Por Pe. Antonio Clayton Sant’Anna, C.Ss.R. Em Grão de Trigo Atualizada em 26 MAR 2019 - 12H50

Perdão e misericórdia: a novidade da Graça

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Homilia: Grão de Trigo - João, 8, 1-11 - 5º Domingo Quaresma - ANO C                                                          

No contexto social em que predomina a pressa e tudo é descartável, a Quaresma é tempo fértil na busca da graça, do perdão e do amor a Deus. A fé cristã não é “fluida”, é sólida. Jamais descarta a conversão oportuna. Conversão é conceito bíblico. Convida-nos a libertação do passado errado acolhendo a chance nova do perdão que, agradecido, “canta louvores ao Senhor” (Isaías, 43,21). O passado de pecado nunca é novidade. É sem futuro! Aprisiona o “homem velho” à sua situação e o sujeita ao pecado e sua concupiscência, previne São Paulo (Ef 4,22-24). Recebido como herança de Adão, é a condição infeliz de quem vive desajustado com a vontade do Senhor que nos criou para Ele. Olhando nosso passado pecador só encontramos ruínas. Vemos que lá só havia a escravidão continuada dos vícios e paixões nos dominando. Vivíamos como exilados de Deus, isto é, longe da sua graça e perdão.

Ora, a conversão “faz coisas novas: abre uma saída, uma estrada no deserto sem horizonte” (1ª leitura). A situação nova, a “coisa nova” oferecida e realizada por Deus em nós é a Páscoa de Jesus. Ressuscitado da morte e vencedor do pecado Jesus é a “novidade radical e absoluta da história humana pecadora”: Ele é o “homem novo”. São Paulo escreve aos Filipenses: o que ele mais queria em sua vida era conhecer Jesus Cristo e experimentar a força da sua ressurreição. Fl (3,10). (2ª. leitura). Eis a ideia da superação do passado através da novidade inimaginável: experimentar a ressurreição!

 

Logo, a Quaresma não é só penitência, arrependimento e abandono dos erros. Não é só o esforço humano de se corrigir. É também abrir um caminho novo. Caminho de liberdade e vida plena.

Logo, a Quaresma não é só penitência, arrependimento e abandono dos erros. Não é só o esforço humano de se corrigir. É também abrir um caminho novo. Caminho de liberdade e vida plena. O episódio da mulher adúltera narrado no Evangelho de João ilustra a mentalidade bíblica da conversão. Aquela mulher apanhada em adultério tinha um passado deprimente. Trouxeram-na a Jesus esperando emaranhá-lo nos laços da Lei. Ele não caiu, não condenou nem a mulher nem os acusadores. Ela, arrependida, abraçou uma vida nova. Este é o processo da conversão. Cabe só a Deus a condenação do pecador (a). Mas, Ele quer oferecer o “novo”: oferece a misericórdia e o perdão. Leia: João 8,1-11.

O ensino de Jesus no Templo é a “coisa nova”, que superava leis e costumes passados. Aqui o Templo de Jerusalém não é só o lugar sagrado do A.T. É o símbolo da “ordem e lei mosaicas” e portanto, de todas as instituições públicas vigiadas e controlados conforme os interesses das classes dirigentes. O Templo representa então, a “praça-forte” do esquema político-religioso dominante no tempo de Jesus. Esquema que mantinha os privilégios dos fariseus, doutores da Lei, sacerdotes e outras elites. Ora, se Jesus fora ensinar no Templo e se havia muita gente interessada em escutá-lo, o episódio da mulher adúltera pega em flagrante adultério é pretexto. Significa a rejeição oficial ao ensino de Jesus, segundo o qual o Templo deveria ser o local do novo, ou seja, da experiência de um Deus cheio de misericórdia e perdão. O culto no Templo deveria expressar fidelidade à Aliança, mas não apenas à sua letra, à lei, e sim ao seu espírito. Deus era parceiro do seu povo não para condená-lo, mas para perdoá-lo e oferecer-lhe caminhos novos!

Os homens do poder – zelosos guardiões do Templo – trouxeram a Jesus a mulher apanhada em adultério. O problema era sério: apedrejar a adúltera conforme mandava a lei ou simplesmente esquecer o escândalo público? A armadilha comprometia Jesus de um jeito ou de outro. Acusavam a adúltera não por zelo religioso. Estavam ligando a mínima para o pecado. Aliás, não se cumpria à risca o que mandava a lei, pois deveriam trazer junto o parceiro do adultério. Também o adúltero merecia perante a legislação o mesmo castigo de apedrejamento. Onde estava? Trouxeram apenas a mulher o que revelava a má intenção dos acusadores reiterando a pergunta a Jesus.

Sem nada responder Ele se desvencilhou da armadilha e desmascarou as más intenções dos líderes. Achou bom abaixar-se e rabiscar qualquer coisa no chão. De início os líderes não se deram conta do que Jesus rabiscava e insistiram numa decisão sobre a mulher. Apedrejá-la, segundo a Lei, ou não? Jesus ergueu-se e sentenciou: “Quem entre vocês não tiver pecado, atire a 1ª pedra!” (v.7). E abaixando-se começou a escrever novamente no chão. Aí, inverteu-se a situação. Os acusadores passaram a acusados. Um por um, a começar pelos mais idosos, foram saindo de fininho. Pois se negassem que eram pecadores, teriam que começar o apedrejamento. Sobrou só Jesus, o inocente e santo de Deus, diante da adúltera. Ele poderia, a rigor, cumprir a lei. Preferiu cumprir a misericórdia do Pai. Ofereceu a novidade do perdão e de vida nova a ela. “Mulher, se ninguém a condenou, eu muito menos... Vai e não peques mais”.

Um olhar para Maria, a mulher da Graça.

“E tudo se fez novo”. O corpo e o sangue de Cristo venceram o mundo e o pecado para nos ensinar o amor misericordioso do Pai e sermos plenos e felizes nele, em definitivo. Ainda assim, escreveu Santo Afonso de Ligório em sua obra A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo: piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus, que a alma de Cristo “está triste até à morte (Mc 14,34)”. “Essa grande tristeza foi motivada em vista da ingratidão futura dos homens, que em vez de corresponder a tão grande amor, haveriam de ofendê-lo com tantos pecados, o que o faz suar sangue: ‘E seu amor se fez como gotas de sangue correndo sobre a terra’ (Lc 22,44)”.

Maria, a nova Eva, a mulher cheia da graça! Recebeu de Deus a maternidade divina para amamentar toda a humanidade com o sangue do Cordeiro Santo. Por isso recorremos a Mãe de Deus, que experimentou radicalmente o sofrimento de seu Filho também por amor a humanidade. E deseja como mãe da graça que seus filhos herdeiros reconciliem-se com o Filho de Deus. Santo Afonso roga: “Ó Virgem santa, Mãe de Deus, Maria, ajudai-me com vossas súplicas e obtende-me que não deixe mais de amar a Jesus morto por mim, e a vós, minha Rainha, que levastes Deus a usar de misericórdia comigo até agora”. A novidade mesma da vida está na misericórdia e amor de Deus.

Pe. Antonio Clayton Sant'Anna, CSsR

Colaboração: Ana Alice Matiello- (Olhar para Maria).

Logo, a Quaresma não é só penitência, arrependimento e abandono dos erros. Não é só o esforço humano de se corrigir. É também abrir um caminho novo. Caminho de liberdade e vida plena. O episódio da mulher adúltera narrado no Evangelho de João ilustra a mentalidade bíblica da conversão. Aquela mulher apanhada em adultério tinha um passado deprimente. Trouxeram-na a Jesus esperando emaranhá-lo nos laços da Lei. Ele não caiu, não condenou nem a mulher nem os acusadores. Ela, arrependida, abraçou uma vida nova. Este é o processo da conversão. Cabe só a Deus a condenação do pecador (a). Mas, Ele quer oferecer o “novo”: oferece a misericórdia e o perdão.
Pe. Antonio Clayton Sant'Anna, CSsR
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