Igreja

A grande cidade e a solidão

“Rezemos para que, nas grandes cidades, muitas vezes marcadas pelo anonimato e pela solidão, encontremos novas formas de anunciar o Evangelho, descobrindo caminhos criativos para construir comunidade.” Leão XIV

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Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

13 AGO 2026 - 09H36

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Em sua intenção de oração para o mês de agosto, o Papa Leão XIV convida os fiéis a rezarem para que, em meio ao anonimato e solidão que marcam a vida urbana, especialmente nas grandes cidades, surjam novas formas de anunciar o Evangelho e de construir comunidades acolhedoras, onde ninguém se sinta invisível e solitário.

O Papa foca um dos maiores desafios de nosso tempo, que é a acelerada urbanização que ocorre em todas as partes do mundo, sobretudo nos continentes periféricos; uma urbanização que está provocando a despersonalização de tanta gente!

Mais da metade da população mundial vive em áreas urbanas, tornando as grandes cidades um dos maiores desafios, mas, ao mesmo tempo, uma das grandes oportunidades para a missão evangelizadora da Igreja.

A formação das megalópoles trouxe consigo o fenômeno do isolamento social, relações cada vez mais superficiais e perda do sentido de comunidade, realidades que afetam de modo particular os jovens, numa sociedade permanentemente conectada pelas tecnologias digitais.

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Mundo predominantemente urbano

De 55% a 57% da população global vive hoje em cidades, e apenas as 10 maiores cidades do mundo, todas localizadas fora da Europa e dos Estados Unidos, concentram mais de 300 milhões de pessoas. Projeções da ONU-Habitat indicam que o índice de concentração urbana alcançará 68% até 2050.

O processo de urbanização teve início no século XVIII, na Europa, com a Revolução Industrial impulsionando o êxodo rural, migração de levas cada vez maiores de pessoas do campo para a cidade. Do ritmo inicial mais lento, podendo ser acompanhado de um planejamento e organização da infraestrutura provedora dos serviços essenciais para a população, o processo foi se acelerando. Quando a urbanização passou a acontecer nos chamados “países emergentes”, processou-se de forma bem mais rápida, a partir de meados do século XX, acontecendo, como ainda hoje se percebe, de forma bem mais desordenada.

Começaram então os grandes desafios sociais com o inchaço das cidades, devido ao crescimento populacional superior à capacidade de oferta de serviços como saneamento básico, transporte, segurança e saúde.

A segregação espacial levou o segmento da população mais privilegiada aos espaços urbanos dotados dos recursos necessários para uma vida de qualidade; por outro lado, vem a proliferação de favelas, periferias precárias e moradias irregulares, cada vez mais distanciadas do centro. A população que primeiro morava nos centros das maiores cidades começa a se mudar para condomínios e bairros de alto padrão, e os centros urbanos, apesar de serem dotados de todos os recursos de infraestrutura, passam por um processo de esvaziamento, degradação e abandono.

Ocorre a degradação e intensificação dos problemas ambientais com a poluição do ar e da água, impermeabilização do solo e gestão inadequada de resíduos sólidos lançados in natura nos córregos e rios.

As grandes cidades, que primeiro se materializavam como sonho para alcançar uma vida de conforto e bem-estar, transformam-se em sinônimos de desigualdade socioeconômica, disparidades no acesso a emprego formal, saúde, educação e segurança pública, lugar de isolamento e solidão.

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Processo de urbanização no Brasil

A intensificação do processo de urbanização no Brasil ocorreu, sobretudo, a partir da II Guerra Mundial, atingindo o seu ápice nas décadas de 1960/1970, motivada pela industrialização e pelo fascínio urbano que levava as pessoas a buscar ali as melhores condições de vida, oportunidades de estudo e de trabalho. A cidade virou uma espécie de “eldorado” em que o atraso do campo seria superado e as melhorias das condições de vida seriam alcançadas.

O deslocamento populacional no sentido norte/sul também ajudou a aumentar o processo de inchamento das cidades. Aproximadamente 85% da população brasileira vive hoje em áreas urbanas, e 400 das maiores cidades concentram quase 50% de nossa população. Em 1940, apenas 31% dos brasileiros moravam nas cidades; na década de 1970, esse índice passou de 50%, saltando para os patamares atuais décadas depois, repetindo os mesmos problemas e desafios já encontrados em outras regiões do planeta.

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Detectando o sofrimento silencioso

O Papa Leão, sempre atento às reais condições de vida da população, concentra agora a sua atenção numa realidade muito sensível: fazer com que a evangelização leve a Palavra de Deus aos núcleos mais profundos da alma das cidades, que são justamente as pessoas. Nelas a Igreja deve concentrar a sua atenção, sendo a “Igreja Samaritana” e servidora que o Papa Francisco já havia proposto.

Em sua mensagem, Leão XIV elenca diversos fatores que estão provocando o isolamento e a intensificação da solidão no contexto urbano, como a diminuição do número de componentes das famílias, célula básica da sociedade, composta hoje, em sua maioria, por uma ou duas pessoas, devido à redução do número de filhos por casal e envelhecimento acelerado da população.

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O papa se refere ainda ao crescimento da ambiência digital com o advento das redes sociais, levando as pessoas, especialmente os jovens, a trocar as relações sociais reais pelas virtuais, fechando-se em suas casas e apartamentos. Num mundo de tanta conectividade digital, existe pouca conectividade humana. E as cidades favorecem o vazio e a solidão por não oferecerem espaços de encontro e socialização. As praças deixaram de ser frequentadas, até pelo medo da violência; os clubes sociais e outras entidades estão em processo de desaparecimento.

Evangelizar a cidade significa ajudar a fazer com que ninguém se sinta sozinho, detectando o sofrimento silencioso de tantas pessoas. As paróquias devem resgatar o sentido de pertença a uma comunidade, e pastorais como da escuta, aconselhamento e atendimento devem ser valorizadas!

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Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

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