Como já tivemos oportunidade de aqui explanar, os rituais fúnebres desempenhavam papel central na vida religiosa e social da Roma Antiga. Mesmo as famílias menos favorecidas socialmente realizavam rituais muito apropriados para reverenciar os seus mortos e manter ao mesmo tempo a sua memória.
Entre os elementos que compunham os ritos fúnebres destacava-se a presença das chamadas “praeficae”, que eram mulheres contratadas para lamentar e cantar em honra da pessoa falecida, passando para a história com o nome de carpideiras.
Representação de uma mulher chorando
Representantes de status social
As carpideiras faziam parte do cortejo fúnebre e sua presença era um indicador do status social e da riqueza da família do falecido, pois quanto maior a importância do morto e sua relevância na vida social, maior era o número de carpideiras contratadas.
Marcadas pelo profissionalismo, as carpideiras deviam chorar e mostrar sentimentos de tristeza, mesmo não possuindo parentesco real com o defunto. Suas funções incluíam soltar gritos, entoar cantos fúnebres e, às vezes, realizar atos dramáticos como descabelar-se, arranhar o rosto e rasgar vestes. Elas acompanhavam o corpo da casa até a necrópole, no local do sepultamento ou cremação.
A prática visava intensificar a manifestação pública de luto e, segundo crenças antigas, ajudar a guiar a alma do falecido na vida eterna.
Herança de outras culturas
A tradição das carpideiras existia há mais de 02 mil anos, sendo comum em várias civilizações antigas, continuando, de formas variadas, até períodos mais recentes, chegando em algumas regiões do Brasil e do restante da América Latina, trazidas pelos países colonizadores.
Em Roma a prática assumiu características próprias, refletindo a importância do espetáculo e da coletividade nos funerais. As carpideiras tinham a função de conduzir as lamentações públicas durante o cortejo fúnebre, entoando os chamados “neniae”, que eram cânticos de luto que mesclavam poesia, música e gestos corporais.
O grande poeta Horácio (65–8 a.C.), um dos maiores da cultura latina, se referiu de forma crítica aos exageros dessas mulheres, descrevendo-as como figuras que, em alguns casos, conferiam teatralidade excessiva às cerimônias (Horácio, Epístolas, II, 1, 189), mas tiravam a seriedade e a profundidade que o momento pedia.
Já o poeta e historiador Petrônio (séc I d.C.) em sua obra Satyricon, na qual satirizava os costumes, sobretudo, os mais bizarros da sociedade de seu tempo, também se refere ao papel das carpideiras, sugerindo que sua atuação, mais do que expressão genuína de dor, era frequentemente vista como um serviço contratado (Petrônio, Satyricon, 71).
Apesar da crítica literária, a presença das carpideiras era socialmente bem aceita, principalmente nos funerais das famílias aristocráticas, onde a exibição de luto era um marcador do status da família e sua prática integrava o caráter da religião romana, na qual o ritual muitas vezes tinha mais importância em si mesmo do que na interioridade da crença.
Com o avanço do cristianismo as práticas foram sendo progressivamente abandonadas ou modificadas por não se adequarem ao conceito cristão de morte e de esperança na ressurreição, entretanto persistiram em algumas culturas, sendo associadas a certos rituais da Semana Santa.
Retrato de um funeral na Roma Antiga
Elemento presente na religiosidade e piedade popular
Nas Sagradas Escrituras, tanto no Antigo como no Novo Testamento, são encontradas descrições sobre mulheres que eram contratadas para prestarem serviços em funerais. O próprio evangelho ressalta a figura de mulheres que “seguiam Jesus, batiam no peito e choravam”, não como pessoas contratadas para isso, mas como manifestação de pesar pela morte de seu mestre.
A prática veio com a colonização portuguesa e se tornou comum em algumas regiões como no Nordeste. Algumas tradições rurais mantinham formas de lamento coletivo, mas faltam registros confiáveis de carpideiras pagas de forma oficial.
No contexto das cerimônias da Semana Santa, especialmente em algumas tradições luso-brasileiras, elas desempenham um papel dramático de luto na encenação da morte de Jesus Cristo. Durante a Procissão do Enterro, por exemplo, realizada na Sexta-feira Santa, as carpideiras seguem o esquife de Jesus Cristo, entoando cantos lamuriosos e orações. Elas representam as mulheres de Jerusalém que choraram por Jesus.
Uma estátua abatida com as mãos na cabeça
Em cidades históricas de Minas Gerais como Ouro Preto e em diversos locais no Nordeste, elas participam da cerimônia do descendimento da cruz, intensificando a comoção das pessoas com sua atuação teatral de dor.
As carpideiras, na maioria das vezes vestidas de preto, entoam cânticos tradicionais de luto. No cerimonial do Santo Sepulcro em Sabará (MG), por exemplo, a abertura da cerimônia é marcada por cânticos de lamento dessas mulheres. Elas frequentemente interagem com a figura de Verônica, a mulher que, segundo a tradição, enxugou o rosto de Jesus, com as carpideiras respondendo em tons de choro e lamento à cantiga de Verônica.
Mais do que apenas chorar, as carpideiras no contexto religioso muitas vezes rezam e conduzem cantos, transformando o choro em um ato de piedade popular e de partilha da dor da Virgem Maria. Em algumas regiões de Portugal e em tradições luso-brasileiras, as carpideiras que seguiam as procissões eram também conhecidas pelo nome de "Beús", motivado pela forma como entoavam seus cânticos e expressavam a tristeza pelo choro “sentido”.
Originada de antigas civilizações do Egito e Oriente Médio, apesar das críticas de escritores antigos e de certa rejeição, a atuação das carpideiras refletia a dimensão pública e teatral da cultura romana, na qual a morte não era apenas um acontecimento íntimo, mas também um espetáculo social. Com as novas formas advindas da cultura portuguesa e, sobretudo, como parte das cerimônias da Semana Santa, ajudaram a criar todo um ritual que mesclam elementos da cultura com a religião, numa forma muito particular de religiosidade.
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