Por Pe. Antonio Clayton Sant’Anna,CSsR Em Homilias

Homilia 2º domingo Quaresma- Ano B

transfiguracao_jesus

 Marcos 9, 2-10

Transfiguração: A cruz e a coroa no caminho do serviço!

Ignorada pela grande mídia e talvez um tanto estranha no linguajar cotidiano das pessoas, a Quaresma é tempo precioso de espiritualidade cristã há séculos. Não só como etapa do calendário nos 40 dias seguintes à quarta-feira de cinzas. É tempo de reflexão e autoeducação na vivência fraterna segundo o espírito de Jesus Cristo. Individual e em comum! É caminho libertador sobre nossas inclinações cevadas no orgulho, egoísmo, sensualidade. Inclinações sustentadas nos mecanismos do consumo, do prazer e da posse. A comunidade cristã presente em qualquer realidade social e cultural se organiza e convida os seguidores de Jesus a pensar e organizar a vida como ele pensou e viveu. Na Quaresma nós, discípulos-missionários, procuramos traduzir nos gestos concretos de oração, esmola e jejum, a “prática de Jesus”, isto é, o seu serviço vocacional. Enfim, procuramos uma conversão pascal. Por isso, a Páscoa é a finalidade principal da Quaresma. Aparentemente nada muda ao nosso redor. As “vestes públicas”, da convivência social não são alvejadas, lavadas do pecado pela graça. As atividades não parecem se envolver no dinamismo infinito de graças que é a ressurreição de Jesus! Por isso, temos que subir a montanha da oração e escutar a voz que vem do alto: ouvir a Palavra, na oração, na vivência da caridade e da renúncia de si.

A oração nos liberta do cotidiano cheio de fadigas e desânimos. A Palavra nos dá sabedoria para fazer escolhas acertadas no vai e vem da rotina e participar nas celebrações quaresmais da nossa comunidade. Caso contrário, a “engrenagem” impiedosa do consumismo sem freios nos envolve e nos afasta da união com Cristo. Logo, é imperioso buscar a própria transfiguração ou mudança interior. Empenhar-se no crescimento pascal com atos de renúncia e de caridade. Nisso temos a ajuda oportuna da Igreja. Todos os anos ela nos mobiliza com a Campanha da Fraternidade que neste ano procura o diálogo: Igreja e sociedade. À luz do Cristo servidor somos conscientizados e mobilizados para evangelizar e anunciar a ressurreição. A comunidade cristã cresce na união e no serviço uns aos outros. Alivia-se aqui e ali a estrutura dolorosa que produz a dor, o sofrimento, as doenças. A coerência com o Evangelho e o seguimento de Jesus nos dão força e coragem. Somos como que transfigurados!

O episódio da Transfiguração de Jesus no alto do monte nos ensina o verdadeiro caminho da libertação e de plena humanização: a Páscoa! Os três discípulos citados como testemunhas viram o humano vestido de glória, mas só o entenderam quando mudaram as expectativas de ambição, ostentação e sucesso.  Leia o texto de: Marcos, 9, 1-10.

A palavra transfiguração significa aqui: um novo aspecto. Uma nova figura ou aparência de vida de alguém no futuro. O futuro de Jesus seria diferente daquele de cruz e morte desejado por seus adversários. Os discípulos por sua vez imaginavam estar acompanhando um mestre que lhes daria a coroa da fama, o sucesso e prestígio popular. Na verdade, o povo sempre quer um libertador político, ou seja, alguém capaz de curar as feridas da pobreza, da marginalização e garantir a liberdade e a prosperidade. Jesus, porém, falava e agia de modo contrário e seus discípulos não o compreendiam. Na sua catequese Marcos parece focalizar antes a diferença entre as propostas de Jesus e as da sociedade em todos os tempos, que propriamente um fato histórico. Os mecanismos excludentes da sociedade multiplicam a violência, a ambição, o egoísmo. Sem livrar e salvar. Sem transformar e transfigurar o modo real de convivência. As propostas de Jesus ligam a pessoa humana e a história ao Projeto de Deus e por isso contrariam os interesses políticos dominadores. É projeto de libertação, saúde e vida. Esse não é caminho fácil nem triunfalista. É caminho de renúncias e sacrifícios. É normal que produza mártires, isto é, testemunhas fiéis até ás últimas consequências. Foi o caso de Jesus por sua fidelidade ao Deus vivo. Perseguições, torturas, cruz e morte. Mas, por isso mesmo Ele seria vencedor. Transfigurado em sua pessoa ressuscitada, ele transfigura também a realidade pecadora do homem! Em Jesus vemos o “ humano coroado de glória” após o caminho da cruz.

A narrativa de Marcos, histórica ou simbólica, vê Jesus no alto da montanha ladeado por Moisés e Elias, os dois maiores representantes da primeira aliança no Êxodo e no Profetismo. No monte Sinai Moisés fora o intérprete de Deus para todo o povo eleito e recebera os 10 Mandamentos. Na transfiguração Moisés, o legislador e Elias o profeta mais famoso reverenciam o autor da Nova aliança. Jesus levou três apóstolos com Ele. O número três, simbólico na Bíblia, sinaliza o novo povo formado a partir das humilhações e sofrimentos do Messias. Sem futuro, rejeitado e excluído, mas por isso mesmo o vencedor glorioso. A voz misteriosa saindo da nuvem testifica a origem divina daquele ‘humano’: é o filho amado de Deus. Que todos o escutem! Os três discípulos desceram do monte sem entender o que seja ressuscitar dos mortos. Isto finaliza a lição do Evangelho: quem não for com Jesus até o fim e não estiver disposto a segui-lo mesmo até a cruz e a morte, não compreenderá o discipulado.

Enfoque mariano.

Maria escutou, entendeu e viveu a voz misteriosa e foi por ela transfigurada. O chamado de Deus a fez a “filha predileta”. Ela se dispôs a servir: Eis a serva do Senhor para fazer sua vontade! Na Tradição cristã desde o Novo Testamento, Maria substitui o exemplo de fé mostrado na vida dos patriarcas (Abraão) e profetas. Aceitou na obscuridade e na simplicidade do serviço por amor a peregrinação própria da Quaresma, ou seja, o caminho pascal. Para a Igreja no Brasil, sob o título de Aparecida, Nossa Senhora nos ajuda com suas bênçãos celestes e sua intercessão junto a Jesus na glória, a viver a Campanha da Fraternidade, sendo uma Igreja servidora da vida nos caminhos da história.

Pe. Antonio Clayton Sant´Anna – C.Ss.R.

Diretor da Academia Marial

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