Espiritualidade

A religiosidade que contradiz a fé

Em um país tão diverso como o Brasil, como ajustar a religiosidade e a religião? Entenda

Cankin Ma 2020 (arquivo pessoal)

Escrito por Cankin Ma Lam

22 NOV 2021 - 10H23 (Atualizada em 22 NOV 2021 - 11H18)

Peppermint Joe/ Shutterstock sexta-feira 13, azar, superstição (Peppermint Joe/ Shutterstock)

Vamos começar um pouco filosóficos, para dar direcionamento a esta reflexão. Aristóteles falava em vários tipos de causas. Aqui nos interessam os conceitos da causa material, eficiente e final. Em breve ficará mais claro o que cada uma significa (e o que têm a ver com nosso tema). Contemos agora uma historinha que introduzirá estes conceitos.

João e Maria, que estão no último ano do ensino médio, tinham um trabalho importante para entregar. Deram a mesma desculpa: "Meu cachorro comeu meu trabalho e não tive tempo de refazer". Eles não o disseram ao professor, mas nós sabemos que, sendo verdade que o cachorro fez isso (causa eficiente), na verdade João colocou um rascunho muito inicial do trabalho no prato de comida do cachorro dele, enquanto que Maria, que costuma fazer seus trabalhos na sala de jantar, deu mole e deixou todos os papéis sobre a mesa perto do lanche que estava comendo, perante o qual o cachorro não conseguiu distinguir um do outro e comeu tudo quanto encontrou. Neste caso a causa final é distinta, pois João queria arrumar uma desculpa clássica, enquanto que Maria realmente foi vítima de um infeliz acidente, digamos. A causa material foi o fato de que o trabalho de João e Maria foi comido por um cachorro.

Pois bem, para além de histórias sobre cachorros comendo lições de casa, tentei caricaturar aqui como a causa final, que para Aristóteles era a que mais definia a realidade descrita (pois é nessa direção que acontece), é muito importante para distinguir uma ação de outra. No caso, diríamos que em João temos algum grau de malandragem, enquanto que, em Maria, um pouco de descuido (e de azar).

No final da história, João e Maria ficam zerados na disciplina, mas lhes é oferecida a chance de fazer um trabalho adicional. João, que não pretendeu fazer o trabalho já desde o início, não aproveitou a segunda chance e reprovou. Enquanto que Maria, que levou mais cuidado em não fazer de seu trabalho uma possível comida do cachorro dela, aproveitou a segunda chance e redimiu sua situação.

Alex Zotov/ Shutterstock
Alex Zotov/ Shutterstock

Como ilumina nossa reflexão o aprofundamento nos tipos de causas?

Pois bem, algumas práticas, sejam religiosas ou culturais, podem materialmente ser distantes (e até contrárias) da fé no Filho de Deus que se encarnou para nos salvar. Se a causa final não estiver desviada da fé cristã, a pessoa, mediando uma explicação suficiente, tomará mais cuidado, como fez Maria na história.

Já se a causa final é um desvio da fé, a pessoa terá bastante clareza na sua opção de se distanciar da fé da Igreja. A causa eficiente também é importante, pois, como no cachorro da história, há elementos alheios a nós que nos influenciam, e é importante tomar cuidado para que estes não "comam nossa lição de casa".

Leia MaisUm católico pode praticar ioga e outras formas de terapias alternativas?Assim, a forma de enfrentar eventuais distorções na prática da nossa religiosidade é começar nos perguntando pela causa final: qual o motivo, o direcionamento, o sentido desta minha ação? Também pela causa material: é esta prática (causa material, o que meu ato expressa) coerente com a minha fé? E também a causa eficiente: quais as influências que me levam a assumir esta prática concreta?

Creio que, assim, ficará bem mais fácil.

Escrito por
Cankin Ma 2020 (arquivo pessoal)
Cankin Ma Lam

Nascido no Equador, filho de pai chinês é apóstolo de plena disponibilidade no Sodalício de Vida Cristã. Atualmente faz caminho ao sacerdócio e estuda teologia na Universidade Católica de Petrópolis.

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