Por Pe. Luiz Rodrigues Batista, C.Ss.R. Em Igreja

Jesus Misericordioso como o Pai

Foto de: reprodução

Jesus Misericordioso pintura de Eugeniusz Kazimirowski

Primeiro quadro da Divina Misericórdia,
obra de Eugeniusz Kazimirowski, em 1934.

Durante 2016, vivemos o Ano da Misericórdia. Ao celebrar e vivenciar este Ano Santo, uma admoestação: Vejamos o quanto podemos ser egocêntricos. Somos interessados que Deus seja misericordioso para conosco. Às vezes, nos surpreendemos a nós mesmos e queremos nos dizer ou nos convencer - no sentido mão única - de que precisamos do perdão de Deus.

Causa-nos grande alegria saber que Deus é misericordioso para conosco. Ficamos muito contentes, porque Jesus é expressão da bondade infinita do Deus Pai para com cada um de nós. Mas, antes de tudo, o nosso agradecimento ao querido Papa Francisco, porque promulgou em 08 de dezembro de 2015, este Ano Santo da Misericórdia, ano jubilar extraordinário para o Povo de Deus. 

Tradição Bíblica e história

Sabemos que Ano Santo - Ano Sabático - tem origem e tradição bíblicas. Para o povo hebreu, a cada 50 anos acontecia um ano declarado santo: nele eram libertados os escravos, as dívidas eram perdoadas e as terras, deixadas de ser cultivadas. Quanta sabedoria nessa prática. Era um ano de revisão, reparação e conversão. Este ano tinha um objetivo preciso: restituir a igualdade a todos os filhos de Israel, oferecer novas oportunidades às famílias que tinham perdido suas prosperidades e até mesmo a liberdade pessoal. Podemos deduzir que esse ano jubilar - Tempo de Alegria - acontecia em favor da vida pessoal e da sociedade ideal a ser buscada e construída sempre.

Ano Jubilar na Igreja Católica teve início com o Papa Bonifácio VIII, em 1300. Então, celebrar o ano santo ganhou um significado novo que constitui um pedido de perdão geral, uma indulgência aberta a todos e possibilidade de renovar a relação com Deus e com o próximo. Temos, portanto, um bom propósito no coração: estar reconciliados com Deus e com os irmãos. Mais com Deus é verdade!

No livro do Profeta Ezequiel, a história simbólica de Jerusalém - história do povo escolhido - a nossa própria história pessoal e a maneira de Deus nos tratar: "Lembrar-me-ei da aliança que fiz contigo na tua juventude, e estabelecerei contigo uma aliança eterna... serei eu que estabelecerei a minha aliança contigo, e saberá que sou Iaweh, oráculo do senhor". (Cf. Ez. 16,59-63). A iniciativa é sempre de Deus Misericordioso, Deus da vida, da libertação agindo na história do Povo!

No Evangelho, ficamos perplexos diante da matemática, na pergunta de Pedro: 'Quantas vezes devo perdoar ao meu irmão que pecar contra mim? Sete vezes sete?’ (Cf. Mt. 18, 21-35). Já sabemos a resposta: Devo perdoar quantas vezes forem necessárias. Reparei na pergunta de Pedro: meu irmão nem pecou ainda e devo perdoar. Deus nos perdoa sempre porque nos ama. Perdoamos à medida que nos sentimos amados. 

Amar e ser amado

 

"Ninguém dá daquilo que não tem. Ninguém oferece o que jamais recebeu. Ora, se somos amados, somos capazes de amar e de perdoar as ofensas". 

Sentir-se amado é um aprendizado que nunca termina. Causa-nos estranheza dizer às pessoas que as amamos. A nossa cultura não suporta muito isso. O nosso jeito de relacionar-se é muito mais por interesse, e nada de gratuidade. Posso pensar assim: aprendi a ser amado quando eu era criança; depois adolescente; depois jovem; depois adulto, ou até o estágio em que me encontro. Enquanto perdurarem os meus dias, devo aprender a ser amado por Deus e pelas pessoas que convivem comigo: familiares, amigos, comunidade, Igreja... Mas, depois que aprendi e experimentei que sou amado, fui chamado a perdoar a todos, sem medida. Fui chamado a ser misericordioso. A minha comunidade-Igreja também recebeu esse chamado...

Ninguém dá daquilo que não tem. Ninguém oferece o que jamais recebeu. Ora, se somos amados, somos capazes de amar e de perdoar as ofensas. Somos capazes de curar as feridas, as mágoas que causam sofrimentos, dores, angústias, violências, ódios, maldades, vinganças etc.

O mundo em que vivemos está repleto disso tudo: rivalidades, guerras civis e religiosas, conflitos culturais, econômicos, políticos, ideológicos, étnicos, corrupções. Enfim, foi necessário e oportuno o papa promulgar um ano jubilar extraordinário sobre a Misericórdia. Precisamos aprender a ser misericordiosos. Mas, antes, precisamos de conversão: mudança de rota no nosso jeito de compreender as coisas, mentalidade nova. Precisamos de mudança cultural.

O Papa Francisco disse numa dessas audiências, às quartas-feiras: 'Não há santo sem passado nem pecador sem futuro!'

Deus tem o olhar voltado para o pecador, o fraco, o pequeno, o indefeso, o vulnerável. Constatamos através da parábola da ovelha perdida e do filho pródigo, entre outras que temos presentes no coração e na memória. 

Ser expressão da misericórdia de Deus

O ano da graça e da libertação chegou a nós por Jesus: encontramos, primeiro no livro de Isaias, depois em Lucas: ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me conferiu a unção para anunciar a boa nova aos pobres. Enviou-me para proclamar aos cativos a libertação e aos cegos, a recuperação da vista, para despedir os oprimidos em liberdade, para proclamar um ano de acolhimento da parte do Senhor. Jesus enrolou o livro e disse: ‘hoje, esta escritura se realizou para vós que ouvis...’ (Cf. Lc. 4,16-20).

Jesus - ao concluir sua missão - volta para junto do Pai. Não significa dizer que Jesus se encontra distante da comunidade, dos discípulos, do mundo. Pelo contrário, está presente - ressuscitado - para continuar a missão, a mesma prática de antes. A missão de Jesus é reconciliar o mundo com Deus-Pai, é estabelecer o Reinado de justiça e de paz no meio da humanidade, no coração de cada um de nós. É renovar a esperança na vida fraterna e amiga, é estabelecer o ano da graça e da libertação.

Queremos ver o rosto misericordioso de Jesus. A comunidade apresenta-nos a Porta Santa, por onde queremos e temos de passar: Jesus misericordioso como o Pai. A comunidade cristã tem como herança essa verdade. Deixemo-nos, como comunidade cristã, conduzir pelo mesmo Espírito que conduzia Jesus. Que Maria de Nazaré, a mãe de Jesus Misericordioso, nos ensine a sermos discípulos e missionários Dele.

Pe. Luiz Rodrigues Batista
Missionário Redentorista

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