Por Ana Matiello Em Grão de Trigo Atualizada em 02 OUT 2017 - 12H30

Epifania do Senhor

 

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Mt 2,1-8

Hoje celebramos um momento muito precioso e significativo para a nossa fé cristã. A Epifania do Senhor. No Evangelho de Mateus 2, 1-8, os três reis magos do Oriente foram até Jerusalém e perguntaram: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”. A pergunta deixou o rei Herodes e toda a Jerusalém atordoados. O rei perguntou aos reis magos para que dissessem com exatidão quando foi que a estrela apareceu. O fato do rei e de toda a Jerusalém ficarem atordoados, tinha seus motivos políticos, mas também tinha o seu motivo religioso, pois, não foram os judeus que haviam visto a estrela, mas três estrangeiros. A pergunta deles pressupunha que Jerusalém soubesse do nascimento do seu Senhor, mas não sabia. A estrela apareceu para todos, mas Jerusalém estava distante demais para ver os sinais do seu Senhor. Não distante geograficamente ou fisicamente, mas espiritualmente. E sendo assim, nenhuma exatidão sobre “quando a estrela apareceu” os tornaria mais próximos.

Sabemos que em muitos momentos, nas questões de fé, desejamos obter mais exatidões científicas (intelectuais, pragmáticas, fenomenológicas, hermenêuticas), no entanto, sabemos igualmente que não é a ciência humana que torna cognoscível a sabedoria da fé. A ciência pode ajudar a aprofundar o conhecimento sobre a doutrina da fé que professamos, no entanto, a sabedoria da fé é dinâmica, está acontecendo, está sendo vivenciada, vai muito mais além dos passos lentos da deliberação, da ruminação intelectual, que muitas vezes antes nos distraem, do que nos aproxima daquilo que realmente é essencial.

O próprio texto provoca essa dissimilaridade entre “os saberes”, pois não sabemos “com exatidão científica” quem eram os três reis chamados de magos, mas a palavra “mago” deixa entrever a ideia de que eram religiosos num sentido cultural diferente. Talvez, nos passe a ideia de místicos, homens que transcendem a materialidade na relação mais íntima com o Absoluto. O que causou certa “surpresa” aos sacerdotes e escribas, aqueles que, por sua própria função, deveriam estar atentos aos sinais da vinda do Messias.

Tanto que eles responderam aos reis magos segundo a profecia, mas como uma fórmula fixa apenas escrita: “Em Belém da Judeia, porque assim escreveu o profeta: E tu Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe que vai governar Israel, meu povo”. Herodes, então, pediu para os reis irem e lhe dizerem depois onde estaria o menino. O rei, sua corte e Jerusalém ficariam esperando para ver o que aconteceria e, se tudo se confirmasse, iriam depois adorar o Senhor!

Assim também muitas vezes procedemos na caminhada da fé, esperamos ter a confirmação, esperamos uma exatidão, para depois acreditar, para depois agradecer, para depois adorar a Deus. Esse tipo de espera é qualitativamente diferente da espera que tudo crê, isto é, da esperança cristã. A esperança que se fundamenta em Deus vence os temores e angústias do porvir, porque no presente, no hoje, já as venceu, “já combateu o bom combate”. A esperança cristã é a unidade entre passado, presente e futuro, ela já é e ainda será. Assim, não esperamos que algo se confirme ou que se comprove para acreditar, para agradecer, para adorar a Deus. Independente do “resultado”, a sabedoria da fé nos ensina que já o possuímos muito antes dele acontecer, pois o cristão possui o final pelo início.

 

Muitas vezes vivemos uma vida sem ter a consciência do quão frágeis ou fortes somos na fé.

O pensador dinamarquês S. Kierkegaard costumava dizer através de um pseudônimo: “ninguém se desespera se antes já não estivesse desesperado”. Muitas vezes vivemos uma vida sem ter a consciência do quão frágeis ou fortes somos na fé. É preciso as vicissitudes do tempo chegarem para nos pôr a prova, isto é, nos fazer conhecer quem somos, e nos trazer à luz questões que não nos colocaríamos de outro modo. Por isso, se desesperamos, atordoamos, adiamos, é porque não houve antes coragem e paixão suficientes para crer. Enquanto tudo corre bem, e todas coisas vão bem, a boa-fortuna bate na porta toda manhã, parece-nos que temos muita fé em Deus. E achamos que o motivo de nosso desespero, tristeza, descrença, sempre tem uma causa exterior a nós, dizemos: “foi porque aconteceu isso que estou assim”. Mas o Cristianismo nos ensina algo diferente, ele nos liberta das mãos inconstantes do “destino”. Sim, o Cristianismo nos liberta “das mãos da sorte e do azar”, ele nos ensina a fortalecer o homem interior.

Sejamos, então, capazes de ouvir a Palavra de Deus amorosamente e interessadamente, porque crer é aceitar que neste momento Cristo está nos guiando, e ele nos guia até sua manjedoura, através de suas Palavras, através de sinais simples, porém que são capazes de suscitar coisas grandiosas, que nos levantam em momentos que estamos mais desolados. Mas só três pessoas viram esse sinal, seremos capazes de vê-lo também? No abraço de um irmão, num gesto amoroso do próximo, nas aves do céu, nos lírios dos campos?...

Aplicação Mariana

Em vez de subestimar a nossa vida alimentando uma espiritualidade formal demais. Vamos mais longe! Somos capazes de ir mais longe, porque o próprio Deus se fez menino, nascido numa manjedoura, na mais insignificativa cidade, de uma moça simples, que nada possuía de valor para este mundo, e que aceitou, além disso, a possibilidade de escândalo entre o seu povo, e a possibilidade de incompreensão de seu noivo José. Pois sabia que nenhuma exatidão poderia oferecer-lhes. Nada que, revelando o ocorrido, não suscitaria mais descrença e confusão. Manteve-se no silêncio, aquele momento era apenas seu e de Deus, e tudo o mais lhe seria dado por acréscimo.

Maria viu o sinal do seu Senhor, e não teve dúvidas da maravilha que ele realizou nela. Deixou-se guiar pelo Deus que se fez carne em seu corpo, deixou-se guiar porque confiava desde sempre no Deus que adorava com toda a sua alma e com toda a sua vontade. Maria compreendeu o significado do sinal, Anúncio do Anjo Gabriel, porque já possuia o seu sentido na fé.

De que mais precisamos para confiar e adorar o nosso Senhor que realiza todos os dias maravilhas em nossas vidas? Maravilhas incomunicáveis, justamente porque são simples, mas visíveis... pelas obras do amor.

Ana Matiello
Associada à Academia Marial
Mestra em Ciência da Religião - UFJF

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