Em alguns meses o famoso e importante discurso* do Papa Bento XVI, realizado no ano de 2006, na Aula Magna da Universidade de Regensburg, na Alemanha, fará 15 anos. Naquela data, Sua Santidade citou uma importante frase tirada de um diálogo do século XIV sobre a religião e a violência, entre um douto imperador bizantino e um persa erudito: “Não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus”.
Independentemente do fato de que a citação do antigo texto por parte do Papa foi, então, criticada por uma parte da mídia, a frase hoje é de grandíssima atualidade. Vejamos abaixo um pedaço desse famoso discurso:
“Nesta argumentação contra a conversão através da violência, a afirmação decisiva está aqui: não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus. E o editor, Theodore Khoury, comenta: para o imperador, como bizantino que cresceu na filosofia grega, esta afirmação é evidente; mas não o é para a doutrina muçulmana, porque Deus é absolutamente transcendente. A sua vontade não está vinculada a nenhuma das nossas categorias, incluindo a da razoabilidade. Neste contexto, Khoury cita uma obra do conhecido islamita francês R. Arnaldez, onde este assinala que Ibn Hazm chega a declarar que Deus nem sequer estaria vinculado à sua própria palavra e que nada O obrigaria a revelar-nos a verdade. Se fosse a sua vontade, o homem deveria, inclusive, praticar a idolatria.”
Leia MaisIntolerância, tolerância e prudênciaÉ evidente que o fanatismo não conhece religiões. Mas fica claro, sob a luz deste discurso papal, no contexto da fé cristã, que a razão humana está vinculada à Criação divina, assim como ao próprio Deus; o que nos permite entender que existe uma relação profunda entre fé e razão.
O fanatismo desafia esta relação e a rejeita, o que pode fazer com que as exigências religiosas, de qualquer religião, que em princípio dignificariam o ser humano, se coloquem em uma situação de oposição à razão, à racionalidade moral e aos valores por ela descobertos e aceitos.
Quem perde, portanto, com o fanatismo? Em primeiro lugar, a religião mesma, que ficaria refém de uma ruptura entre o divino e o humano. Perde a verdadeira fé, dom de graça e virtude sobrenatural, cujo ato é um ato humano, consciente e livre, como ensina o Catecismo da Igreja Católica (no 180). Perde também a razão humana, ao desligar-se de seu fundamento em Deus. Perdemos todos os homens, pois ficamos à mercê do capricho do mais forte.
Quem ganha? Ganha o mal e suas forças irracionais, caóticas e agnósticas. Ganha a injustiça. Ganha a violência.
* Discurso do Santo Padre Bento XVI na Aula Magna da Universidade de Regensburg, Alemanha, 12 de setembro de 2006.
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