Quem chega a um santuário costuma encontrar portas abertas, celebrações, momentos de oração e espaços preparados para acolher os peregrinos. Por trás dessa estrutura, porém, existe um trabalho que envolve planejamento, acolhida, evangelização e administração.
Uma das figuras responsáveis por essa missão é o reitor.
O Código de Direito Canônico define o santuário como uma igreja ou outro lugar sagrado ao qual os fiéis acorrem em peregrinação por um motivo especial de piedade, com a aprovação da autoridade eclesiástica. Os estatutos de cada santuário devem determinar, entre outros aspectos, sua finalidade e a autoridade do reitor.
Também cabe aos santuários oferecer aos fiéis os meios de salvação por meio do anúncio da Palavra de Deus, da celebração da Eucaristia e da Penitência e do cultivo das formas aprovadas de piedade popular.
Na prática, isso significa que o trabalho de quem está à frente de um santuário vai muito além da organização das celebrações.
O A12 entrevistou os participantes do Encontro Nacional de Reitores, que foi realizado em Aparecida (SP) em agosto, sobre o dia a dia de um santuário, seu trabalho vocacional e missionário, além do trabalho enquanto administradores.
Na missa de encerramento do evento, Pe. Eduardo Catalfo, C.Ss.R., reitor do Santuário Nacional de Aparecida, explicou o sentido de trabalhar em um santuário.
“Todos nós trabalhamos em santuários e todos nós sabemos que, no Brasil e no mundo, a vocação do santuário é despertar a fé, promover esperança e anunciar o Evangelho, especialmente aos mais pobres. A pregação explícita da palavra de Deus, a promoção da cidadania por meio de inúmeras obras de educação e de assistência social, as expressões de fé e de piedade popular, o trabalho pastoral de equipe e, finalmente, a vivência sacramental formam o conjunto do projeto evangelizador do Santuário Nacional.”
“As pessoas sempre vão ao santuário e veem lá tudo lindo. Nossa, que lindo, pedacinho do céu, maravilhoso, mas por trás tem alguém pensando, trabalhando, programando, para que cheguem lá e tenham essa acolhida”, relata a Irmã Márcia Silva, responsável e coordenadora da pastoral do Santuário de Schoenstatt, em Atibaia (SP).
Entre as principais tarefas está a preparação da experiência do peregrino. Irmã Márcia explica que seu trabalho envolve pensar a espiritualidade do santuário, a acolhida e as peregrinações. Também há a preocupação com a programação de orações, terços, missas e adoração.
“O peregrino chega ao santuário com aquele desejo de ter um encontro com a mãe, de ter um encontro com Deus. E, a partir desse encontro, a gente proporciona e oferece também toda a programação de oração”, afirma.
No caso do Santuário de Schoenstatt, a espiritualidade mariana faz parte desse caminho. “Eles vão pela mãe e a mãe leva ao filho”, resume.
O trabalho pastoral também exige atenção ao espaço físico. A responsável pela pastoral do santuário do interior de São Paulo cita a logística, a estrutura e as melhorias necessárias para que o local favoreça a experiência religiosa.
Para a religiosa, existe uma preocupação em unir aquilo que o peregrino percebe ao chegar com o sentido espiritual que busca viver.
“Essa experiência do natural e o sobrenatural, para que a pessoa possa fazer essa experiência do sagrado, a experiência do divino”, explica.
No Santuário Eucarístico Mariano, em Londrina (PR), a rotina da diretora, Irmã Mariza Rosseto, começa com uma ação simples: abrir as portas.
“Eu inicio abrindo as portas do Santuário. Eu tenho uma alegria toda manhã de acolher as pessoas antes da celebração eucarística, anotar as intenções”, conta.
Ao longo do dia, o trabalho continua com o atendimento aos peregrinos. O santuário recebe pessoas que procuram a oração, a Adoração Eucarística e o silêncio. Algumas desejam partilhar suas dificuldades e pedir orações.
“Estou sempre disponível para acolher”, afirma a religiosa.
A religiosa considera que a diferença entre o título de diretora e o de reitor não altera, necessariamente, a essência da missão exercida no local. A função também é compartilhada com outros membros da comunidade e com voluntários. Enquanto a vice-diretora acompanha mais de perto a comunicação e outras atividades, Irmã Mariza se dedica, entre outras tarefas, à liturgia e ao acompanhamento dos leitores e comentaristas.
“Você só é responsável por aquela instituição e você tem que fazer o melhor possível para que aquilo possa crescer, possa ser agradável para todos e ter espaço de espiritualidade, de silêncio e de acolhida de todas as pessoas”, diz.
Para Frei Gabriel Dellandrea, OFM, a missão do reitor pode ser compreendida a partir de sua relação com a vida pastoral e evangelizadora do santuário.
Ele também exerce a função de guardião dentro da espiritualidade franciscana. Segundo o religioso, as duas responsabilidades possuem características diferentes.
“O guardião é o animador da vida da fraternidade e exerce um papel mais interno de animação da vida da fraternidade. Já o reitor, ele exerce um papel de animação pastoral, evangelizadora, da vida externa do santuário, da atuação do santuário em si”, afirma.
Frei Gabriel destaca, porém, que essa distinção não significa que uma missão seja evangelizadora e a outra não.
“Para São Francisco, todo frei é um evangelizador, seja ele falando às multidões, seja ele cuidando de um frei enfermo em casa. Isso também é evangelização”, afirma.
A missão dos reitores encontra respaldo no Direito Canônico. O Código de Direito Canônico determina que os estatutos dos santuários estabeleçam sua finalidade, a autoridade do reitor e as questões relacionadas à propriedade e à administração dos bens. A legislação também estabelece que os santuários ofereçam aos fiéis, de forma abundante, os meios de salvação.
Outro documento importante é o Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia. O texto apresenta os santuários como lugares de peregrinação, oração, conversão e evangelização.
O Diretório destaca a responsabilidade dos reitores para que os peregrinos possam retornar para casa fortalecidos espiritualmente e edificados pelas celebrações que vivenciaram. Também recomenda atenção à celebração do sacramento da Penitência, à Liturgia das Horas, às bênçãos e à programação oferecida aos peregrinos.
O Código de Direito Canônico também prevê, para os reitores de igrejas, o cuidado com a dignidade das celebrações, a observância das normas litúrgicas, a administração dos bens e a conservação dos edifícios e objetos sagrados.
Assim, a função reúne diferentes aspectos: espiritual, pastoral, administrativa e humana.
Para o Pe. Helton Luiz Wachholz de Souza, reitor do Santuário Nossa Senhora de Fátima, da Arquidiocese de Manaus (AM), compreender a missão começa pela própria experiência de peregrinação.
Com seis anos de sacerdócio, ele participou do encontro pela primeira vez com outros responsáveis por santuários e refletiu sobre o sentido de seu serviço.
“Antes de eu chegar aqui e ser reitor, eu preciso ser primeiro um peregrino. Porque eu só preciso entender o meu povo se eu me tornar um peregrino”, afirma.
A experiência, segundo o sacerdote, ajuda o reitor a compreender melhor aqueles que chegam ao santuário em busca de acolhida, oração ou consolo.
“Um santuário só se torna grandioso se é baseado em um serviço, se é baseado em um amor e, principalmente, na missão de Deus”, diz.
Entre a organização de uma celebração, o cuidado com a estrutura, a administração e a escuta de quem chega, o trabalho do reitor está ligado a uma mesma finalidade.
Segundo o Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia, o santuário deve ser um lugar capaz de acolher quem chega de diferentes realidades e ajudá-lo a retornar fortalecido espiritualmente.
É nesse ponto que a missão do reitor ganha um sentido que ultrapassa a administração: garantir que a estrutura e a ação pastoral estejam a serviço da experiência de fé do peregrino.
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