Por Pe. Antonio Clayton Sant’Anna,CSsR 2 Em Catequese Atualizada em 02 OUT 2017 - 11H13

Por que ler a Bíblia?

 Editora - Biblia

1) Por que ler a Bíblia?

 A Bíblia é o livro da vida. A vida humana conhece e experimenta o sofrimento, a provação, a tentação. A Palavra de Deus é anunciada, é “ingerida” e vivida nas alegrias e dores do nosso viver. Precisamos aprender não só a ler, mas também a iluminar com a ela as angústias, aflições e desânimos da fraqueza humana. Em todos os livros bíblicos aparece o clamor suplicante do justo perseguido levantando o olhar para Deus em busca de socorro. Acolhida, a Palavra explica, refaz, e gera continuamente caminhos novos na vida. Os Evangelhos mencionam essa experiência inclusive na vida de Jesus, dos seus apóstolos e primeiras comunidades cristãs. Dom Raymundo Damasceno Assis, cardeal e arcebispo de Aparecida nos diz: é muito importante cultivar o hábito de leitura da Bíblia, especialmente no mundo de hoje marcado pelo individualismo e pelo relativismo ético, por incertezas e divergências diante de tantas opiniões sobre temas fundamentais como a vida, a verdade, a família.

2) Somente o contato com os Evangelhos poderá fazer emergir a pessoa de Jesus Cristo, suas palavras e suas ações, como figura central para a vida cristã?

Os quatro evangelhos foram pensados e redigidos conforme o esquema pessoal e a intenção de cada evangelista (Mt.Mc.Lc.Jo.). Mas, eles dão um grande destaque às narrativas da Paixão, morte e ressurreição do Senhor. No mistério pascal está a centralidade da Sagrada Escritura. É o quérigma, ou seja, o anúncio essencial da pessoa, ensino e práxis de Jesus Cristo.

O discipulado (vida cristã) só existe por Cristo, com Cristo e nele. “Para mim, o viver é Cristo!” Escreve São Paulo em Filipenses, 1,21. Mas, não é a letra e sim o “Espírito” desse viver (2ª Cor.3,6), que faz emergir nas opções e comportamentos o “homem novo” criado segundo Deus na justiça e santidade verdadeiras (Ef.4,24). Jesus é o primogênito dos que amam a Deus por Ele (Rm. 8,29).As “sementes do Verbo” estão presentes em todas as culturas onde se buscam a verdade, a justiça, a caridade. “Deus pode, por caminhos dele conhecidos, levar à fé todos os homens que sem culpa própria ignoram o Evangelho”.

3) Poderia dar dicas de como ler a Bíblia de forma eficaz?

Tudo o que é feito de modo sistemático e organizado com inteligência, boa vontade e perseverança tem proveito e eficiência. Também a leitura da Bíblia. Mas, sendo palavra falada e “falante” de Deus, a Bíblia se explica por si mesma. Ele nos está falando no momento exato em que lemos ou escutamos sua Palavra. Ela fala de dentro de si mesma, a partir do seu próprio conteúdo. Se lhe dermos a devida atenção ela vai nos interpelar e questionar nossas atitudes. Na medida em que houver uma leitura feita com oração, humildade e perseverança o texto vai sendo compreendido.

4)   O texto sagrado permite passar de uma fé alimentada principalmente pela piedade devocional e práticas festivas para um contato real com a Palavra de Deus?

Ao menos essa é uma oportunidade comum e popular, num mundo midiático onde o consumismo e a pressa sufocam o tempo e as iniciativas espirituais. É claro que é preciso crescer no interesse, no esforço continuado, na consciência do contato com a revelação divina. Aproveitar as ocasiões oferecidas na comunidade. Ter participação mais ativa. Nesse sentido é desejável, oportuno e útil algum estudo pessoal ou em comum; cursos breves, reflexões oportunas em palestras etc.

5)   Acredita que a Bíblia é bem interpretada pelos cristãos?

Difícil mensurar resultados subjetivos. É inegável que a Bíblia passou às mãos do povo cristão. Continua presente nas livrarias e nos corações. “A Bíblia tem sido lida, discutida, estudada e contemplada por grandes contingentes de pessoas em todo o mundo. Tornou-se extremamente importante e fecunda na vida diária das pessoas envolvidas nas Comunidades Cristãs de Base e nos círculos bíblicos na América Latina, na África, na Europa...” (Concilium, Revista Internacional de Teologia, 335, pg.5). É livro procurado e muito difundido, principalmente após o Concílio Vaticano 2º. Já são cinco décadas de renovação bíblica na teologia e na vida da Igreja. Mas, é urgente “aprender a ler a Bíblia”. Sem interpretações fundamentalistas (ao pé da letra); sem “achismos”, sem valorizar demais as tendências emotivas ou de autoajuda tão à moda nos chamados cultos eletrônicos. O católico sempre leva em conta a Tradição e o Magistério da Igreja na leitura e interpretação do texto bíblico.

6)   Na prática, setembro ajuda a alavancar de modo eficiente a leitura da Bíblia nas comunidades? Quais são os reflexos positivos e concretos para a vida das comunidades eclesiais espalhadas pelo país?

Em setembro há um esforço católico em conjunto nas Dioceses e paróquias para homenagear e conhecer mais a Bíblia. Desde 1971. Cada ano tem seu tema e lema com indicação do livro ou texto bíblico a ser refletido nas comunidades. Nesse ano é: Discípulos e missionários a partir do Evangelho de João. O lema é: “Permanecei no meu amor para dar muitos frutos”. Grupos se organizam e mobilizam nas mais diversas áreas: Liturgia, Estudos bíblicos, Comunicação etc. durante o mês encerrado com o Dia da Bíblia (30 de setembro), dia de São Jerônimo, modelo exemplar de estudo e amor a Sagrada Escritura. É dele a frase: ignorar a Sagrada Escritura é ignorar o próprio Cristo. As pastorais cobram novo impulso por toda a parte nos círculos bíblicos e celebrações de setembro. O culto humilde, fiel e continuado à Palavra de Deus é termômetro da vitalidade espiritual e da prática sincera do Evangelho.

 

a Bíblia é um livro ao mesmo tempo fácil e difícil

Entretanto, a Bíblia é um livro ao mesmo tempo fácil e difícil. Fácil porque para ser lida com real proveito a condição essencial é a fé. E essa é “dom de Deus”. Difícil porque a leitura da Bíblia exige tempo, dedicação, paciência. Só uma leitura humilde, constante e cheia de fé abre-nos os tesouros da Palavra. Nos últimos 50 anos o livro mais editado, lido e vendido no mundo é a Bíblia. Está em primeiro lugar disparado no ranking estatístico. E ela continua levantando questões e desafios fundamentais para toda a Igreja. Por exemplo: como identificar a “Palavra de Deus”, sua voz, com as numerosas e diversas vozes humanas que permeiam os textos sacros de épocas e culturas tão diferentes? A Palavra tornou-se carne: nossa carne!

 

 Pe. Antonio Clayton Sant'Anna
Entrevista para o jornal Santuário – setembro de 2015.

 

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