Por Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R Em História da Igreja Atualizada em 22 ABR 2020 - 11H17

O melhor remédio é a solidariedade

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Uma epidemia de gripe espanhola fez milhões de vítimas em todo o mundo no início do século 20 e também afetou a realidade brasileira. Alguns historiadores afirmam que entre suas v
ítimas mais famosas, estava o Presidente Rodrigues Alves, natural da cidade de Guaratinguetá (SP), vizinha de Aparecida, mas não há consenso sobre este fato.

Leia Mais“Pedi ao Senhor: com a Tua mão, detenha a epidemia”, diz PapaEleito para a presidência em 1918, Rodrigues Alves adoeceu e morreu em janeiro de 1919, sem conseguir tomar posse de seu segundo mandato. Ele era membro do Partido Republicano Paulista e já havia governado o estado de São Paulo e também o Brasil entre 1902 a 1906.

Com sua morte, o vice-presidente eleito, Delfim Moreira, assumiu interinamente a presidência. Uma nova eleição foi convocada para o dia 13 de abril. Desta vez, Epitácio Pessoa, do Partido Republicano Mineiro, foi o vencedor do pleito, assumindo a Presidência em julho daquele mesmo ano.

O falecimento de Rodrigues Alves aconteceu num momento crítico para o país, que ainda se recuperava dos efeitos de uma Greve Geral que paralisou o país em 1917. Além disso, sofria também com os efeitos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

A economia nacional de então era dependente das exportações de café, sofrendo o impacto da restrição do transporte mundial causado pelo conflito e a queda na demanda do produto no mercado internacional.

Os casos da gripe espanhola começaram a crescer no Brasil em setembro de 1918, a partir da chegada de um navio ao porto do Rio de Janeiro, vindo da Inglaterra, trazendo a bordo pessoas portadoras do vírus. Foi esse o estopim que provocou a tragédia. Um mês depois, o presidente eleito Rodrigues Alves caiu acamado, debilitado pela doença.

No dia 06 de outubro daquele ano, os boletins médicos falavam dos cuidados recebidos pelo ilustre paciente e arriscavam até um prognóstico dizendo que, com os devidos cuidados, ele se restabeleceria a tempo para sua posse.

A melhora desejada, porém, não ocorreu e em 15 de novembro de 1918, Delfim Moreira, assumiu a Presidência interinamente. Em suspense, a população acompanhou o estado de saúde de Rodrigues Alves através dos jornais até seu falecimento, em 16 de janeiro de 1919. Com ele, calcula-se em 35 mil as mortes provocadas pela epidemia, sem falar nas milhares de pessoas que foram contaminadas.

Esta história de suspense pela doença de um presidente eleito se parece bastante com a história do ex-presidente Tancredo Neves, mas as motivações de sua doença foram outras.

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Interessante notar que, como os cartazes e folhetos da época indicavam, na forma como o português era então escrito, os cuidados para se evitar o contagio ou a cura eram bastante parecidos com o que hoje está sendo indicado.

Substituir o medo pela solidariedade

Percorrendo os jornais da época vemos muitos episódios de pânico entre a população, com casos de saques em estabelecimentos comerciais e superlotação de cemitérios. Também naquele tempo os fiéis católicos foram orientados para se absterem de participar das missas. Mas, ao lado disso, tivemos muitos exemplos de solidariedade e cuidados com os que foram afetados pela gripe.

A precariedade do sistema público de saúde e o desconhecimento ou desinformação da população fez com que os efeitos da gripe se tornassem mais intensos e prejudiciais.

Assim como naquele tempo hoje a epidemia do coronavírus está provocando a suspensão de eventos, cancelando aulas e mudando hábitos diários, levando a população a ficar mais em casa. Essas são algumas das precauções necessárias que precisam ser tomadas.

Seguindo a linha de orientação do Papa Francisco que incentiva a caridade, a atenção e a solidariedade para com aqueles que estão sendo afetados pela doença, a Igreja tem orientado os seus membros, especialmente os religiosos, para que apesar da limitação do serviço pastoral, reforcem a atenção para com os doentes e atingidos pela epidemia.

Os religiosos e as religiosas sempre estiveram, na história, na linha de frente junto a quem sofre, especialmente nas várias epidemias. Temos certeza que a dedicação não será menor neste momento delicado da vida do nosso país”, foi o que declarou um comunicado da Conferência dos Religiosos Italianos.

Na Itália, um dos países mais afetados pela atual epidemia, a exortação é para que as missas celebradas sem fiéis sejam retransmitidas via streaming e que os sinos toquem três vezes ao dia “como um chamado comunitário à oração”.

Medidas como essas estão sendo adotadas em outros países para mostrar que o melhor remédio para todos os males é sempre a solidariedade.

Aqui no Brasil a CNBB coordena as várias atividades de assistência aos afetados e os cuidados pastorais que estão sendo tomados, a destacar o Terço da Esperança e da Solidariedade rezado no dia 18/03, por uma grande rede de veículos de comunicação de inspiração católica.

Escrito por
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R. (Arquivo redentorista)
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R

Redentorista da Província de São Paulo, graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma, já trabalha nessa área há muitos anos, tendo lecionado em diversos institutos. Atua na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da Província de São Paulo.

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