Por Maria Suzana F. A. Macedo Em Palavra do Associado Atualizada em 03 OUT 2017 - 08H19

AUTO DA COMPADECIDA: aspectos mariológicos na obra de Ariano Suassuna

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 Maria Suzana F. A. Macedo*

 Introdução

Muitas vezes não nos damos conta da presença efetiva da religião, principalmente da religiosidade popular presente na literatura, seja ela brasileira ou não.

Há, em muitos autores um ensinamento enriquecedor sobre a maneira como uma pessoa, revestida do personagem, evoca sua fé e invoca seus santos e protetores. Particularmente, na obra de Ariano Suassuna, Auto da Compadecida, podemos sentir a proximidade do fiel com Jesus, Maria e os Santos. Simplicidade da fé nesta relação que não diminui a profundidade do respeito pelo sagrado.

Com este pensamento, tentaremos buscar elementos mariológicos no Auto da Compadecida que nos possibilitam uma análise sobre a mediação de Maria e a intercessão por ela realizada em prol dos seus filhos e filhas espirituais.

Maria: Intercessora e Medianeira

Segundo García Paredes, na obra Mariologia: síntese bíblica, histórica e sistemática, a doutrina tradicional a respeito da mediação de Maria poderia ser resumida em três itens. O primeiro assinala que Maria, por sua estreita ligação com Jesus Cristo, Mediador por excelência entre Deus e os homens, é “mediadora por analogia”. Segundo, a missão de Maria é a de pedir a Deus graças “temporais e eternas” para distribuí-las aos homens. Há divergências entre os mariólogos se Maria exerce alguma influência moral sobre Deus ou se trata de uma influência físico-instrumental, visto que Deus se serve de Maria. Neste segundo aspecto o autor aponta que a graça seria entendida como algo desconectado do Espírito e carente também da referência cristológica.[1] O terceiro ponto refere-se à coincidência da mediação universal de Maria com sua maternidade espiritual: atua na obtenção das graças e, como corredentora, “atua na aplicação dessas graças a cada um dos homens”.[2]

Apenas nestas poucas linhas já podemos perceber que a temática da intercessão/mediação de Maria é ampla e devemos estar atentos para a utilização teológica correta dessas expressões, como indica García Paredes. Para tanto, é necessário que compreendamos o termo “mediação”. Esta pode ter vários aspectos. Dentre eles está o religioso. Esta mediação está em “unir o que está separado” – Deus e o homem. Em “tornar acessível o inacessível” e “elevar o homem” até o transcendente.[3]

Jesus Cristo é o único mediador entre Deus e o ser humano. Ele, sendo Deus, representa o Pai diante do homem e, sendo homem, representa o “ser do homem que Deus deseja” diante do Pai. Ou seja, aquilo que o ser humano deveria ser. Esta mediação é exercida na “biunidade do Filho e do Espírito”, assinala Paredes. [4]

Como sacramento visível do Único Mediador, Jesus Cristo, temos a Igreja. Na Igreja a ação mediadora do Espírito se faz continuamente presente em nosso meio. Assim, os fiéis têm “acesso ao Pai, por Cristo, num só Espírito” (LG 4). García Paredes assinala que, “o Espírito não enfraquece a mediação de Cristo, mas a leva à plenitude”.[5] Poderíamos, então, nos perguntar qual a relação entre Maria e a Igreja? A Teologia nos diz que Maria também é membro da Igreja, mas um membro que está acima do corpo místico, justamente por ser a Mãe. A sua mediação universal é a “de um membro dentre os membros”.[6] Ela é o “tipo” da Igreja (LG 62). Essa “tipologia”, no entanto, não é algo passivo, mas dinâmico. Maria nos dá o exemplo do engajamento em favor do outro, ou seja, quer realizar na vida da Igreja aquilo que Jesus Cristo já realizara em sua própria vida ao colaborar maternalmente na caminhada de seu Filho até as últimas consequências. O Catecismo da Igreja Católica (CIC) em seu n. 970 afirma que “a função maternal de Maria para com os homens, de modo algum ofusca ou diminui a mediação única de Cristo, mas antes manifesta a sua eficácia”.

A Compadecida

Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré!

O próprio nome com que o autor denomina Maria, a Compadecida, já nos fala a respeito de sua Mariologia. A centralidade parece estar na solicitude de Maria de Nazaré em interceder por seus filhos e filhas junto a Jesus. É a Advogada que permanece ao lado de todo necessitado. É a Mulher do Magnificat que fala da misericórdia de Deus que se estende por todas as gerações. É a Mulher da compaixão.

A compaixão, segundo a teóloga Maria Clara Bingemer, é sofrer com, padecer solidariamente e em comunhão. Tem a ver com justiça e restaurar dignidades atingidas e cruelmente vulneradas. Compaixão é o sentimento que caracteriza o ser humano diante de seus irmãos em humanidade que se encontram desumanizados pela pobreza, a violência e a opressão. É o que move o coração dos justos diante da iniquidade e do sofrimento do outro. É o que enche de desejo de comungar com a dor do outro e fazê-la sua.[7]

No início do julgamento no céu, diante de Jesus (Manuel) e do “Encourado”, João apela para o que ele diz ser um “trunfo maior do que qualquer santo”, “a mãe da justiça”, “a misericórdia”, e a chama dizendo: “Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré! [...]” e com profunda certeza, João Grilo diz a todos: “Maria vai nos defender”. Esta certeza deveria estar no mais íntimo de todos nós, cristãos, pois, a Mãe de Jesus é a nossa Mãe. Para o personagem João Grilo, Maria se faz mais próxima de nós, Ela é gente como nós, enquanto a distância entre nós e o Senhor Jesus é maior, afirma o personagem.

Ariano Suassuna, em um trecho assinala o motivo pelo qual Nossa Senhora se compadece da realidade de seus filhos. Diz a Compadecida: “[...] é preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. [...] Quase tudo o que eles faziam era por medo. Eu conheço isso, porque convivi com homens: começam com medo, coitados, e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer. É medo”. Em mais um trecho onde a mulher do padeiro diz que a Compadecida não conhecia os problemas pelos quais passava, Nossa Senhora responde: “Eu entendo tudo isso mais do que você pensa. Sei o que as mulheres passam no mundo, se bem que não tenha do que me queixar, porque meu marido era o que se pode chamar um santo”.

A Compadecida pede junto ao Filho por “esses pobres que não têm ninguém por eles”. Intercedendo por João Grilo a Jesus, a Compadecida afirma: “João foi um pobre como nós, meu filho. Teve de suportar as maiores dificuldades, numa terra seca e pobre como a nossa. Não o condene, deixe João ir para o purgatório”. Mais adiante ela pede ao Filho: “Dê-lhe então outra oportunidade”. Assim, a vocação materna de Maria, estendida a todos os homens e mulheres nos leva a crer que ela cuidará com zelo de todos os seus filhos e filhas que necessitam do cuidado maternal.

O autor nos mostra, através dos personagens, que Maria Santíssima está acima de todos os anjos e santos, ocupando, assim, um lugar especial junto ao Filho. Ao final de seu julgamento, João Grilo se despede: “Com Deus e com Nossa Senhora, que foi quem me valeu. Até à vista, grande Advogada”.

 

Considerações Finais

 

Maria, que aos pés do Crucificado, recebe d’Ele nova missão – assumir a maternidade de todos os homens e mulheres de todos os tempos – torna-se “mãe do corpo místico nascido da cruz”

Maria, que aos pés do Crucificado, recebe d’Ele nova missão – assumir a maternidade de todos os homens e mulheres de todos os tempos – torna-se “mãe do corpo místico nascido da cruz”.[8] O dominicano E. Schillebeeckx assinala que, participando da “atividade redentora de Cristo” e assunta ao céu, Maria participa “do poder de Jesus como Senhor” e, pela ressurreição de seu Filho, a maternidade de Maria para com todos nós se atualiza. Portanto, assim como tivera participação, na terra, na redenção, a “intercessão celestial” de Maria não se faz menor.[9] O teólogo dominicano afirma que:

Chamar Maria de Medianeira de todas as graças, dispenseira da graça e onipotência suplicante, nada mais significa do que reconhecer nela a mãe glorificada, elevada com poder, da redenção trazida unicamente por Cristo. Significa uma mãe que, pelo amor maternal, se identificou totalmente com os atos redentores do filho, nosso Salvador.[10]

Ao lermos o Evangelho narrado por São João, sobre as bodas de Caná (Jo 2, 1-11), podemos perceber o quão atenta está a Mãe de Jesus sobre as necessidades de seus filhos e filhas. A sua tarefa, nos diz Paredes, “consistiu em ser mediadora entre Jesus e os servidores”.[11] Estes representam todos os discípulos de Jesus. Todos aqueles que desejam segui-lo e servi-lo: “Fazei o que Ele [Jesus] vos disser”, diz Mãe Maria de Nazaré a todos os homens e mulheres de todos os tempos.

A relação de Maria com o Espírito e com Jesus, desde a Anunciação até Pentecostes (cf. LG 62), “foi e continua tão intensa, que nela tudo é evocação do Espírito e de Jesus. [...] Maria é servidora da mediação do Espírito, porque onde ela for evocada, onde estiver presente, ela será diafania do Espírito”.[12]

 

Maria Suzana F. A. Macedo

Doutoranda em Ciência da Religião na Universidade Federal de Juiz de Fora, MG (UFJF). Bolsista da CAPES e membro discente dos Projetos de Pesquisa “Estudos de Mística Cristã e Islâmica”; “Buscadores do Diálogo”, coordenados pelo professor Dr. Faustino Teixeira. Mestre e Especialista em Ciência da Religião pela mesma Universidade. Graduada em Teologia pelo Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis, RJ (ITF). Associada na Academia Marial de Aparecida.

[1] GARCÍA PAREDES, José Cristo Rey. Mariologia: síntese bíblica, histórica e sistemática, p.384. São Paulo: Ave-Maria, 2011.

[2] Ibid., p.367.

[3] Ibid., p.369.

[4] Ibid., p.370-371.

[5] GARCÍA PAREDES, José Cristo Rey. Mariologia: síntese bíblica, histórica e sistemática, p. 374.

[6] SCHILLEBEECKX, Edward. Maria, Mãe da Redenção, p. 67. Petrópolis: Vozes, 1968.

[7] BINGEMER, Maria Clara. Repensando a compaixão. Disponível em: < https://www.teologiahoy.com/pt-br/repensando-a-compaixao-2/>. Acesso em: 18/jan/2016.

[8] SCHILLEBEECKX, Edward. Maria, Mãe da Redenção, p. 64.

[9] Ibid., p. 65.

[10] Ibid., p. 82.

[11] GARCÍA PAREDES, José Cristo Rey. Mariologia: síntese bíblica, histórica e sistemática, p.143.

[12] Ibid., p.384.

 

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