Por Pe. Antonio Clayton Sant’Anna -CSsR Em Homilias

Homilia 3º domingo da Páscoa Ano B

Jesus ressuscitado e maria.jpg

Testemunhar a alegria da paz pascal

Lc. 24, 35-48

O domingo é o dia mais importante da semana. Não pelo feriado e pelo descanso. Mas, porque nele celebramos o sentido cristão da vida. Nós amamos Jesus, trazemos em nosso ser desde o batismo o selo, a marca de sua vida nova, a energia de sua ressurreição e vamos à Igreja oferecer-nos no altar do Senhor. E aí “saboreamos” a alegria, a união fraterna, a partilha da fé comum nele. Conforta-nos a paz pascal, a mesma que rompeu os grilhões da morte e do pecado com a glória do Cristo ressurgindo vitorioso do túmulo.  Dedicado a Ele, o domingo é a sua páscoa continuada. Ele é o Senhor!

Em latim a palavra “senhor” se traduz como “dominus”. Aquele que tem o domínio. É o soberano. Desde o começo os cristãos introduziram o domingo no calendário semanal porque viram a ressurreição de Jesus sinalizando um novo começo na história. Um dia novo. O primeiro dia de uma nova criação, o princípio de uma nova humanidade. “Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!” (Salmo 117). Consideraram o corpo glorificado de Jesus Cristo o início e o fundamento da nova realidade do ser humano e de toda a História. O homem, a história, a vida e todo o universo foram resgatados e reconciliados com Deus através da obediência filial fidelíssima que o humano Jesus de Nazaré vivera no seu relacionamento com o Pai celeste. Deus o recompensou e constituiu Senhor dos vivos e dos mortos. Por isso desde os seus primórdios a comunidade cristã apresentava Jesus crucificado sob esse título: o Senhor! Ideia-chave do Novo Testamento. O livro do Apocalipse descreve as relações entre Deus e os homens por causa de Jesus como a “um novo céu e a uma nova terra” (21,1). Jesus ressuscitado “fez novas todas as coisas. Ele é o princípio e o fim” (21,5-6).

O tempo pascal do calendário cristão nos ajuda a sentir e viver a Páscoa de modo concreto, não só celebrativo. É real! Está em nosso poder atualizá-la em todas as situações de sofrimento, violência, injustiça e morte. O que é preciso fazer? Antes de tudo acreditar. É o que nos ensina a comunidade dirigida por São Lucas sobre a nova vida de Jesus ressuscitado. Leia: Lucas, 24,35-48.

Numa só catequese Lucas nos oferece três narrativas das aparições de Jesus. Ele aparece às mulheres que de madrugada foram ao túmulo para terminar o trabalho fúnebre de preparação do cadáver a ser sepultado. Aparece aos dois discípulos de Emaús quando voltavam para casa desconsolados com o final trágico do Mestre. Liga-se a este encontro uma terceira aparição a todos os discípulos reunidos. Justamente quando os dois de Emaús contavam aos outros sua surpresa no encontro e reconhecimento de Jesus na ceia “ao partir o pão”. Ele mesmo surge no ambiente.

O evangelho de Lucas sugere nesta passagem que a fé na ressurreição de Jesus foi se firmando progressivamente nas comunidades cristãs. Só aos poucos os discípulos se desfizeram de suas dúvidas, desconfianças e dificuldades em crer. Escrevendo lá pelos anos 70 DC Lucas se inspira nas tradições conservadas em meio aos grupos cristãos. Inclusive esse contato coletivo dos apóstolos com o Mestre ressuscitado. O ensino subjacente nesta terceira aparição é eliminar toda e qualquer suspeita que perturbasse a fé e a compreensão racional dos cristãos sobre Jesus. Pois as teorias filosóficas gregas sobre o que acontecia após a morte com o homem poderiam causar confusão semeando dúvidas na fé em Jesus. Na ressurreição o seu corpo recebera um estado glorioso. Não se tratava de nenhum “fantasma” ou de um “espírito desencarnado” visível.

Note-se a repreensão que o ressuscitado faz aos discípulos assustados e cheios de medo: “… por que tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede!”. E o texto reafirma: mesmo vendo as chagas de Jesus nas mãos e nos pés “eles ainda não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos.” Era uma experiência que de tão maravilhosa não podia ser verdade! Mais um indício de que a fé na ressurreição de Jesus foi se firmando aos poucos. A alegria veio após a insegurança inicial, mas não foi produzida por uma fantasia ou por uma saudade muito grande. A narração nos diz que Jesus apresentou aos discípulos provas de sua corporeidade real, mesmo se incompreensível à inteligência. Comeu diante deles um pedaço de peixe assado. A fé na ressurreição do Senhor não foi obra de imaginação dos apóstolos. Eles compreenderam corretamente os anúncios da Escritura sobre o Messias. Possuídos pela Boa Nova sentiram a necessidade de comunicá-la aos outros como testemunhas do Cristo ressuscitado.

Aplicação mariana

Maria esteve como sempre envolta na simplicidade profunda de sua fé junto à descoberta que os apóstolos e os outros faziam sobre a nova realidade de Jesus. Ela não precisava de “provas” ou raciocínios. Vivia num estado único de amor, à luz da fé confirmada. Hoje precisamos de seu exemplo, de sua presença silenciosa em nossa peregrinação pascal. Mais de dois mil anos depois é a nossa vez de crer e de anunciar a mesma fé vivida por ela. O mundo e os homens estão aí esperando nosso testemunho cristão. Ou ainda temos nossas dúvidas como os apóstolos? Busquemos a alegria pascal da comunidade reunida. Nela se encontra o Senhor vivo e vencedor sobre o pecado e a morte. E nela, Maria é a sob todos os títulos nosso amparo, refúgio e proteção.

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