Por Pe. Antonio Clayton Sant’Anna, C.Ss.R. Em Homilias

Homilia 4º domingo Quaresma

cruz

Olhar a cruz produz vida, libertação e saúde!

A cruz é o símbolo cristão conhecido no mundo inteiro.  Lembra-nos a morte de Jesus nela. Mas, ele não foi o único crucificado. Os romanos e outros povos usaram largamente esse castigo cruel e temido. Hoje um terço de toda a população mundial reverencia a cruz como adesão na fé. A Igreja a vê ao mesmo tempo como sinal de dor e de esperança. Entretanto, se ela consola os que sofrem, espanta e contraria os que não creem. E até para ouvidos cristãos incomoda o conselho de ver a cruz do sofrimento como esperança que gera vida e saúde!  Assim fez Jesus: “Vinde a mim, vós todos que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” (Mt. 11,28).  Por outro lado ensinou: “Se alguém quiser me seguir… carregue a sua cruz!” (Mc. 8,34).

De fato, só nos é possível celebrar, rezar e promover a justiça conscientes de que é por causa dele e seu amor.  Atos religiosos e belas celebrações com vivas e fogos, são inúteis se não conduzirem nossos afetos e sentimentos para o Cristo crucificado. Olhar para Ele! Ele é inseparável da cruz, o altar da nossa libertação, a fonte da vida plena. O mistério de sua morte e ressurreição nos aproxima da graça, do perdão e da paz. A graça está toda em Jesus. Levantado na cruz, Ele é a GRAÇA; chave da vitória sobre o pecado e a morte. Elevar olhos confiantes para o Calvário é agradecer a doação extrema do amor de Deus por nós na pessoa de seu Filho Unigênito.

No contexto de um debate amigo entre Jesus e Nicodemos, perito na Lei, o evangelho de São João nos dá o argumento de Jesus convidando-nos a confiar na cruz: Deus amou tanto o mundo que nos deu o seu Filho unigênito. Quem nele crer terá a vida eterna. Ele é quem salva o mundo (Jo. 3,16s). Leia: João, 3, 14-21.

Nicodemos, homem da elite religiosa judaica, era “mestre em Israel”, ou seja, um entendido nas leis e costumes segundo a prática religiosa do Antigo Testamento. Ora, na conversa com Jesus o mestre Nicodemos não o entendeu quando ele lhe falou da “vida no Espírito”. A Antiga Aliança conferia a vida espiritual ao povo, mas este não vivia no Espírito, na intimidade do mistério divino. Em seu ministério e no seu modo de ser, Jesus veio oferecer a plenitude no conhecimento e no amor de Deus. Aliança nova e vida em abundância!  Com certo espanto e não sem ironia Jesus põe Nicodemos contra a parede: “Você é mestre em Israel e não sabe essas coisas?”. Que coisas? As da vida do Espírito de Deus em nós. O povo bíblico fora o único beneficiário da aliança de vida com Deus. Na fidelidade à Aliança e no comportamento moral e civil, o povo escolhido deveria possuir o amor salvador de Deus e testemunhá-lo para outros povos. Foi infiel. Rompeu com esta Aliança. Todavia o amor salvador do Senhor Deus não abandonou os homens. Veio até eles, não mais apenas nos descendentes de Abraão, e sim na pessoa de seu Filho Unigênito. Jesus explicou a Nicodemos: “Deus tanto amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito, para que não morra quem nele crê, mas tenha a vida eterna” (v.16).

Portanto, Jesus personifica o amor salvador do próprio Deus, oferecido a todos os homens gratuitamente. Amor ao extremo! Provado até as últimas consequências! Ele nos ama não porque somos bons, mas porque Ele é bom! Quer salvar, quer comunicar a nós a sua vida em plenitude. Não podemos alcançar por nós mesmos a vida espiritual, a alegria do amor de Deus. Aliás, criamos para nós e os outros muitos sofrimentos, muitas injustiças, sinais do desamor e da não-salvação. Jesus é quem “nasceu do alto”. O alto é referência ao mistério do amor de Deus e à prova de sua entrega: a cruz. Nela ficou patente o atestado da resposta humana àquele amor em máximo grau. O “alto da cruz” abriu a porta para a comunhão eterna com Deus.

A imagem da serpente de bronze era figura de Jesus.

No diálogo Jesus lembra a Nicodemos o episódio da serpente de bronze narrado em Números (21,4-9). Libertado da escravidão o povo achou difícil a vida nômade pelo deserto e murmurou contra Deus. Teria sido melhor continuar escravo lá no Egito, em vez de morrer de fome e sede no acampamento. Não confiou no amor de Deus e dele se isolaram em rebeldia. Nisso serpentes venenosas surgiram no acampamento e muitos morreram picados. Veio o arrependimento. Inspirado por Deus Moisés mandou fazer uma imagem de bronze representando uma serpente mortífera e ergueu-a num poste. Se alguém era picado por uma víbora seria curado caso olhasse para a imagemda serpente de bronze (Nm. 21,4-9). Jesus aplicou esse fato bíblico a si mesmo e à sua morte na cruz. A imagem da serpente feita de bronze levantada no poste simbolizava a cura e a salvação que viriam pelo sangue derramado na cruz. “Assim… o Filho do homem será levantado a fim de que todo aquele que crê tenha por meio dele a vida eterna” (v.14s). Crer no Filho de Deus garante o julgamento favorável.

Maria no Calvário

O olhar do evangelista João focaliza Maria junto à cruz de Jesus. Quem olha para o Filho suspenso no madeiro vê a mãe ao mesmo tempo. Ele e ela comungam as dores através de mútuos olhares entrelaçando em meio a indizíveis sofrimentos um pouco de consolo dado pelo amor mais forte que a morte. Acontecia o apoio mútuo no ‘fiat’ de cada um. O fiat de Maria e o de Jesus constituem o momento final do mistério da encarnação. Por isso, recordando a ceia pascal a Igreja canta com São Paulo: Quanto a nós devemos gloriar-nos na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que é nossa salvação, nossa vida. Nossa esperança de ressurreição. E pelo qual fomos salvos e libertos. Para nós o olhar a cruz aprofunda nossa pobre visão sobre o mistério do homem criado e amado por Deus em Cristo.

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