História da Igreja

A celebração dos defuntos na Roma Antiga

Escrito por Pe. José Inácio Medeiros, C.Ss.R.

27 MAR 2026 - 09H23 (Atualizada em 27 MAR 2026 - 16H53)

STEFANO TAMMARO/ADOBE STOCK

Os rituais fúnebres e o culto aos mortos marcam a humanidade desde os seus primórdios. Cada povo, cada civilização, tinha o seu modo próprio de reverenciar os que faleceram, desde aqueles da nobreza, os que eram considerados heróis, como também as pessoas simples do povo. Esses rituais variavam de data e de intensidade de acordo com o povo ou civilização. Com o advento do cristianismo, embalado pela certeza da ressurreição, a maioria dos antigos rituais fúnebres foi substituída e a morte também ganhou um sentido cristão.

Hoje os cristãos reverenciam os seus mortos no dia 02 de novembro, pois antes da reforma litúrgica essa data vinha na sequência da Festa de Todos os Santos, que era celebrada no dia 01 e agora é celebrada no primeiro domingo do mês.

Muitas pessoas e comunidades ainda guardam o costume de recordar as almas dos falecidos em cada segunda-feira, considerada o dia dos finados. E fazem isso com orações e ritos litúrgicos especiais. A Igreja tem também o costume de marcar algumas datas especiais ligadas aos falecidos, como a celebração do 7º dia de seu falecimento, que sempre se reveste de uma maior emoção e de expressão de sentimentos.

A despedida

Para os antigos romanos, funerais eram eventos sociais repletos de significados e emoção. A partir do momento em que uma pessoa falecia, com maior ou menor solenidade, aconteciam vários rituais:

Conclamatio: Ao morrer, os familiares chamavam o falecido pelo nome e fechavam-lhe os olhos. Depois disso, o corpo já preparado era exposto para a visitação, em geral no átrio da casa.

Banquete fúnebre: Era o ponto alto da cerimônia, reunindo familiares e amigos em um momento de partilha e despedida. Esse modelo reflete o desejo universal de transformar a perda em união.

Velório e Procissão: O corpo ficava exposto no átrio da casa por vários dias. A procissão fúnebre chamada de “funus” inicialmente era um cortejo noturno, passando depois a ser feito durante o dia, com músicos e familiares usando togas pretas conhecidas como “toga pulla”. Dançarinos e oradores ajudavam a criar um espetáculo, que ainda hoje existe entre outros povos, celebrando a vida do falecido.

Sepultamento ou cremação: os cemitérios ficavam fora das muralhas da cidade. O ritual da cremação era bastante comum no tempo da República, mas o sepultamento tornou-se mais popular a partir do século II d.C. Pessoas das famílias da nobreza eram sepultadas em mausoléus construídos ao longo das estradas que saíam da cidade, atingindo as diversas regiões do império. Aos poucos, as catacumbas, cemitérios subterrâneos, se tornaram bastante comuns.

Obolo de Caronte: Uma moeda era colocada na boca do falecido para pagar ao barqueiro chamado Caronte que, segundo a mitologia, fazia a travessia do mundo dos vivos para o submundo dos mortos.

Depois das cerimônias ligadas ao sepultamento nos meses de fevereiro e maio, vinham as homenagens aos falecidos nos rituais conhecidos como parentalia, ferialia ou lemures.


NINIKA/ADOBE STOCK  NINIKA/ADOBE STOCK Mausoléu do Imperador Augusto

Festivais recordam os falecidos

Na Roma Antiga, havia a convicção de que os mortos, especialmente os antepassados, chamados de “Manes”, continuavam a influenciar os vivos, precisando ser honrados para que não se tornassem espíritos malignos chamados de “lemures ou larvae”.

Os falecidos eram celebrados, sobretudo, durante o mês de fevereiro, quando havia um período dedicado à sua memória. Normalmente, entre os dias 13 e 21, ocorria a chamada “Parentalia”. Durante nove dias, os romanos honravam seus ancestrais, indo aos cemitérios e visitando os túmulos para realizar rituais e levar oferendas.

No dia 21, último dia da Parentalia, se fazia uma comemoração pública mais formal, onde se ofereciam sacrifícios aos Manes. Os familiares e parentes traziam coroas de flores, grãos, sal, pão embebido em vinho e violetas para depositar nos túmulos.

Memória e recordação

Mais do que uma simples comemoração, o ritual de celebração dos falecidos representava um vínculo profundo existente entre os vivos e os mortos, um dever e ao mesmo tempo um direito garantido pelas leis sagradas.

Durante os dias da parentalia, os templos eram fechados, os fogos e lâmpadas dos altares eram apagados e os magistrados abandonavam seus distintivos como sinal de respeito e recordação. Isso trazia para todos um tempo de silêncio, reflexão e conexão com o passado.

MARINA DUBIN/ADOBE STOCK  MARINA DUBIN/ADOBE STOCK Cálice de vinho com alimentos tradicionais

Durante a parentalia, as famílias se reuniam nos túmulos de seus entes queridos para compartilhar comida, bebida, lembrar dos antepassados e dos momentos passados com eles. Flores, guirlandas de ramos e outros presentes eram levados e depositados nos túmulos para homenagear os falecidos, fazendo sua memória.

Os romanos também acreditavam que, com esses gestos de afeto e devoção, era possível manter vivo o vínculo com os falecidos, garantindo sua proteção e apoio para quem ainda vivia.

O nono dia da Parentalia, que em geral caía em 21 de fevereiro, era chamado de “ferialia” e representava o ápice desse período de comemoração, um momento de alegria e celebração, mas também de profunda emoção e nostalgia. Neste dia, rituais públicos e privados eram celebrados em homenagem aos falecidos.

As famílias se reuniam para banquetes e libações, durante os quais comidas e bebidas eram compartilhadas em memória dos ancestrais. Essa era uma oportunidade especial para recordar os momentos felizes passados com os entes queridos e celebrar seu legado.

A Parentalia é um exemplo de como os antigos romanos atribuíam importância ao culto dos mortos e à manutenção do vínculo com suas raízes. Mas havia ainda outras formas de comemoração.

A recordação dos falecidos acontecia também com a chamada “Lemuria”, que em geral acontecia entre os dias 09 e 13 de maio. Diferentemente da Parentalia, esta festa era feita para apaziguar ou afastar os “lemures”, que eram os espíritos inquietos ou malévolos. O “pater familias” realizava um ritual noturno, lançando favas pretas para trás das costas sem olhar, para que os espíritos as comessem e fossem embora, deixando em paz a sua família.

Os romanos acreditavam que, após rituais corretos, a alma se tornava um “Manes” ou divindade familiar. Eles não temiam a morte como um fim, mas sim a possibilidade de os mortos ficarem "insepultos" ou esquecidos, o que os tornaria perigosos. 

.: Leia mais sobre a Vida cotidiana na Roma Antiga: família, sociedade e costumes

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