Por Pe. Antonio Clayton Sant’Anna, C.Ss.R. Em Grão de Trigo Atualizada em 26 MAR 2019 - 12H51

O anúncio da Boa Nova não é para alienação

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Homilia: 4º Domingo Comum Ano C 

Lc 4,21-30                               

O calendário cristão leva-nos a reviver datas e fatos do mistério de Jesus. Nele nos oferece novas chances de ser e agir com liberdade e vida. O tempo de celebrar é momento precioso de se comprometer com o Senhor e firmar-se em opções definitivas. Como foi definitiva a chance perdida dos conterrâneos de Jesus. Na sinagoga, em dia de culto Ele evocou uma passagem do profeta Isaías. Ligou seu cumprimento à sua vinda. Os habitantes de Nazaré tinham em seu meio ao vivo o Messias esperado e o anúncio do Reino. Mas, rejeitaram-no porque o “filho do carpinteiro” era sem importância social, alguém muito comum.

No 4º domingo do calendário cristão no ano C lemos o trecho do capítulo quarto de Lucas. Aí ele interpreta a prática e resume o mistério de Jesus com duas palavras: seu caminho e missão. O caminho é missão e vice versa! Desse modo Jesus inaugurou na História o novo tempo, caracterizado pelo processo de libertação dos pobres, oprimidos e marginalizados. Sentiu-se ungido pelo Espírito Santo e enviado para ser solidário com as classes mais humildes e oprimidas. Vendo a gente desprezada da Galiléia o coração de Jesus fez-se solidário de modo profético ao clamor do povo vítima das injustiças. No anseio por libertação e vida digna estava a denúncia da iniquidade social vigente.

A missão profética da Igreja deve hoje ser a mesma para a qual Jesus se declarou chamado e enviado. Viver em favor de quem é desrespeitado e maltratado como pessoa: os cativos, os oprimidos, os cegos, os cidadãos de segunda classe. É preciso ser profetas da justiça e da fraternidade em nossa comunidade paroquial, no bairro, nos povoados. Confrontado com a injustiça, a imoralidade, a corrupção do sistema econômico e político, o cristão não “pode ficar em cima do muro” por medo de ser rejeitado ou perder vantagens materiais. Não pode alienar-se do compromisso com Jesus e sua coragem profética. Leia: Lc. 4,21-30.

A narrativa de Lucas nos põe dentro da sinagoga de Nazaré da Galiléia onde, no culto rotineiro do sábado, Jesus leu um trecho do livro de Isaías sobre o Messias e sua função profética. Na sociedade seria um libertador! Abraçaria a causa dos pobres, perseguidos e oprimidos pelas injustiças. Denunciaria a ambição e abriria caminho para uma ordem social justa. Ungido e enviado pelo Espírito, o Messias viria falar e agir sem medo. Lido o trecho Jesus disse aos presentes que viera cumprir as palavras de Isaías. E definiu sua vida como serviço de libertação destinado a produzir para todos o júbilo de Deus, proclamando um tempo especial da Graça.

 

“Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”

Na sinagoga, o público reagiu primeiro com admiração e agrado. Mas, logo veio o preconceito: quem falava ali não era o filho de José o carpinteiro? Todos o conheciam. Nunca saíra para estudar. Não possuía diploma ou título qualificativo. Da simpatia ao desprezo e rejeição foi só um passo. O que Ele dizia de si não combinava com a sua situação humilde, simples e pobre. Os conterrâneos o ridicularizaram dizendo: quem é você? Ou lembrando o antigo provérbio: “médico, cura-te a ti mesmo!” Desprezaram-no porque não gozava de importância social. No mais, a sua pregação profética e inovadora começara a contestar o esquema de vida, incomodando a ordem vigente, injusta sim, mas confortável para muitos interesses. Reagindo à rejeição, Jesus os acusou dos mesmos crimes cometidos contra os profetas antigamente. Assim acontecera com dois bem famosos: Elias e Eliseu. Nomes que eram reverenciados pelo povo. No seu tempo, Elias fugiu perseguido pelo rei judeu Acaz. Só uma viúva estrangeira o acolhera. Havia muitos leprosos judeus no tempo do profeta Eliseu. Mas ele não curou da lepra nenhum israelita; apenas um sírio, um estrangeiro. Enfim, no passado Deus enviara ao seu povo profetas e homens santos que também foram rejeitados. Os estrangeiros tiveram mais consideração com eles. E citou outro provérbio: “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”.

As palavras corajosas de Jesus mexeram com os brios patrióticos dos ouvintes. Expulsaram-no de Nazaré tramando jogá-lo do alto de um precipício como traidor da Pátria. Ele, porém, “passando por eles, continuou seu caminho”. O episódio mexe conosco porque o caminho-missão de Jesus passa hoje por nosso meio ambiente, nossos projetos e nossa vida. Como o estamos recebendo? Ouvimos o anúncio da Boa Nova em nossas igrejas e nos alienamos dos problemas morais, políticos, sociais? Paralisa-nos o de nos comprometer com ele, com seu Evangelho, sua doutrina, sua moral? Jesus é a chance de Deus para nós.

 

                        Aplicação Mariana

A misericórdia de Deus pela humanidade pecadora foi e está sendo realizada no mistério da encarnação. Maria, esposa e mãe de Deus, recebeu a bem-aventurança para cooperar com o projeto salvífico de Deus. A Graça desceu em plenitude ao seu coração. Mesmo não tendo o conhecimento total do querer de Deus ela se doou sem reservas a Jesus. Por isso, a devoção a ela expressa em muitos títulos o anseio pela justiça, pela vida libertada e feliz. O povo cristão a vê como nova Eva, arca da nova aliança, advogada dos pecadores, perpétuo socorro, auxílio dos cristãos etc. No cântico do Magnificat lido no evangelho de São Lucas, se revela a alma profético-libertadora da Mãe do Salvador. Ela se coloca ao lado dos mais pobres e humildes do seu povo e de todas as gerações, denunciando desde seu tempo a ambição dos poderosos e todo o tipo de opressão porque entravam o caminho-missão de Jesus em nosso meio. Do céu, Maria continua ajudando-nos a “fazer tudo o que Deus nos disser”.

 

“Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”
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