Por Cleiton Robsonn Em Palavra do Associado Atualizada em 12 AGO 2019 - 11H00

A Virgem Maria e a ordem franciscana, até São Maximiliano Maria Kolbe

Introdução

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“Levar a Imaculada às almas para santificá-las”.  (S. Maximiliano Kolbe)

À luz do Espírito Santo, Francisco de Assis concebeu a “Ordo Minorum”, sob a proteção de Nossa Senhora, sendo o ponto de partida a encarnação do Verbo. Foi ela quem o orientou rumo ao seu Divino Esposo, o qual fez com que Maria fosse o coroamento de toda a criação, a criatura mais perfeita, Santa e Imaculada em sua concepção.

Inspirado por Deus, por meio da Virgem Maria, Maximiliano Kolbe, cheio de “ousadias”, arriscou uma nova forma de levar o Cristo a todo o mundo. Essa nova forma foi a propagação, por todos os meios lícitos, do grande amor à Imaculada Conceição da Beatíssima Virgem.

Maria é vivenciada como a “Mãe de toda bondade” e, por isso, Francisco escolhe a Porciúncula como centro e cabeça da sua Ordem.

O presente ensaio tem a intenção de especular acerca dessa tão grande e nobre contestação de alguns dos grandes mestres franciscanos e desse santo do nosso tempo, visando a uma maior especulação desse dogma, desde São Francisco até São Maximiliano e, oxalá, uma incitação a essa devoção, que outrora tantos outros já o fizeram.

 Leia também: Maria Santíssima na piedade de São Francisco

I – A piedade Mariana de São Francisco de Assis

Para melhor adequarmos alguns pontos acerca de uma Mariologia Franciscana, cabe-nos ir até o ideal mariano do nosso Seráfico Pai fundador, São Francisco de Assis e, também, à sua experiência espiritual que, por fim, constituiu fonte de inspiração para os demais frades, que o seguiram nesse processo todo especial à Santa Mãe de Deus.

Como santo e grande fundador de uma família religiosa, como autor de muitos escritos religiosos e criador de uma autêntica doutrina espiritual, São Francisco não podia deixar de falar ou expressar seus sentimentos e devoção a Maria, Mãe de Jesus. Sabemos que São Francisco a admirava e, nas mãos dela, depositava toda a sua fundação. Entretanto, não é fácil descrever uma mariologia de São Francisco, diante de sua grande piedade; não é fácil dizer, em poucas palavras, como se exprime, principalmente, o carisma do Seráfico Pai ou quais são os elementos constitutivos de sua devoção mariana.

Sabemos que, basicamente, São Francisco revelou sua devoção, especialmente, a Cristo. Ele, como revelação do amor de Deus, que saindo totalmente de sua glória, se fez humilde e pobre, na sua abertura ao homem e ao mesmo tempo, como caminho e vida.

O mistério de Cristo é visto pelo santo na sua raiz, que é o seio do Pai, do qual o Filho eternamente emerge, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro”² e, na sua missão no mundo, por meio da Encarnação, a qual realiza, de modo perfeito, o retorno da criação ao Pai pelo sacrifício que culmina na glória da Ressurreição. É aí que o amor especial de São Francisco leva para Maria a figura de pobre, humilde, menor e Mãe do crucificado.

Em sua época altamente cristocêntrica, Francisco de Assis, sem conhecimento teológico algum, conseguiu, da sua maneira, dar um vigor maior à vida do Cristo resumida nos três baluartes cruciais do seu processo de conversão: num primeiro momento, por meio da Eucaristia, quando começaram a surgir as suas primeiras inquietações durante a missa, por ocasião da festa de São Matias. Ele é levado (por força do Espírito Santo) a entrar em igrejas abandonadas e, numa delas - Santa Maria dos Anjos - contemplou o Cristo Crucificado (segundo momento), mas glorioso e, mais tarde, o Cristo do presépio (terceiro momento), isto é, da meditação da natureza divina, aos poucos, Francisco chegou à natureza humana do Cristo. A partir daí, começou a entender que esta humanidade de Deus manifesta-se nos mais necessitados – os pobres e os leprosos – e então partiu para servi-los como que ao próprio Deus.

Neste íntimo relacionamento com a Trindade, Francisco não se esqueceu da Beatíssima Virgem. Não é à toa que tinha uma especial predileção por aquela capelinha que é padroada pela Senhora dos Anjos. Ali queria ficar e até pediu mais tarde que, se algum dia, algum frade fosse expulso dela pela porta, que voltasse e entrasse pela janela, mas que não a abandonasse. “Tendo ele se fixado nesse local por causa do seu respeito pelos anjos e de seu amor à Mãe de Cristo; sempre o amou acima de qualquer outro no mundo, pois foi aí que ele principiou, humildemente, progrediu na virtude e atingiu a culminância da felicidade. Foi esse lugar que ele confiou aos irmãos, ao morrer, como particularmente caro à Santíssima Virgem”.³

A ardente devoção de Francisco de Assis à Virgem Maria é bem descrita por São Boaventura quando narra: 

“Francisco permaneceu ainda algum tempo na igreja da Virgem Mãe de Deus, suplicando-lhe em instantes e contínuas preces, que se tornasse sua advogada. E pelos méritos da Mãe de Misericórdia e junto daquela que concebera o Verbo cheia de graça e de verdade, ela também concebeu e deu à luz o Espírito de verdade evangélica”.

Aqui, São Boaventura põe em destaque alguns dos títulos da Virgem Maria, que, como bom filho de Francisco de Assis, herda a relação de Maria com a Trindade salvífica, e em particular com o Espírito Santo: decorre daí que Francisco se concentra, sobretudo, na missão de Maria, como serviço da redenção e glorificação da Trindade.

Deste zelo de Francisco para com as igrejas e a sua profunda veneração a Nossa Senhora, é que nesta narração, Boaventura enfatiza “na igreja da Virgem Mãe de Deus”, “sua advogada”, “Mãe de Misericórdia”, “aquela que concebera o Verbo....


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É devido à Encarnação de Jesus Cristo que Maria tem um lugar especial na espiritualidade de São Francisco.


É perceptível que, desde o início da Ordem Franciscana, a Virgem Maria já estava exercendo um papel todo peculiar de cooperação, que deve ser fortemente acentuado, ainda mais no que tange o plano divino da Salvação, pois ela é colocada neste plano.

Segundo Boaventura, conforme o que foi estabelecido por Deus: a Encarnação; pois: “... se tirar do mundo a Mãe de Deus, por consequência terá tirado o Verbo encarnado”.

Em decorrência, ele desejava tratar com um amor mais reconhecido aquela Mãe, que não somente tinha trazido o Filho de Deus na nossa condição humana, mas o tinha feito nosso irmão. A Encarnação se realizou por meio de uma mulher santíssima, Maria, que em virtude de sua Maternidade, tem uma relação singular com o Filho de Deus. Mãe e Filho são inseparáveis. Contemplando o mistério da Encarnação, São Francisco não apenas era transportado por um amor inefável pelo Filho de Deus que se fez nosso irmão, mas também transportado por um amor indizível a Maria.

A maternidade divina é o ponto fundamental do pensamento mariano de São Francisco. Ele amou e venerou a Virgem antes de tudo e sobretudo, porque nos deu Jesus, o Filho de Deus. Ele viu, na dignidade de Mãe de Deus, o coração do mistério de Maria, o fundamental e o central da sua grandeza.

Para Francisco, falar de Maria era exprimir a realidade da história da salvação, no sentido do que Deus realizou nela, em sua história concreta, colocando em evidência a própria realidade que Deus concretiza em toda a humanidade. Para ele, ser Mãe de Deus é a sua grande função, dentro do plano de salvação.⁶

A ⁶ era, como já ficou dito, concorde com a sua época, essencialmente cristocêntrica. Daí a intuição mística implícita em relação à Imaculada Conceição de Maria no pensamento de São Francisco. Daí que, ele não venerou Maria em si mesma, mas somente em relação a Jesus Cristo, seu Filho.

O santo de Deus era levado a louvar e a “magnificar” as grandezas de Maria, tendo assim como testemunhas as duas belíssimas orações:

Saudação à Mãe de Deus

“Salve, ó Senhora santa, Rainha santíssima,
Mãe de Deus, ó Maria, que sois Virgem feita igreja,
eleita pelo santíssimo Pai celestial,
que vos consagrou por seu Santíssimo e dileto Filho
e o Espírito Santo Paráclito!
Em vós residiu e reside
toda a plenitude da graça e todo o bem!
Salve, ó palácio do Senhor!
Salve, ó tabernáculo do Senhor!
Salve, ó morada do Senhor!
Salve, ó manto do Senhor!
Salve, ó serva do Senhor!
Salve, ó Mãe do Senhor,
e salve vós todas, ó santas virtudes derramadas,
pela graça e iluminação do Espírito Santo,
nos corações dos fiéis,
transformando-os de infiéis em (servos) fiéis de Deus!”

Santa Virgem Maria
(antífona do ofício da paixão)

“Santa Virgem Maria,
não há mulher nascida no mundo semelhante a vós,
filha e serva do altíssimo Rei e Pai celestial,
Mãe de nosso santíssimo Senhor Jesus Cristo,
esposa do Espírito Santo:
rogai por nós com São Miguel Arcanjo
e todas as virtudes do céu e todos os santos
junto a vosso santíssimo e dileto Filho,
Nosso Senhor e Mestre”.


1 Cleiton Robsonn - Professor de Filosofia, pela Universidade Católica de Brasília (UCB). Bacharelando em Teologia, pelo Instituto São Boaventura, de Brasília, afiliado à Pontifícia Faculdade Seraphicum, de Roma. Dirige o site Reflexões Franciscanas e colabora com artigos para revistas católicas eletrônicas em sites e blogs no Brasil, como o Salvem a Liturgia!, o Projeções de Fé e a Revista Vila Nova. É membro da Academia Marial de Aparecida, Consagrado na Milícia da Imaculada e Cavaleiro da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém.
2 Cf. Símbolo Niceno-Constantinopolitano.
3 Idem, Legenda Maior 2,8.
4 SÃO BOAVENTURA, Legenda Maior 3,1.
5 Idem, Natividad de la B. Virgen Maria. Discurso 2, BAC, Madri, 1963, p. 741.
6 Dicionário Franciscano, POMPEI, Alfonso, verbete: Maria, Nossa Senhora, Mãe, Imaculada, p. 413.


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Maria Santíssima na piedade de São Francisco

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