Por Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R Em História da Igreja Atualizada em 05 JUN 2020 - 09H45

Covid-19: Lição de sabedoria e o que precisamos aprender com a história

No último século, a humanidade foi atingida ao menos por três grandes epidemias. Houve a tristemente célebre Gripe Espanhola, de 1918 a 1919; no Brasil tivemos a epidemia de Meningite, que aconteceu entre 1971 e 1975, com sua fase mais aguda entre 1974 e 1975 e, por fim, a gripe de Hong-Kong, que entre 1968 e 1970 matou mais de 1 milhão de pessoas em todo o mundo.

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.:: As grandes epidemias da história

Mas a humanidade tem a memória curta! O Brasil, assim como outros países, deveria ter feito a lição de casa, a partir da leitura da forma como se desenvolveram as epidemias e pandemias em épocas anteriores e, sobretudo, das medidas que foram tomadas para erradica-las. Se tivessem feito isso, se tivessem aprendido com a história, as consequências funestas da pandemia do Covid-19 (coronavírus) estariam sendo bem menores.

Aqui no Brasil a Covid-19, pandemia do novo coronavírus, pode ter começado na classe alta, que trouxe o vírus de viagens realizadas na Europa. Com o passar dos dias, a doença se tornou muito mais presente entre os mais pobres, tanto em termos de óbitos quanto de infecções. Na capital paulista, os primeiros bairros a serem atingidos foram os bairros considerados de classe média alta, como a região dos Jardins. Depois, a pandemia acabou migrando para os bairros periféricos.

Na terrível Gripe Espanhola, os bairros mais atingidos foram a Penha, o Brás e o Tatuapé, justamente bairros onde se concentrava a classe operária de então.

Nesses bairros, a Igreja, tendo entre seus membros mais atuantes os Redentoristas da Penha, se desdobrou para prestar socorro espiritual e material às pessoas, especialmente pela ausência do Estado nessas regiões.

.:: Os Redentoristas de São Paulo e a Gripe Espanhola

A pandemia atinge a periferia

Após três meses de declarada atual pandemia na capital paulista, dos 20 distritos com maior número de vítimas, 15 deles estão localizados na periferia, e apenas 5 não estão nas bordas da cidade: Itaquera, Freguesia do Ó, Cidade Dutra, Pirituba e Cangaíba.

Os bairros periféricos são também os que menos aderiram ao distanciamento social e, por isso, a doença se mostra muito mais agressiva na periferia. Mas isto tem uma explicação.

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A periferia, ao longo de décadas, foi esquecida pelo poder público, e lá estão os problemas sociais mais agudos devido à infraestrutura precária ou inexistente. 
Por ter dificuldade maior no processo de isolamento social, essas regiões acabam sendo mais atingidas com a contaminação e óbitos.

.:: As epidemias nos tempos modernos

O distanciamento social é difícil de ser obtido nas áreas mais extremas, devido às condições de moradia, falta de amparo social e financeiro. Muitos moradores desses bairros estavam na economia informal, perderam agora sua renda e, de alguma maneira, precisam sair de casa para lutar pelo pão de cada dia.

Por outro lado, a condição das moradias também é muito propícia à contaminação. Geralmente são moradias subnormais, como os barracos das favelas, cortiços ou casas minúsculas, onde há maior aglomeração. Somado à falta de saneamento básico, nesses bairros os hospitais são pior equipados e tudo isso acaba impactando no resultado final, que é o agravamento da pandemia.

.:: A saúde pública no Brasil e o controle das epidemias

No Rio de Janeiro, por sua vez, as favelas estão tendo um número de vítimas fatais maior do que o total de 14 estados brasileiros, baseando-se na mesma motivação.

Em todos os estados, sobretudo nas regiões norte e nordeste, estes mesmos fatores citados contribuem para que a pandemia chegue ao pico antes dos estados das regiões sul e sudeste, provocando o colapso do sistema público de saúde, com cenas que não imaginávamos que pudessem acontecer entre nós.

.:: Grandes Epidemias da História: Peste Negra dizimou população da Europa

Mudanças de comportamento

A pandemia trouxe inúmeras consequências negativas para a economia, com o fechamento de negócios, paralisação do comércio, falências, desemprego alto e crises. Por outro lado, fez com que vários setores da economia girassem bem, com o desenvolvimento de novos negócios. Muitas empresas buscam soluções criativas para fugirem da crise e certas mudanças, especialmente as que se utilizam dos recursos digitais e da comunicação, vieram pra ficar!

Em dois meses o Brasil já movimenta mais de 5 bilhões em doações direcionadas a entidades de caráter social ou de atendimento público.

A pandemia destaca a necessidade de mudanças de hábitos e comportamentos pessoais, familiares e comunitários. Em dois meses, por exemplo, o número de casamentos caiu 62% em São Paulo e os setores de entretenimento e espetáculo precisam se reinventar.

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Necessidade de somar esforços

A pandemia está tendo um maior nível de complicação devido à falta de entendimento entre os diversos níveis de poder público, o que retarda a tomada de decisões importantes. E pra complicar ainda mais, bem durante a pandemia o Brasil vive uma crise política que parece não se acabar nunca, tendo entre suas causas essa mesma falta de entendimento. Além disso, atitudes políticas contraditórias levam ao isolamento do país no cenário internacional e aos vexames que, vergonhosamente, são retratados em muitos órgãos de imprensa internacionais.

Se em 1918 e 1919 a Gripe Espanhola provocou cerca de 50 milhões de vítimas fatais no mundo, 35 mil no Brasil e cerca de 7,5 mil em São Paulo, a pandemia do novo coronavírus já provoca um número imenso de vítimas no mundo. O avanço das medidas preventivas e a melhoria do sistema público de saúde ainda deixam a desejar.

.:: O melhor remédio é a solidariedade

No Brasil, o sistema público de saúde, apesar da construção de hospitais de campanha, praticamente colapsou em várias cidades e estados, especialmente na região norte do Brasil.

Países e cidades que atuaram de forma conjunta e mais consistente com a implantação de medidas restritivas de circulação das pessoas, fechamento do comércio e imposição de medidas higiênicas de proteção, já alcançam resultado mais positivo, com um menor número de vítimas fatais ou de casos de contaminação. E, por isso mesmo, podem iniciar mais cedo um processo  controlado de reabertura e de retomada da vida e das atividades econômicas.

Mas é bom entender que aquele “normal” que antes se conhecia nunca mais será registrado. Ao menos parece ser esta uma das perspectivas mais fortes de mudanças mais após essa pandemia.

Aprender com a história para evitar os erros do passado é lição de sabedoria!

Escrito por
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R. (Arquivo redentorista)
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R

Redentorista da Província de São Paulo, graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma, já trabalha nessa área há muitos anos, tendo lecionado em diversos institutos. Atua na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da Província de São Paulo.

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