Por Côn. José Wilson Fabrício da Silva, crl Em Catequese Atualizada em 02 OUT 2017 - 12H10

Análise crítica sobre a Consagração composta pelo Padre Cícero Romão Batista a Nossa Senhora

 

 Contexto histórico 

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No decorrer da história do cristianismo a devoção a Virgem Maria foi crescendo conforme o avanço da sistematização teológica sobre o plano divino da salvação. No século VII, já tínhamos além do reconhecimento da Maternidade Divina dado em 431, também constatamos uma liturgia celebrada em honra do nascimento da filha de São Joaquim e Santa Ana no mundo Oriental. Na Idade Média vimos surgir diversos homens e mulheres que se debruçaram sobre a teologia, extraindo um suave perfume chamado de nascimento da mariologia sistemática, tendo como representantes São Leão I[1] e o famoso monge São Bernardo de Claraval. Tais práticas de amor tributados à Mãe de Jesus se generalizaram em todo o orbe católico. Na Idade Moderna e Pós-Moderna começaram a aparecer devotos críticos e escrupulosos, tachando os piedosos atos de reverência à Mãe de Jesus de “indiscretos” ou “exagerados”. Na França, os jansenistas chegaram a distribuir vários panfletos contendo “advertências" contra os “excessos" de amor à Maria. Igual a algumas objeções encontradas nos dias de hoje. Para defenderem suas objeções, tinham como base a chamada “purificação do cristianismo”. Esses críticos diziam que o próprio Jesus tratou com desprezo sua mãe, pois a chamava de “mulher”. Nada mais falso! Se é verdade que o Filho de Maria quis humilhá-la, por que a quis escondê-la durante a vida para favorecer a sua humildade, como testemunham as próprias Escrituras[2]? Quer dizer, os Evangelhos falam pouco de Maria, porque seu objetivo não era fazer da mãe a verdadeira razão da Mensagem escrita, mas apresentar o “Filho da Mulher” como Senhor e Salvador do mundo. Também é certo que, após ascender aos céus, por vontade própria desejou ter ao seu lado aquela que o gerou na carne. Isto atestamos na imagem do Apocalipse no capítulo doze, onde vemos Maria como Imagem da Igreja já glorificada, como atesta a nossa fé. Fixar nossa atenção sobre a teologia mariana é chegar à conclusão de que cumpriu-se a profecia do Magnificat: “Doravante, todas as gerações hão de chamar-me bem-aventurada"[3].

Em algumas datas marcantes do ano, Juazeiro do Norte se transforma em um dos lugares de peregrinação católica mais visitados do Brasil. Dentre elas, citamos os dias vinte de cada mês, dia dois de fevereiro, quinze de setembro e dois de novembro. Qual movedor principal que atrai devotos de todo o Nordeste brasileiro e curiosos de diversas partes do mundo? Dizemos que é a fé na intercessão de Nossa Senhora implantada por Padre Cícero Romão Batista. Este sacerdote tornou-se no final do século XIX, um segundo Cura de Ars para o cariri cearense, chamando-os à conversão e a praticar a religião católica com seriedade. Nosso trabalho tem como objetivo, analisar a singela oração de consagração à Virgem Maria que vem atravessando gerações, chegando aos nossos dias com todo vigor, presente no coração da “Nação Romeira”. Existe algum problema para a teologia católica em interpretar e corrigir tal composição? Qual visão mariológica tinha o Padre Cícero ao propagar as devoções a Senhora das Dores e ao rosário, tão utilizado pelos fiéis católicos no século XX? Entremos nestas questões com um sentimento cristão, encarnando a vivência da devoção popular.

Oração de Consagração composta pelo Padre Cícero

Padre Cícero

“Mãe de Deus, Mãe Soberana, Mãe Poderosa, Nossa Senhora das Dores.De hoje para sempre eu me entrego a vós como filho e servo. Consagro ao vosso serviço o meu corpo, minha alma e tudo que me pertence. Abençoa a minha família, os meus trabalhos e meus haveres. Sede minha protetora na vida e conduzi-me ao céu para viver por toda a eternidade. Amém!”

 

 

 

Por que os católicos se consagram a Maria, se a verdadeira consagração é feita a Deus?

Consagrar-se vem do latim cum sacrare e significa “tornar sagrado”. Uma pessoa ou um objeto se torna sagrado quando se dedica à Deus ao se oferecer e lutar por pertencer ao Senhor. Cada criatura humana batizada em nome da Trindade Santíssima se torna “propriedade do Divino”. Então, quer dizer, que se já somos exclusividade de Deus, “não precisamos mais nos consagrar a Maria?” Assim podem pensar alguns cristãos, e não estão errados. Porém, a Igreja ouvindo a manifestação de carinho de seus filhos e conhecendo a santidade e o lugar que a Virgem Santíssima ocupa no coração de Deus, não se manifesta contrária à tal prática devocional em nenhum período da história do cristianismo, porque foi o próprio Jesus que fez João receber Maria por mãe, e toma-la como propriedade em sua casa (Jo 19, 27).

 

"Consagração" é o nome curto dessa devoção, cujo nome completo é 'consagração a Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada, pelas mãos de Maria'

Para entendermos melhor o que vem a ser este ato de entrega filial dos católicos à Mãe de Jesus, é de fundamental importância conhecer a obra “Tratado a Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria” de São Luiz Grignion de Montfort. O santo mariano deixa bem claro que “consagração" é o nome curto dessa devoção, cujo nome completo é “consagração a Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada, pelas mãos de Maria". Ou seja, quando nos consagramos à Nossa Senhora, a entrega é feita a Cristo, por meio de Sua mãe. Podemos até fazer uma consagração diretamente ao Senhor, mas como ele inaugurou esta via segura que pode ser uma segunda opção de tocar profundamente o seu Santíssimo Coração, por meio de sua santa Mãe, nossa entrega não se perderá no caminho do céu. Isto jamais diminui a mediação de Jesus, Esposo da Igreja. Sendo assim, os cristãos se entregam de modo total a Maria de Nazaré (ou de Jerusalém, da Palestina, Lurdes, Fátima, Lujan, Ráquira, Aparecida, Belém, Juazeiro, Passira, etc.), repetindo o que também foi o lema do pontificado de São João Paulo II: Totus tuus ego sum, Maria, et omnia mea tua sunt – “Sou todo teu, Maria, e tudo o que é meu pertence a ti”.

O Padre Cícero tinha consciência de que consagrar-se a Maria não significava apenas se colocar nas mãos daquela que gerou, alimentou, “educou”, e, desde o nascimento de seu Filho, soube contemplar os mistérios que sua razão não compreendera[4]. Mas, entendia que esta “total entrega” à Mãe de Deus resultaria em um meio seguro e eficaz de união com o Salvador da humanidade que a tem por “cuidadora especial”. O “Padrinho do Juazeiro” não duvida de que, aquela que acolheu e “conservou em seu coração”[5] a manifestação de Deus, pode também receber o pedido de pertença dos cristãos e colocar-se do lado deles, porque tem consciência que o pecado enfraquece a relação que o povo tem com o Filho, e, como mãe do “Juiz e do réu”, também pode assumir o papel de “advogada” entre ambos, apelando pela misericórdia do Justo e a conversão do injusto.

A Virgem Maria tanto doa um pouco de nós para Deus, como doa tudo de Deus para nós. Isto pudemos constatar na sua visita a Santa Isabel: “Logo que a tua saudação chegou a meus ouvidos, a criança pulou de alegria em seu ventre; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo”.[6] Observem a palavra: “E Isabel ficou cheia”, repleta, foi tomada pelo Espírito de Deus, pelo simples e grandioso fato da visita inesperada da Mãe do Senhor em sua casa. Esta cena reclama de nós o silêncio! Não falemos, apenas contemplemos a alegria de João Batista ainda no ventre de Isabel e meditemos nas palavras proclamadas debaixo do teto da casa de Zacarias.

Acreditamos que Maria está sempre aconselhando os “membros do corpo de Cristo” para “fazer o que Jesus deseja”[7]. E quando por vontade própria alguém decide cumprir seu mandato seguindo seu exemplo, ela procura incutir em sua consciência de que esta consagração só será perfeita se tiver como finalidade o alcance da santidade desejada por Deus: “Sede santos, como o Senhor vosso Deus é Santo”[8]. 

A concepção mariológica presente nas palavras do Padre Cícero

 

Padre Cícero sabia que ninguém melhor do que a Virgem Maria pode ser modelo

Padre Cícero sabia que ninguém melhor do que a Virgem Maria pode ser modelo, depois de Jesus, para todo o povo eleito tomar por seguimento em caminho de santificação. Ele crer que ela é a Theotókos[9] e Poderosa, não por méritos próprios, mas devido a missão de colaboração no Plano Divino da Salvação e pelos méritos exclusivos de Cristo. Pois, sem Jesus, Maria não teria tanta significância para o “novo povo de Deus”. Ao chamar Nossa Senhora de “Soberana”, não a quis colocá-la no mesmo patamar do verdadeiro Soberano de toda criatura. Mas, vivendo em um país onde o governo brasileiro ainda era Imperial, quer dizer, baixo a coroa da família real portuguesa, o Padre do Juazeiro equiparava a solicitude da Mãe de Jesus com a imagem da “Imperatriz” reinante no Brasil, porém, sendo a Senhora das Dores, mulher incomparável em graça e infinitamente em virtudes. Também acreditava o Padrinho Ciço, bem antes de ser promulgado, o Dogma da Assunção de Nossa Senhora, e, consequentemente, como reza o quinto mistério glorioso, a “coroação da Mãe do Cristo como Rainha”. Quer dizer, chamar Maria de “Soberana” é acreditar que ela já vive agora na Eternidade.

 

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Nossa Senhora das Dores - Juazeiro do Norte/CE

Padre Cícero de uma forma bem humilde se coloca diante da Mãe de Cristo como um “filho e servo”. Ao se dispor com filiação significa afirmar que por ser um batizado e membro da Igreja, é bem mais significativo nunca se esquecer que mesmo sendo ministro ordenado, jamais deixou de ser filho da Igreja. Isto nos faz lembrar da passagem da Carta aos Hebreus no capítulo cinco, quando diz: “Todo sumo sacerdote é escolhido do meio do povo e constituído para representar este mesmo povo diante de Deus. Sua missão é oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Ele sabe ter compaixão dos que estão no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza”[10]. Nesta afirmação lembramos o grande Santo Agostinho que nunca se orgulhou de seu ministério colocado sempre a serviço dos necessitados. O Doutor da Graça certo dia afirmou: “Para vocês eu sou o Bispo, com vocês eu sou cristão”, recordando assim, que o ministro também necessita de salvação. Aqui, o padre do Juazeiro deixa resplandecer o seu lado devoto. Aquele que sempre está com as mãos estendidas para o céu, porque é de lá que vem o seu socorro. Também reconhece o padre, quão é necessário reclamar a maternidade de Maria e ao mesmo tempo declarar-se “servo” dela. Ser servo não por “idolatria”[11], mas por amor filial capaz de fazer morrer em si próprio suas vontades, para que o Reino de Deus chegue a todos, inclusive a quem lhe é dado por direito e dever: os pobres. São eles os “bem-aventurados”! Como dizia São Lourenço Mártir, “são os pobres o tesouro da Igreja”. Esta ideia de servidão estará plenamente fundamentada logo na introdução do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem de São Luís aqui já afirma: “Foi por intermédio da Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por meio dela que ele deve reinar no mundo”.[12] Este é o verdadeiro motivo que leva Padre Cícero olhar para a Mãe das Dores com total reserva, porque ela atrai a todos para Cristo, o único e suficiente Salvador do mundo.

Padre Cícero entrega a Nossa Senhora “sua família, seus trabalhos e haveres”, porque sabe que quando vier a faltar o vinho[13] da alegria, do amor, da graça de Deus e da unidade, a Mãe de Jesus pode vir em seu socorro, porque tudo a ela foi entregue, para que vele como uma guardiã diante de Deus e dos homens, bem como for necessário. Logo em seguida, conclui sua consagração dizendo: “Conduzi-me ao céu para viver por toda a eternidade”. Aqui encontramos a concepção mais centralizada da mariologia, quando apresenta qual finalidade tem a Virgem Maria na vida da Igreja. Sua missão é atrair e conduzir a todos para Cristo, pois é ele a verdadeira “Porta das ovelhas”[14], onde se pode entrar para viver na eternidade. A Mãe de Jesus não descansará enquanto não ver todos os seus filhos agasalhados na casa do Pai, nossa morada definitiva (Jo 14, 2).

 Continua:
Padre Cícero, modelo dos propagadores da devoção à Virgem Maria no Brasil

Côn. José Wilson Fabrício da Silva, crl
(Membro da Academia Marial de Aparecida)

[1]             São Leão I é o primeiro Pontífice que apresenta um discurso elaborado em nome da Igreja após o Concílio de Éfeso de 431. Informações encontramos documentadas em: DOCTRINA PONTIFICIA IV: Documentos Marianos. Madrid: BAC, 1956.
[2]             Mt 19, 16-19.
[3]             Lc 1, 48; Ap 12, 1.
[4]             Lc 1, 29.
[5]             Lc 2, 51.
[6]             Lc 1, 41.
[7]             Jo 2, 5.
[8]             Lv 20, 7; I Pd 1, 15.
[9]             Theotokos é composta de duas palavras gregas, Θεός (Deus) e τόκος (parto). Literalmente, isso se traduz como portadora de Deus ou a que dá à luz Deus. O último título é composto de uma palavra distinta em grego, Μήτηρ του Θεού (transliterado Mētēr tou Theou). Outras palavras gregas poderiam ser usadas para descrever "Mãe de Deus", como Θεομήτωρ (transliterado Theomētor; também escrito Θεομήτηρ, transliterado como Theomētēr) e Μητρόθεος (transliterado Mētrotheos), que são encontradas em textos patrísticos e litúrgicos. As letras gregas ΜΡ e ΘΥ são abreviaturas utilizadas para os termos gregos de "Mãe de Deus", consistindo das letras inicial e final de cada palavra, a sua utilização é uma prática comum na iconografia ortodoxa para referir-se à Maria.
[10]             Cf. Hb 5, 1-2.
[11]            Idolatria tão condenada por Padre Cícero em suas lutas. Idolatria da ganância e do poder.
[12]             MONTFORT, São Luís Grignion de. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Petrópolis: Vozes, 1949, p. 17.
[13]            Jo 2, 3.
[14]             Jo 10, 7.

Contexto histórico
Padre Cícero sabia que ninguém melhor do que a Virgem Maria pode ser modelo
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