Por Pe. Antonio Clayton Sant’Anna, C.Ss.R. Em Grão de Trigo Atualizada em 26 MAR 2019 - 13H14

O filho da viúva de Naim: “Deus visitou o seu povo!”

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Homilia 10º DOMINGO COMUM - ANO C

Lc 7,11-17

        Na vivência da fé cultivamos a dinâmica da libertação pascal produzida por Jesus. Sentimo-nos possuídos por sua força libertadora. Fomos por ele libertados e queremos por ele libertar. Em nosso íntimo o dinamismo pascal de Jesus ajuda-nos a nos corrigir de nossos pecados, fraquezas, más inclinações. Quem é de fato cristão (ã) compromete-se na luta contra injustiças, corrupção, imoralidade também nas relações sociais. Não somos pessoas que se acomodam. Não “ficamos em cima do muro”. Queremos modificar as situações desumanas e fazer a sociedade caminhar para uma vida melhor. Enfrentamos as dificuldades com a “cara e a coragem”, entre outras coisas defendendo e promovendo a vida em todos e para todos. Por isso, não somos abortistas, abortadores ou legalistas para quem a lei está acima da vida do feto, que para nós este é ser humano e vivo. Não um amontoado de células ou mero “produto da concepção”, expressão hipócrita com a qual se busca inutilmente mascarar um assassínio. Entre um feto que se desenvolve no seio da mãe e o jovem filho dela, qual é a diferença senão só o tempo e a nutrição?

          Por isso, hoje quando se constata uma desvalorização ameaçadora sobre a vida e seus direitos, a Igreja anuncia caminhos de ressurreição. Sem medo de ser taxada como retrógrada ou inimiga da cultura, por detratores gratuitos na mídia, por intelectuais, por alguns artistas de renome, ou mesmo por gente que gravita na órbita do poder. A Igreja não é soma das opiniões do papa e dos bispos. Na história da fé é herdeira e depositária fiel do profetismo de Jesus. Ele foi o profeta da vida. Defendeu-a lá onde ela era mais fraca e precária: nos pobres, nos marginalizados, nas viúvas. Proclamou a vida de Deus como o único modo para o homem ser feliz e construir um mundo de paz, alegria e justiça. Em Jesus, na sua doutrina e moral, nos seus gestos solidários principalmente com os marginalizados, Deus se fez e se faz a força e o consolo perante o enigma da morte. Então, a fé cristã que é adesão ao Deus de Jesus Cristo, gera na convivência humana a mais autêntica solidariedade diante da morte, pois é cheia de compaixão para com os mais indefesos, os pobres e os sofredores abandonados.

            Na Bíblia ressuscitar mortos faz parte da lista de obras do futuro Messias. No 10º domingo do tempo comum, ano C, lemos o episódio da ressurreição do filho único de uma mãe viúva quando o enterro saía da cidade chamada Naim. Esta catequese de Lucas nos ajudará a perceber o quanto a nossa sociedade, orgulhosa de sua técnica e progresso, é ainda cruel e hostil em relação à vida humana. (Ler: Lucas, 7, 11-17.)

           Lucas elaborou a narrativa inspirando-se em dois fatos bíblicos referentes a Elias e Eliseu, então profetas muito respeitados pelo povo judeu, e que haviam ressuscitado pessoas. O 1º livro dos Reis, 17, 23, no Antigo Testamento, fala que Elias ressuscitou um adolescente, filho único de uma viúva. Eliseu, discípulo e sucessor de Elias, fez a mesma coisa em benefício de um jovenzinho, também filho único. (2 Rs 4,29-37).

            Ora, na visão do Novo Testamento a atividade profética de Elias pré-anuncia o que aconteceria no tempo do Messias. Lucas compara Jesus a Elias. Narra o episódio de Naim, localidade que não ficava longe do lugar onde Eliseu ressuscitara o rapazinho. Jesus não é inferior aos dois profetas. Ele confirma as suas palavras com grandes gestos de misericórdia. Ele veio consolar e salvar! Nele, Deus mesmo visitava o seu povo.

            Lucas, que foi pintor e médico, descreve a cena de Naim dando-lhe um vivo colorido. Faz o contraste entre dois cortejos: um que entra e outro que sai pela porta nos muros da cidadezinha. Jesus à frente do que entrava é acompanhado por seus discípulos e muita gente cheia de vida e esperança. O cortejo que saia era o de um enterro. Muitos acompanhavam a mãe viúva levando o cadáver do jovem e único filho dela. Quem poderia dizer-lhe uma palavra de esperança? Parou-se o enterro no cruzamento dos dois cortejos e aí o Senhor movido pela compaixão, disse à mulher: “Não chores”. Não foi apenas uma palavra de consolo. Senhor é o título dado na Bíblia a quem tem o poder absoluto sobre a vida. E Jesus, o Senhor, portador da vida pura e abundante violou o rigor jurídico da lei, ao tocar no cadáver. O toque produzia segundo o conceito social a impureza legal, isto é, contaminava o agente, que ficava marcado com um preconceito.

            Mas o toque de Jesus, o Senhor, no cadáver produziu nele uma vida nova, pura e abundante. “Moço, eu te ordeno, levanta-te!”. E o rapaz foi restituído à alegria da mãe. O povo se convenceu que um grande profeta estava ali e Deus mesmo o visitava.

            No enterro de Jesus, filho único da Virgem, provavelmente já viúva de José, não houve um cortejo contrário portador da esperança de nova vida. Mas, certamente Maria a carregava no coração. Ela viveu a certeza dada pelo Evangelho antes dele ser escrito. Hoje ela caminha conosco na Igreja e fortalece nossa fragilidade. Que a mãe nos ajude a vencer a cultura da morte em nossos tempos acreditando no dinamismo libertador da fé em Jesus, o vivente!          

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