Por Academia Marial Em Notícias

Dom Rodrigues, cuida de nós!

 

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Há um mês falecia em Goiânia, após longo período de internação, o bispo Dom José Rodrigues de Souza CSSR, emérito de Juazeiro-BA.Era associado da Academia Marial de Aparecida e, residindo em Trindade-GO, mostrava sempre grande interesse por ela e tudo o que dizia respeito ao Santuário Nacional.

 Alem das condolências de praxe, muitas vozes significativas proclamaram o trabalho episcopal ingente e dedicado, bem como as virtudes cristãs e humanas do falecido. A Conferência Nacional dos Bispos (CNBB); A Província Redentorista de São Paulo; a Comissão Pastoral da terra; Leonardo Boff, a senadora baiana Lídice da Mata; a Assembleia Legislativa da Bahia etc. Dom Leonardo Ulrich Steiner, secretário geral da entidade, enfatizou entre outros tópicos o lema episcopal de Dom José Rodrigues: “Enviou-me a evangelizar os pobres”. E finalizou a nota de pesar com a lembrança consoladora da Palavra do Evangelho: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas, se morre, produz muito fruto” (Jo..12,24).

 A Academia Marial de Aparecida associa-se a todos esses louvores terrenos e eleva suas preces com seu ex-membro acolhido na glória de Deus pelos merecimentos do Cristo ressuscitado. É a primeira festa da Mãe Aparecida que ele não celebra na terra.  Mas, imerso no mistério do Senhor da vida e da morte ele continua presente em nossos propósitos e trabalhos no estudo, na vivência e na difusão do culto à Virgem Maria.

 Fica publicada aqui também ad perpetuam rei memoriam, a expressiva “Nota da Comissão Pastoral da Terra”, que dignifica este sítio eletrônico com a personalidade de Dom José Rodrigues de Souza – CSSR. Ele que no dia de sua saída da Catedral de Juazeiro-BA podia proclamar ao povo de Deus: “Nunca traí os pobres, nem em época de eleição”!                                                  

                                                                                                              (Pe. Antonio Clayton Sant’Anna- CSsR)

Nota da Comissão Pastoral da Terra

A CPT – Comissão Pastoral da Terra de Juazeiro, da Bahia e do Brasil, com fé e amor, celebra a Páscoa de dom José Rodrigues de Souza CSSR. A gratidão supera a dor desta hora de sua partida, para rogarmos a Deus por seu merecido descanso e pela continuidade por nós de sua obra redentora.

Bispo de Juazeiro entre 1975 e 2003, dom José foi um dos fundadores da CPT Regional Nordeste III (Bahia/Sergipe), em 1976, da qual foi bispo acompanhante por muitos anos. Criou logo em seguida a CPT de Juazeiro, como resposta pastoral ao sofrimento do povo expulso pela barragem de Sobradinho e aos camponeses vítimas da grilagem de terra, no início da irrigação agrícola no submédio São Francisco. A todas as demandas do povo sertanejo, multiplicadas e prementes, sua sensibilidade humana e pastoral soube responder, ao criar (ou reforçar) outras sete pastorais sociais (juventude do meio popular, pescadores, mulher marginalizada, saúde, reassentados, carcerária, criança), “círculos de cultura” (com Paulo Freire), um setor diocesano de comunicação, uma biblioteca de 45 mil volumes, uma campanha pioneira pelas cisternas familiares de água de chuva, pilar da Convivência Com o Semiárido, e uma destinação social ao patrimônio da diocese em terras na cidade de Juazeiro. Por uma Igreja una e nordestina, atuou sempre articulado com as dioceses e bispos vizinhos: Senhor do Bonfim (d. Jairo), Rui Barbosa (d. Matthias e d. André), Paulo Afonso (d. Mário e d. Esmeraldo), Petrolina-PE (d. Paulo) e Propriá-SE (d. José Brandão, redentorista como ele). Favoreceu a articulação sindical de todo o vale do São Francisco, que se reunia no centro de encontros da diocese, em Carnaíba do Sertão. Em tempos de silenciamento, foi porta-voz dos pobres nas igrejas e capelas, no rádio, no boletim mensal da diocese (“Caminhar Juntos”), na Assembléia Legislativa, na Câmara Federal e em viagens pela Europa. À tardinha das sextas-feiras, parava-se nas estradas para ouvir seu “Semeando a verdade”, na Emissora Rural, e as comunidades reuniam-se ao redor do rádio para ouvi-lo. Todos os meios disponíveis à época ele soube lançar mão pela libertação do povo.

Não se intimidou com a repressão militar, os quatro municípios atingidos pela barragem de Sobradinho transformados em “área de segurança nacional”. Sua casa foi invadida e vasculhada, os muros e portas da catedral pichados pelo Comando de Caça aos Comunistas. Toda reação popular aos desmandos públicos e privados lhe era atribuída, como as mortes de fazendeiros no vale do Salitre em confronto com lavradores que defendiam sua água sugada pelas motobombas de grandes irrigações. As conquistas do povo nos reassentamentos dos atingidos pela barragem de Sobradinho devem muito à sua voz destemida e ao trabalho que encomendava à CPT. A organização eclesial (CEBs), sindical e política do povo sertanejo teve grande impulso sob sua inspiração e incomodou os coronéis locais e os donos do poder na Bahia. Por conta de seu destemor na defesa dos pobres, explorados e oprimidos, esteve por várias vezes sob risco de violência e morte, mas não retrocedeu, impávido, às vezes contra nossa vontade. A entrega de si aos outros se tornou definitiva quando se fez refém de assaltantes em lugar da família do gerente do Banco do Brasil e esteve por dias com um revolver apontado para sua cabeça, perdoou os criminosos, escrevia-lhes e ajudava a se recuperarem.

Ao deixar a diocese, quando completou 77 anos de idade, disse como da essência de um testamento: “nunca traí os pobres”. Sem dúvida alguma, sua fidelidade mais profunda era a Jesus de Nazaré. E foi-se como veio, praticamente com a roupa do corpo. Nestes sertões, neste país, e mesmo nesta Igreja, não é pouco… Diante das sugestões para produzir suas memórias, dizia: “memória só tem uma, a Eucaristia”.

Sua morte a menos de um dia após a festa da padroeira, Nsa. Sra. das Grotas, que celebrou também os 50 anos da diocese, a qual ele, firme e humilde, dirigiu por 28 anos, nos faz pensar no quanto sua vida estava intimamente ligada à trajetória desta Igreja de Cristo nos sertões do São Francisco. “Mãe das Grotas… em teus braços vê se acolhe… os que lutam, os que vivem e os que morrem”.

Dom José Rodrigues, Dom José, Dom Rodrigues, Rodriguinho, grão fértil de trigo morto, produtivo (cf. João, 12,24), você nos deixa para habitar misteriosa e mais fortemente nossos espíritos e nossas lutas. Com esperança, nós da CPT nos comprometemos em preservar sua memória e ser fiel a seu exemplo e inspiração, na continuidade do serviço incansável aos pobres do campo de hoje, causa do Reino de Deus de sempre. Homem de fé e ação, de espírito e coração, de pouco corpo e muita alma, profeta do nosso tempo, pastor dos pobres da terra, homem santo, cuida de nós! Amém!

Fonte: https://www.cptnacional.org.br/index.php/noticias/13-geral/1225-dom-jose-rodrigues-cuida-de-nos

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