Por Joana Darc Venancio Em Igreja

Educar e instruir para o Éthos

A última etapa histórica, conhecida como pós-modernidade, gerou e continua gerando profundas mudanças na vida social. Não nos devemos fechar aos novos tempos, mas também não podemos relativizar as condutas morais. A moral e a ética têm significativo lugar e papel como guardiãs da essência da convivência humana. Vale lembrar Papa Francisco que exorta na Evangelli Gaudium: "Reconhecemos que, numa cultura onde cada um pretende ser portador duma verdade subjetiva própria, torna-se difícil que os cidadãos queiram inserir-se num projeto comum que vai além dos benefícios e desejos pessoais (61)".

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Toda mudança moral leva em conta as nuances advindas do contexto, mas não deve ser colocada em cheque a perenidade de determinados conceitos, ensinamentos, leis, regras e dogmas. Algumas mudanças propostas pela “ideologia trans” da pós-modernidade precisam ser combatidas, pois não se trata somente adaptações culturais, climáticas, políticas e econômicas, mas de “esquemas insubstituíveis” que estão constituídos na gênese da condição humana. Dessa forma, é preciso compreender a importância das inovações, mudanças, adaptações, contextualizações, sem defender e divulgar a tese dos “tempos líquidos” com salvo-conduto.

A sociedade passa por uma crise em seu “Éthos”, ou seja, na relação comportamental do individual, provocando crise de entendimento moral na convivência coletiva. Éthos, palavra grega que designa costume, caráter. Por ele o sujeito se adequa, através das normas, regras e leis, para viver em harmonia em todos os ambientes de sua convivência. Ensina o Catecismo da Igreja Católica: "A lei é uma regra de comportamento promulgada pela autoridade competente em vista do bem comum. A lei moral supõe a ordem racional estabelecida entre as criaturas, para seu bem e em vista de seu fim, pelo poder, pela sabedoria e pela bondade do Criador. Toda lei encontra na lei eterna sua verdade primeira e última. A lei é revelada e estabelecida pela razão como una participação na providência do Deus Vivo, Criador e Redentor de todos. 'A esta ordenação da razão dá-se o nome de lei' (1951)". É preciso apreciar o novo em sua potencialidade de ampliar o Bem Comum, mas não confundir a novidade com o relativismo, a superficialidade, com os “tempos líquidos”, onde tudo é passageiro.

As mudanças e os avanços fazem parte da constituição humana. O nosso modo de ser pessoa depende do tempo que temos para viver, e compreender as situações. Não existimos sem o tempo e precisamos dele para nos manifestar como pessoa. A vida é um projeto a ser realizado no e com o tempo. Em cada época histórica o tempo foi vivido de alguma forma. O tempo interroga-nos e lembra-nos os sentidos de nossa existência. Nossas experiências realizaram-se, realizam-se e realizar-se-ão no tempo: passado, presente e futuro. O amadurecimento de nossa personalidade deve respeitar o tempo em suas etapas. Também a historicidade Cristã está marcada pela temporalidade. Não podemos compreender a história da Salvação sem levar em conta o tempo. Neste sentido, as novidades e as mudanças fazem parte da de nossa condição vivente, mas em qualquer tempo histórico a moral foi a bússola que conduziu ao rumo certo.

Leia MaisEducar na fé e pela fé: uma resposta à proposta do relativismoO que seria do homem sem a virtude? Educar para a Espera Cristã: É na esperança que fomos salvos! (Rm 8,24)Tudo o que faz parte de nossa existência está no tempo. Nosso comportamento e nossa história são influenciados pelas condições climáticas, culturais de cada época. A Adaptação aos novos espaços, novos climas, novos idiomas, as novas formas de viver, aos novos costumes são fatores que influenciam na vivência da temporalidade, mas o Cristão é chamado a não deixar se levar quando essas mudanças estiverem em contraste com o Evangelho. Papa Francisco na Evangelli Gaudium nos exorta sobre a formação de sentidos nas “culturas inéditas”.

Novas culturas continuam a formar-se nestas enormes geografias humanas onde o cristão já não costuma ser promotor ou gerador de sentido, mas recebe delas outras linguagens, símbolos, mensagens e paradigmas que oferecem novas orientações de vida, muitas vezes em contraste com o Evangelho de Jesus. Uma cultura inédita palpita e está em elaboração na cidade. O Sínodo constatou que as transformações destas grandes áreas e a cultura que exprimem são, hoje, um lugar privilegiado da nova evangelização. Isto requer imaginar espaços de oração e de comunhão com características inovadoras, mais atraentes e significativas para as populações urbanas. Os ambientes rurais, devido à influência dos mass-media, não estão imunes destas transformações culturais que também operam mudanças significativas nas suas formas de vida. (73)

As galopantes mudanças promovidas pela Pós-Modernidade, apresentada pela crença no progresso e nos ideais do Iluminismo, na promoção da racionalidade e na motivação das constantes mudanças como ideal social, redefiniram como padrão a “falta de padrões” e a “sociedade de anomia”. Crises na dimensão moral ocorrem como fruto dessas novas condições sociais. Para quem escolhe viver a partir de uma Doutrina de Fé, fundamentada no Cristianismo, tal realidade apresenta fortes tendências e efeitos considerados maléficos, pois há uma ruptura radical com as verdades preservadas como únicas e inabaláveis que são guiadas por valores e conceitos perenes, insubstituíveis e imutáveis.

Escrito por
Joana Darc Venancio (Redação A12)
Joana Darc Venancio

Pedagoga, Mestre em educação e Doutora em Filosofia. Especialista em Educação a Distância e Administração Escolar, Teóloga pelo Centro Universitário Claretiano. Professora da Universidade Estácio de Sá. Coordenadora da Pastoral da Educação e da Catequese na Diocese de Itaguaí (RJ)

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