de Maria”. Isto é, vou a Jesus por Maria. Ou, ao Coração de Jesus pelo Coração de Maria.

ESPIRITUALIDADE MARIAL NA ÉPOCA DE DEHON

Apesar da reconhecida e bem desenvolvida obra de São Luís de Montfort, é fato constatável que ele apresenta uma linguagem hiperbólica, o que gerou, em muitos estudiosos, uma certa resistência àquilo que provinha deste santo, como, com razão, afirma Murad: “Citando Anselmo, Bernardo e Boaventura, [São Luís Maria] chega  a dizer que ‘ao poder de Deus tudo é submisso, até a Virgem; ao poder da Virgem tudo é submisso, até Deus’. Esta é a tendência dominante [nos séculos XVIII e XIX]: uma mariologia  triunfalista e maximalista” (MURAD, Afonso. Maria, toda de Deus e tão humana. 2 ed.. São Paulo: Paulinas; Valência, ESP: Siquem, 2006, p. 14).

Como o próprio mariólogo marista afirmou, esta é a “tendência dominante” dos séculos XVIII e XIX. Basta lembrarmos que santos como Dom Bosco, Domingos Sávio, João Maria Vianney, Gema Galgani, João Eudes e Teresinha do Menino Jesus se consagraram à Mãe de Deus segundo este método, nesse período. A partir destas personalidades podemos encontrar traços de uma espiritualidade vigente na época, mas não uma expressão em nível de Igreja universal. A espiritualidade do Padre Luís Maria só é expressa em nível de Magistério, a partir do Papa Leão XIII, amigo pessoal de Padre Dehon.

Leão XIII, durante seu período de pontificado (1878-1903), escreveu dez encíclicas sobre o santo Rosário e a devoção mariana. Na Encíclica que escreveu por ocasião do cinquentenário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição, ressaltou a figura de Maria como Medianeira junto ao Mediador, Jesus Cristo, utilizando como fundamento o Tratado da Verdadeira Devoção (cf. Heinrich Maria Köster. Die Magt des Herrn,1947, p. 54 in pt.wikipedia.org).

Além de Leão XIII, que beatificou o Padre Luís Maria, em 1888. Temos a expressiva figura de Pio XII, que canonizou o beato em julho de 1947. E, também a de São João Paulo II, que, enquanto seminarista, leu e releu inúmeras vezes a obra lapidar de Montfort e adotou como lema para a vida inteira a frase: Ego sum totus tuus Maria (sou todo teu Maria), referindo-se à “consagração total” de São Luís.

A VIRGEM MARIA NA ESPIRITUALIDADE DE DEHON

O nosso objetivo é falar sobre a espiritualidade marial de Padre Léon Dehon. Mas, pra isso, julguei necessário fazer este breve apontamento acerca da escola de espiritualidade mariana vigente na época do Venerado Fundador.

São Luís de Montfort marcou profundamente a espiritualidade da família Dehon. Estefânia Vandelet, mãe de Léon, enquanto estudava no colégio dirigido pelas Damas da Providência, consagrou-se a Jesus por Maria, segundo este método, conforme aponta em seu diário espiritual, aos dezoito anos de idade (cf. DEHON, Jean Léon. Notes sur l’Histoire de ma Vie I, 7).

Seguindo os passos de sua mãe, durante sua preparação para a Primeira Comunhão, que seria no dia 04 de junho de 1854, Léon Dehon se consagrou segundo o método do Tratado da Verdadeira Devoção. “Tenho todavia presente em minha memória as cerimônias da renovação das promessas batismais e a nossa consagração total à Virgem” (NHV I, 9). Depois de alguns anos ele mesmo aplica esta consagração aos seus catequizandos, em San Quintin.

A presença materna da Virgem Maria, desde a mais tenra idade marcou a vida de Léon Dehon, que sempre foi muito doente. Aos quatro anos de idade ficou gravemente enfermo, com febre altíssima. E, neste momento, afirmou que “as lágrimas de sua mãe e suas orações à Virgem lhe salvaram a vida” (Extrait du Journal du P. Dehon, 132).

 

a Virgem milagrosa é muito bela

Em Notas sobre a História da minha Vida Dehon recorda sua viagem com seu amigo Palustre, em 1864. Durante este tour por vários países Léon sempre apresentou um carinho e uma devoção muito grande pelos Santuários marianos, fazendo questão de conhecer todos. Desde o Santuário da Virgem de Einseedeln, na Suíça, onde ele afirmou: “estava feliz por passar um dia em Einseedeln e praticar minhas devoções… a Virgem milagrosa é muito bela” (NHV II, 73), passando pela Itália, Terra Santa, Grécia e outros países, Léon Dehon sempre demonstrou uma grande devoção, principalmente quando rezava de joelhos aos pés das imagens da Virgem.

Mas, dentre as peregrinações feitas por Dehon, aquela que mais impressiona foi a sua passagem pela Grécia, quando, diante dos templos pagãos, dirige sua prece de reparação à Santa Mãe de Deus. Cito apenas sua oração feita em Atenas, diante do templo de Minerva, na Acrópolis: “Ó Santíssima Virgem, eu te ofereço tudo o que estes povos quiseram oferecer de pura glória a esta virgem Minerva, da qual fizeram sua mãe e inspiradora. A Virgem por excelência, a Virgem eminentemente sábia és tu” (NHV III, 18-19). É fantástico perceber a sensibilidade espiritual que o Venerado Fundador demonstra. Dehon cristianizou a cultura pagã naquele momento, assim como a Igreja o fez em muitos aspectos, principalmente naquilo que se refere à Liturgia.

Os atos de oblação e reparação praticados por Dehon sempre foram direcionados ao Coração de Jesus e ao Coração de Maria. A devoção de Dehon jamais foi direcionada somente ao Coração de Jesus. Reconhecia que só poderíamos ir a Ele, com eficácia, se seguíssemos pela via chamada, Maria. Por isso, no dia 21 de janeiro de 1868, em oração, escreveu: “O Coração de Jesus bate sempre por nós, vamos a Ele por Maria” (NHV VI, 20).

Ao ler algumas passagens da versão portuguesa de Notes sur l’histoire de ma vie (Notas sobre a história da minha vida), traduzida pelo sacerdote dehoniano português, em seu período de vida “semi-anacorética”, Padre Ângelo Caminati, percebi que inúmeras vezes Dehon era acometido por febres altíssimas e problemas físico, algumas destas enfermidades com um forte caráter emocional (como no dia de sua ordenação). E, nestes momentos difíceis, como quando criança, Dehon recorria à intercessão de Maria, que o curava (cf. NHV IV, 63).

Inúmeros são os testemunhos que Dehon poderia dar acerca da presença da Virgem Maria em sua vida, como quando, por ocasião de sua primeira missa, estava doente e pediu a intercessão da Santíssima Virgem e de São José e recebeu uma encomenda anônima que continha a água de Lourdes e um cordão de São José e, bebendo a água, prontamente melhorou (cf. NHV VI, 137). Ou a vez em que seu carro quase caiu do precipício, na Itália e, horas depois, sofreu outro acidente; neste dia Padre Dehon afirmou que foi Maria quem o livrou da morte (cf. NHV II, 91-92).

TRANSMITE SEU AMOR MARIANO AOS SEUS FILHOS ESPIRITUAIS

A Santa Mãe de Deus jamais deixou Padre Léon Dehon. O acompanhou até o fim de sua vida e o conduziu de maneira perfeita à Verdadeira Devoção ao Coração de Jesus. Bebeu da espiritualidade de Montfort e transmitiu-a ao carisma da Congregação que fundou – basta lembrarmos da primeira geração de sacerdotes dehonianos, bem como do Beato João Maria da Cruz e do Servo de Deus André Prevot (em “L’Année avec Marie”). Dirigindo-se aos religiosos de sua Congregação, afirmou: “a devoção a Maria, tal como ensina o Beato Grignion de Montfort, é-nos muito querida” (DEHON, João Leão. Directório Espiritual: dos Sacerdotes do Coração de Jesus. Tradução Província Portuguesa. Lisboa, 1998, p. 84). Por isso afirma, no Diretório Espiritual, que “esta bela devoção nos é mais querida a seguir à devoção ao Coração de Jesus” (DEHON, Directório Espiritual, p. 84).

Como via de santidade, Dehon aponta a espiritualidade do Coração de Jesus pelo Coração de Maria. Reconhece, além disso, a dignidade da devoção e consagração à Santíssima Virgem. Por isso, com ele, “consagremo-nos à Rainha dos céus e tenhamos a confiança na medianeira de todas as graças” (DEHON, Jean Léon. Notes Quotidiennes I, 67).

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