Por Academia Marial Em Palavra do Associado Atualizada em 28 FEV 2018 - 11H35

A Senhora do Silêncio e o Jejum dos “ruídos”

Estamos no período santo da Quaresma! É de fundamental importância a prática dos exercícios quaresmais e, dentre eles, destacamos o Jejum. Segundo Frei Patrício Sciadini, ocd, no seu livro “O Jejum: o que é, como se faz”, o jejum nos lembra que os verdadeiros valores não podem ser limitados ao material e ao que é passageiro e, ainda, é a oportunidade de íntima comunhão com a Paixão de Jesus¹. Para bem realizá-lo, podemos contar com Maria.

Sim, Maria é aquela que nos ajuda a viver bem esse exercício e, nestes tempos, de um modo muito especial, levando-nos ao jejum “dos barulhos” para mergulharmo-nos, de um modo bem frutuoso, no Silêncio. Este por sua vez, nos levará a uma alta contemplação e experiência com o Senhor. Um exemplo disso, são duas crianças, os mais jovens santos não mártires da Igreja, que fizeram a experiência do Silêncio: São Francisco Marto e Santa Jacinta Marto, celebrados neste mês de Fevereiro.


Há muitos ruídos

O nosso mundo está muito barulhento, não só os barulhos dos carros nas grandes metrópoles, ou mesmo no metrô e no ônibus onde, com aquele estresse contagiante, as pessoas estão com fones de ouvidos com músicas altíssimas em seus aparelhos eletrônicos. Mas, não é só isso, existem barulhos, gritos que ecoam de uma sociedade sem esperança, gritos de uma sociedade frustrada e decepcionada, de uma sociedade que paradoxalmente ao avanço dos meios de comunicação, grita propagando o individualismo, o hedonismo contra a alteridade! São gritos desesperados de pessoas fragmentadas pelo ambiente que as circundam! Gritos que propagam o efêmero, porque, sem esperanças de dias melhores, não se acredita no futuro e muito menos se quer olhar para o passado em forma de gratidão! São gritos de contra valores assumidos como valores e que, se contrapõem Cristo Jesus e ao Evangelho!

A Senhora do Silêncio

No meio de todo esse contexto caótico, como boa Mãe que se preocupa com seus filhos, e quer sempre o bem e o melhor, Maria, Senhora do Silêncio, é aquela que nos ensina que, embora tudo isso, é necessário silenciar também o nosso coração para, nele, guardar tudo aquilo que realmente dará um feliz sentido em nossas vidas e, nos aproximará de Deus, assim como ela mesmo experimentou e, nos relatam os evangelhos (cf. Lc 2, 19). Se o jejum, portanto, é para nos lembrar que os verdadeiros valores não podem ser limitados àquilo que é transitório, atualmente, o melhor modo de se exercitá-lo é jejuando de tudo aquilo que nos mergulha nesse barulho ensurdecedor que nos engana e nos afasta de Deus. Um primeiro passo é romper com o medo de se mergulhar no silêncio.

O silêncio vivido leva-nos a contemplar a nós mesmos. Sabemos disso pois, através do silêncio, nos deparamos com nossa realidade existencial, ontológica, por isso preferimos os barulhos com suas as máscaras, que usamos para falsear a realidade, afim de não a assumi-la com ousadia e destemor. Vejamos o exemplo de Maria, em sua postura silenciosa em assumir ser Mãe de Deus. Tendo consciência de quem realmente é, aceita a vontade de Deus em sua vida e gera Jesus para dá-Lo a nós.

Ela nos encoraja nesse período quaresmal a mergulhar nesse silêncio, que é para nós oportunidade de combater aquilo que é mal, onde  enfrentaremos a nós, para procurarmos ser digna morada onde possa habitar o Senhor. Lembremo-nos que, quanto mais estivermos moldados em Maria, mais agradáveis a Deus seremos pois Ele enamorou-Se de sua beleza e a revestiu com sua graça. Essa beleza é a beleza de sua humildade, de seu silêncio que dura para sempre.

É no silêncio que Deus se revela! É aquele silêncio que contém uma brisa suave (cf. 1 Rs 19, 12) e não nos terremotos de nossas relações conturbadas e confusas. É o silêncio de um “sim” generoso de Maria e, não no barulho onde tudo é tratado como descartável e líquido. O silêncio é aquele que traz uma presença constante, que permanece, como aquele “sim” silencioso e discreto que se ampliou numa íntima comunhão com o Filho que ela trazia no ventre e que, após vivida foi alteada até sua Assunção. Isso, como certeza para todos de que a comunhão que nos vem pelo silêncio será definitiva, na qual Ele será tudo em todos (cf. 1 Cor 15, 28), assim como fez em Maria.

O encontro que nos modela para Jesus

O encontro com Maria é um encontro que nos prepara para sermos agradáveis a Deus! Vejamos o que aconteceu em Fátima onde um encontro mudou a vida de Santa Jacinta Marto e de São Francisco Marto. Tal encontro não se deu para os tornarem privilegiados pela sua experiência, mas  para que através de Maria, eles se reconhecessem e buscassem o Senhor. Ela não deixou simplesmente algumas mensagens, mas os levou a fazer experiência com Deus. A primeira experiência eles mesmo explicitaram como uma luz silenciosa que os penetrou. Eles sentiram Deus dentro de si, sentiram-se mergulhados em Deus através do silêncio e da luz. Foram essas experiências que modificaram suas vidas e os levaram à honra dos altares.

Vejamos Francisco que, conforme mesmo narra Lúcia em seus escritos, era um menino que gostava de tocar o seu pífaro, cantar, se entretinha muito com as suas músicas e cantos, ou mesmo, com os jogos. Francisco fora visto como traquina, pregando peças nos seus irmãos ou provocando discussões entre eles². Mas também, segundo conta Lúcia, o mesmo se amuava frente ao que o contradizia³. Jacinta seguia do mesmo modo, adorava uma dança, adornos, além do que, por muitas vezes se mostrou possessiva, presa às coisas que tinha, sem contar que, com sua mudança de humor, diante de alguma contrariedade, como Francisco, também se amuava.

Eles nos mostram que todos nós somos chamados a essa mudança, a essa Passagem de situações de morte para a vida! É a Páscoa que nos espera! Páscoa em cuja direção caminhamos, seja a vivida nesse período do ano litúrgico ou a definitiva no fim de nossas vidas. Todos nós somos chamados às mudanças como eles que, procurando sempre o silêncio, partiram para um resultado visível de modo que não só permaneciam na paz que vinha da experiência silenciosa de Deus, como eram capazes de a transmitir aos outros. Francisco por exemplo, começou a preferir o silêncio na companhia de Jesus de modo que se escondia para rezar e silenciar-se. Jacinta, arrependeu-se de muitas coisas quando pode silenciar-se e reconhecer que a maior graça é a eternidade. O santo e verdadeiro silêncio, portanto, nos santifica.

Abraçar o Jejum dos “ruídos”

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Por fim, compreendemos que, o nosso mundo está muito barulhento, somos sensatos em reconhecer isso, mas é preciso reconhecer também que temos uma boa Mãe, Maria, que tem nos indicado o melhor caminho a seguir. Ela que é a Senhora do Silêncio faz ressoar pelo mundo somente o Verbo, Palavra Encarnada e nos ensina a abraçar o Jejum dos “ruídos” a fim de também nós ressoarmos pelo mundo a Palavra! Com Maria, saiamos da confusão, das tristezas, das decepções, das frustrações para reconhecermo-nos a nós, e reconhecer também nosso papel nessa belíssima relação de amor que Deus quer ter conosco e que ela nos indica o caminho. Isso para nós é possível, basta abrirmos o coração, afastarmos o medo e abraçar aquele silêncio que nos mostrará quem somos e, o quanto somos queridos e amados por esse mesmo Deus. A partir de então, dificilmente sairemos de sua divinal presença, antes nos apeteceremos a nela estar, como assim o fizeram São Francisco e Santa Jacinta. Que a Virgem Maria, Senhora do Silêncio, do mesmo modo como ensinou o melhor caminho para os Pastorinhos, nos ajude a trilhar esse caminho na paz, do bem, do silêncio.

Silas Oliveira
Associado da Academia Marial

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1 SCIADINI, Patrício. O Jejum: o que é, como se faz. 7 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2007.
2 LOUVENCOURT, Jean François de. A arte de se maravilhar com Francisco e Jacinta de Fátima. Prior Velho: Paulinas, 2016.
3 IRMÃ LÚCIA. O Segredo de Fátima. 11 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2002.





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