Por Pe. Antonio Clayton Sant’Anna, C.Ss.R. Em Grão de Trigo Atualizada em 02 OUT 2017 - 12H45

Missão: competir e dominar ou servir?

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Homilia para o 29º Domingo do Tempo Comum

  Mc.10,35-45

O mês de outubro intensifica a Pastoral missionária em todas as comunidades de Igreja. No penúltimo domingo de outubro celebramos o “Dia mundial das Missões”. Pensamentos, orações e propósitos concentram-se num único anseio: provar nosso amor a Cristo sendo mensageiros de seu Evangelho e corresponder à confiança que Ele deposita em nós. Mostrar interesse nos trabalhos e objetivos da comunidade: a paróquia, a capela, o grupo. O Papa Francisco na sua mensagem para o Dia mundial das Missões lembrou-nos que a data recebe um estímulo especial de oração e reflexão associada ao’ Ano da Vida Consagrada’. Pois, se o batismo dado a todos nós é um presente para testemunharmos a fé em Jesus Cristo, ele é mais desafiador ainda para quem entra na vida consagrada pelos votos. Logo, entre vida consagrada e missão há uma ligação muito forte. “A dimensão missionária, que pertence à própria natureza da Igreja, é intrínseca a todas as formas de vida consagrada, e não pode ser negligenciada sem deixar um vazio que desfigura o carisma.”, diz o Papa.

Por que, afinal, a missão é uma preocupação constante na pregação cristã? Porque ela é o sopro do Espírito Santo no mundo, nos acontecimentos históricos, nas relações dos homens, nos seus projetos. É o impulso do Espírito Santo em nossos corações. Sinal surpreendente do amor de Deus por nós é a cruz. Nela o próprio Deus se aniquila e se nega na humanidade de Jesus, preservando ao máximo a força radical do amor. Através dos apóstolos Jesus confiou a nós o envio para anunciar seu amor missionário por toda a parte e a todos os homens. Se de fato somos cristãos não nos é possível renunciar ou fugir desse compromisso que vai permanecer em todos os povos, raças e culturas até o fim dos tempos. O papa, na sua mensagem para o Dia mundial das Missões assim comenta: A missão não é proselitismo ou mera estratégia; a missão faz parte da “gramática” da fé, é algo imprescindível para quem escuta a voz do Espírito que sussurra “vem” e “vai”. Quem segue Cristo se torna missionário e sabe que Jesus «caminha com ele, fala com ele e respira com ele. Sente Jesus vivo junto com ele no compromisso missionário» (EG, 266).

O texto do evangelho desse domingo nos previne mais uma vez que servir e servir até ao ponto máximo da entrega da vida é o estilo do amor de Jesus. Contra a ambição da glória e da supremacia, Jesus propõe aos discípulos que o imitem. Ele veio para servir e dar a vida por amor aos outros. Leia: Marcos,10,35-45.

O texto reflete a tensão que existiu e existirá sempre em nossas comunidades cristãs. E também em nosso coração. Dominar ou servir? É o prestígio social que nos realiza ou é a doação desinteressada de si aos outros? Ora, nem mesmo a convivência diária com o Mestre levou os apóstolos a entenderem as implicações do compromisso de segui-lo. Tinham expectativas nacionalistas e políticas. Chegar ao poder. E distribuir entre eles os cargos e as honrarias. Competir e dominar!

Competir pelo poder e prestígio é hoje também a caraterística não só da política. Mas da própria cultura. Não só no comércio. Em tudo: esportes, estudos, profissão e até mesmo nas comunidades da Igreja. Na competição buscam-se os lucros, as vantagens, os cargos, os elogios, as homenagens e recompensas. Em tudo há o jogo duro de interesses, marcado por comportamentos éticos negativos. Aí estão: o “jeitinho”, a “esperteza”, o “toma lá e dá cá”. Não existem princípios e valores no modo de governar. Estamos vendo na hora presente o jogo sujo do poder. Escândalos de corrupção se acumularam e enojam o povo que em maioria é honesto. Infelizmente o povo tem “memória curta”, em cada eleição é apagada. Aí, atribui-se aos adversários a mesma praxe de corrupção, como se cada lado tivesse o direito de se corromper porque o outro lado também a praticou.

Ora, o Evangelho não acolhe a competição pela autoridade e poder em proveito próprio. Condena a ambos: o exercício da autoridade firmando-se na busca do poder aparelhando a máquina do Estado. Uma e outro, não em benefício do bem comum, mas do partido, do grupo, dos interesses particulares. Nessa hora é dever missionário do cristão não se deixar enganar. Não compactuar com nenhum tipo de corrupção. Pois seguir Jesus implica em pensar de modo diferente do espírito de competição por domínio, busca de vantagens, cargos, distribuição de benesses passageiras para comprar votos.

A palavra final de Jesus nesse trecho do evangelho é: "entre vocês (nós, os seus discípulos), quem quiser ser grande, seja o vosso servo. Quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos". É o caminho dele. Não é possível ser cristão(ã) de outro modo, por outro caminho. A comunidade cristã deve ser o lugar privilegiado onde irmãos estão disponíveis para servir irmãos. E, unidos, oferecer ao mundo um novo modo de viver. Difícil? Sim. Mas a oração é sempre a ajuda fácil.

 

 Contemplando Maria, a serviçal.

O apóstolo Paulo escreveu a carta aos cristãos de Filipos provavelmente lá pelo ano 53 DC, estando na prisão em Éfeso. Ele exorta a comunidade a não fazer nada por competição e vaidade, mas agindo com os sentimentos de Jesus Cristo cada discípulo seu deve considerar superiores a si os outros, procurando satisfazer não os interesses próprios, mas os dos outros. E argumenta: Jesus não se apegou à condição divina, ao contrário aniquilou-se a si mesmo ao assumir na condição humana o estar a serviço do Pai.          Ora, a pessoa mais próxima da condição humano-divina de Jesus foi Maria. Ela desde o começo da Igreja é olhada como a mais perfeita servidora do Pai. Inclusive o silêncio das primeiras gerações cristãs quanto a mais detalhes biográficos da Virgem, pode ser visto como sinal da sua perfeita adequação e disponibilidade ao mistério da humilhação servidora (quénosis) do Filho amado. Ela mesma nos dá a pista em Lucas, 1,45-48: Minha alma engrandece o Senhor... que olhou para a humildade de sua serva e por isso em todos os tempos todos dirão que sou feliz! Sua intercessão nos lembrará que o “avental do Lava-pés” é o que melhor nos assenta no convívio da comunidade.

                                                                                                    

Homilia para o 29º DTC- B-  (O Grão de Trigo)     Mc.10,35-45
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