O período contemporâneo, frequentemente chamado de pós-modernidade, gerou e continua gerando profundas mudanças na vida social. Não devemos nos fechar aos novos tempos, mas também não podemos relativizar as condutas morais. A moral e a ética ocupam um lugar significativo como referências para a convivência humana.
Nesse sentido, vale recordar o Papa Francisco, que adverte na exortação apostólica Evangelii Gaudium: “Reconhecemos que, numa cultura onde cada um pretende ser portador duma verdade subjetiva própria, torna-se difícil que os cidadãos queiram inserir-se num projeto comum que vai além dos benefícios e desejos pessoais” (n. 61).
Toda avaliação moral precisa considerar as nuances do contexto, sem colocar em xeque princípios fundamentais da fé e da moral cristã. As mudanças nos costumes, nas linguagens e nas formas de convivência não tornam relativos todos os valores.
Na perspectiva da Igreja, algumas propostas contemporâneas relacionadas à identidade e à sexualidade exigem discernimento à luz da antropologia cristã. Esse debate deve ser conduzido com clareza doutrinal e respeito à dignidade de cada pessoa, evitando agressões e discriminações injustas, conforme orienta a declaração Dignitas Infinita.
Em certos casos, estão em questão dimensões constitutivas da condição humana. Por isso, é preciso compreender a importância das inovações, mudanças, adaptações e contextualizações, sem transformar a ideia de “tempos líquidos” em salvo-conduto para qualquer ruptura.
A sociedade atravessa uma crise de ethos, termo grego que designa costume e caráter. O conceito se refere ao conjunto de valores, hábitos e normas por meio dos quais a pessoa orienta seu comportamento e busca viver em harmonia com os outros.
O Catecismo da Igreja Católica ensina: “A lei é uma regra de procedimento emanada da autoridade competente em ordem ao bem comum. A lei moral pressupõe a ordem racional estabelecida entre as criaturas, para seu bem e em vista do seu fim, pelo poder, sabedoria e bondade do Criador. Toda a lei encontra na Lei eterna a sua verdade primeira e última. A lei é declarada e estabelecida pela razão como uma participação na providência do Deus vivo, Criador e Redentor de todos” (n. 1951).
É preciso apreciar o novo em sua capacidade de ampliar o bem comum, sem confundir novidade com relativismo ou superficialidade, como se tudo fosse necessariamente passageiro.
As mudanças e os avanços fazem parte da condição humana. Nosso modo de ser pessoa se desenvolve no tempo, no qual vivemos e compreendemos as situações. Não existimos fora dele e precisamos dele para nos manifestar como pessoas.
A vida é um projeto que se realiza no tempo e com o tempo. Em cada época histórica, a temporalidade foi vivida de uma maneira. O tempo nos interroga e nos recorda os sentidos de nossa existência. Nossas experiências se realizaram, realizam-se e ainda se realizarão no passado, no presente e no futuro.
O amadurecimento de nossa personalidade também deve respeitar suas diferentes etapas. A historicidade cristã está igualmente marcada pela temporalidade, pois não podemos compreender a história da salvação sem considerar o tempo.
As novidades e as mudanças fazem parte de nossa condição humana. Em qualquer época, porém, a moral cristã permanece como uma bússola para o discernimento e para a busca do caminho que conduz ao bem.
Leia MaisEducar na fé e pela fé: uma resposta à proposta do relativismoO que seria do homem sem a virtude? Educar para a Espera Cristã: É na esperança que fomos salvos! (Rm 8,24)Tudo o que faz parte de nossa existência acontece no tempo. Nosso comportamento e nossa história são influenciados pelas condições sociais, culturais e até climáticas de cada época.
A adaptação a novos espaços, climas, idiomas, costumes e formas de viver influencia nossa experiência da temporalidade. O cristão, porém, é chamado a não se deixar conduzir por mudanças que estejam em contraste com o Evangelho.
Na Evangelii Gaudium, o Papa Francisco chama a atenção para a formação de novos sentidos nas chamadas “culturas inéditas”:
“Novas culturas continuam a formar-se nestas enormes geografias humanas, onde o cristão já não costuma ser promotor ou gerador de sentido, mas recebe delas outras linguagens, símbolos, mensagens e paradigmas que oferecem novas orientações de vida, muitas vezes em contraste com o Evangelho de Jesus. Uma cultura inédita palpita e está em elaboração na cidade.”
“O Sínodo constatou que as transformações destas grandes áreas e a cultura que exprimem são, hoje, um lugar privilegiado da nova evangelização. Isto requer imaginar espaços de oração e de comunhão com características inovadoras, mais atraentes e significativas para as populações urbanas. Os ambientes rurais, devido à influência dos meios de comunicação, não estão imunes a estas transformações culturais, que também operam mudanças significativas nas suas formas de vida”.”
Evangelii Gaudium, n. 73
A modernidade consolidou a confiança no progresso, na racionalidade e nos ideais do Iluminismo. A pós-modernidade, por sua vez, questionou essas certezas e favoreceu um cenário marcado pela pluralidade de referências, pela fragmentação e pela instabilidade dos padrões.
Esse cenário pode provocar crises na dimensão moral e dificuldades para a construção de referências comuns. Para quem escolhe viver a partir de uma doutrina de fé fundamentada no cristianismo, surgem tensões diante de ideias que entram em conflito com verdades de fé e princípios morais considerados permanentes.
O desafio cristão consiste em discernir cada mudança à luz do Evangelho, acolhendo aquilo que contribui para o bem comum e rejeitando o que contradiz a dignidade humana. A novidade não deve ser temida, mas precisa ser examinada à luz da verdade e da caridade.
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