Igreja

Descoberto o mais antigo manuscrito de um evangelho apócrifo

Evangelho da Infância de Jesus, atribuído a São Tomé, deve ter sido escrito no século II

Padre José Raimundo Vidigal, C.Ss.R.

Escrito por Pe. José Raimundo Vidigal, C.Ss.R.

10 JUL 2024 - 14H47 (Atualizada em 10 JUL 2024 - 15H04)

Os pesquisadores Lajos Berkes e Gabriel Nocchi Macedo encontraram na biblioteca estatal e universitária de Hamburgo, Alemanha, um precioso fragmento de papiro do século IV ou começo do século V. O papiro, proveniente do Egito, mede 11 centímetros de comprimento por 5 de largura e contém 13 linhas com 10 letras em cada linha. No total, uma dúzia apenas de palavras, mas “palavras mágicas que contam um milagre atribuído ao Menino Jesus.”

O documento, redigido em grego há mais de 1500 anos, foi ignorado por tanto tempo porque era considerado de pouca importância e de reduzido interesse público. Pensavam que fosse um papiro qualquer, como uma carta pessoal ou lista de compras, por causa da grafia desleixada, própria de um principiante.

Quando descobriram no texto a palavra “Jesus”, confrontaram-no com outros papiros e viram sua relevância: era a cópia mais antiga de uma página do Evangelho da Infância, atribuído a Tomé, um evangelho apócrifo que narra uma dezena de milagres do Menino Jesus, terminando com a cena evangélica do seu encontro no templo entre os doutores (Lc 2, 41-50).

Leia MaisO que são os textos apócrifos do Novo Testamento? Podemos acreditar neles?Portanto, o texto encontrado faz parte de um evangelho apócrifo, isto é, não canônico (não integra a Bíblia). Esse Evangelho da Infância de Jesus, atribuído a São Tomé, deve ter sido escrito no século II.

Na antiguidade, era uma obra extremamente popular e muito estimada, explica Berkes. Maliciosamente, dizem certos críticos que “com certeza as autoridades da Igreja primitiva não o apreciavam, mas há uma diferença entre o que a Igreja queria e o que o povo queria.

A descoberta da biblioteca de Hamburgo comprova que esse Evangelho foi escrito originariamente em grego. Não se trata de um texto desconhecido, pois desse mesmo Evangelho tinham sido encontrados três exemplares em Oxirrinco, no Egito, em 1897, e em Nag Hammadi, também no Egito, em 1945. Mas até há pouco tempo a mais antiga versão grega dessa obra era um código do século XI; agora este novo fragmento de Hamburgo nos transporta a sete séculos atrás.

E o que diz o fragmento encontrado?

Conta aquela história do Menino Jesus que, aos 5 anos, estava brincando em dia de sábado à beira de um córrego e, amassando barro, formou doze pardais. Quando seu pai José o repreende e lhe pergunta por que faz isto durante o dia santo, Jesus bate palmas e os pássaros saem voando.

Para nós, católicos, essa descoberta levanta a questão da formação do Novo Testamento. Por que certos escritos antigos de cunho religioso não foram incluídos nele? Porque a Igreja, agindo sob inspiração do Espírito Santo, não os julgou inspirados. Foi uma decisão da mais alta relevância, essa de definir quais obras entrariam na Bíblia católica. Os escritos que foram recusados são chamados de “apócrifos”, palavra que significa “oculto, secreto”, mas nesse contexto indica os livros que ficaram de fora da lista dos Livros Sagrados.

Leia MaisVocê já parou para pensar o que a infância de Jesus nos ensina?Os Evangelhos canônicos pouco falam da infância de Jesus e nada referem da sua vida entre os 12 e os 30 anos, porque seu objetivo era transmitir a mensagem do Mestre e os fatos principais de sua vida.

Essa omissão levou diversos autores a dar asas à sua imaginação e tentar preencher o vazio com narrativas de milagres e recordações de palavras suas, nem sempre de modo digno e reverente.

Quando comparados com esses apócrifos, salta aos olhos a superioridade imensa de nossos quatro Evangelhos. Mas não se preocupe: essa descoberta em nada altera nossa fé em Jesus!

Escrito por
Padre José Raimundo Vidigal, C.Ss.R.
Pe. José Raimundo Vidigal, C.Ss.R.

Missionário Redentorista, diplomado em Teologia e em Ciências Bíblicas por Universidades de Roma e de Jerusalém. É o tradutor da Bíblia de Aparecida.

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