Os Estados Unidos bombardearam Caracas, capital da Venezuela, na madrugada do dia 3 de janeiro, e capturaram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, que foram levados como prisioneiros para fora do país.
Antes do ataque, nos meses anteriores, as Forças Armadas americanas já haviam realizado uma das maiores mobilizações militares na região do Caribe em décadas, incluindo, em outubro de 2025, a chegada do USS Gerald R. Ford, o maior porta-aviões do mundo, às águas próximas da América Latina. Haviam também atacado e destruído barcos que “supostamente” transportavam drogas e feito inúmeras demonstrações de força.
Após o ataque, as reações dos países e de organizações mundiais foram imediatas, a maioria condenado a ação norte-americana.
A ação militar sem precedentes dos Estados Unidos contra o regime de Nicolás Maduro cria um vazio de poder na Venezuela cujas consequências imediatas são imprevisíveis. A ideia de que serão eles a administrar o país significa um retrocesso de 215 anos, pois desde 1811, a Venezuela é um país independente.
Antes de sua economia depender basicamente do petróleo, a Venezuela foi, durante o século XIX e primeiras décadas do século XX, um país majoritariamente agrícola, com o eixo da economia dependendo bastante do café. A Venezuela chegou a ser a segunda maior produtora mundial, atrás apenas do Brasil.
Na segunda metade do século XX, aconteceu a grande virada na economia para a industrialização e, a exemplo de outros países e do próprio Brasil, isso provocou o êxodo rural e o enchimento desordenado das cidades, com os problemas ligados ao transporte, saneamento e moradia.
A modernidade, a tecnologia e a riqueza trouxeram consigo o aumento da desigualdade, sobretudo, a partir do boom petrolífero. Os benefícios da imensa riqueza não chegavam para todos, beneficiando apenas uma pequena categoria de pessoas.
Em 1989, durante o governo de Carlos Andrés Pérez, aconteceram grandes manifestações e protestos em todo o país, o que é visto pelos analistas como a “Carta de Apresentação” que levaria Hugo Chávez ao poder, com sua mensagem populista, proposição de ser a favor da justiça e da igualdade, ser contra a corrupção e com a afirmação de que governaria para o povo.
Hugo Chávez comandou uma tentativa fracassada de golpe contra o governo de Carlos Andrés Pérez em fevereiro de 1992, passando dois anos na prisão de onde saiu livre em 1994. Quatro anos depois ganhou as eleições, se convertendo num presidente eleito democraticamente. A partir daí, o que se viu foi o “Chavismo” tomando conta do país, mesmo depois de sua morte em março de 2013.
A Venezuela era um país castigado pela corrupção, pela pobreza e desigualdade e o novo presidente chegava com uma proposta de refundar a república baseada numa política renovada e que alcançaria a justiça social, mas em grande parte sua política não funcionou.
Depois de sua morte, Nicolás Maduro assumiu como herdeiro do Chavismo, com críticas cada vez mais consistentes sobre as fraudes eleitorais, autoritarismo, repressão aos movimentos contrários e supressão dos opositores do regime. Maduro ganhou as eleições de 2013, sendo reeleito em 2018 e 2024. Em ambas reeleições o resultado das urnas foi contestado pela oposição e por observadores internacionais e somente conseguiu permanecer tanto tempo no poder graças ao apoio das formas armadas.
O domínio do Chavismo trouxe uma forte crise econômica, social e política para a Venezuela, e seu agravamento fez crescer o desabastecimento interno e o número dos que buscavam melhores condições de vida e liberdade fora do país. O Brasil, depois da Colômbia, é o país que mais recebe imigrantes venezuelanos. O fluxo aumentou de forma significativa a partir de 2015, se intensificando de 2017 em diante. Entre janeiro e agosto de 2024, milhares de refugiados e imigrantes entraram no Brasil, uma média de 250 pessoas por dia. A porta de entrada é quase sempre a cidade de Pacaraima, em Roraima.
O número de refugiados e migrantes da Venezuela em todo o mundo hoje é de aproximadamente 3,4 milhões, dos quais 2,7 milhões estão em países da América Latina. Apesar da imprecisão dos números, calcula-se que no Brasil o número de refugiados venezuelanos já passe de meio milhão de pessoas.
Até a pouco dias, o governo norte-americano justificava a necessidade das operações militares no Caribe e o aumento das sanções contra Caracas com o argumento de combater o narcotráfico e desarticular rotas de drogas supostamente ligadas a grupos criminosos associados ao regime.
O ataque ao país, a prisão de Maduro e as palavras explicativas de Donald Trump sinalizam aquilo que todo mundo já sabia: a motivação maior do ataque e da prisão do presidente, segundo as palavras do presidente norte-americano são os interesses econômicos dos Estados Unidos que “vão agora “governar o país” e reorganizar a indústria do petróleo, pensando em suas necessidades energéticas.
A Venezuela concentra a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, volume estimado em cerca de 303 bilhões de barris. Isso coloca o país à frente de grandes produtores do Oriente Médio como Arábia Saudita (267 bilhões de barris) e Irã (209 bilhões). Com cerca de 17% das reservas mundiais, o país sul-americano possui um volume de petróleo quase quatro vezes maior que o dos EUA.
Boa parte do petróleo venezuelano, porém, é extrapesado, exigindo tecnologia avançada e investimentos elevados para sua extração. E aí entra a tática norte-americano de receber petróleo em troca de um possível investimento na modernização da indústria de extração e refino, pois a produção de petróleo da Venezuela despencou nas últimas décadas de um pico de 3,7 milhões de barris por dia em 1970, para um mínimo de 665 mil barris por dia em 2021.
Portanto, não existe preocupação em restaurar a democracia, combater o narcotráfico ou qualquer outro motivo que justifique o ataque, até porque os Estados Unidos são o maior patrocinador de ditaduras do mundo. O projeto é o de ter petróleo abundante e de boa qualidade a um preço muito mais barato e a uma distância muito menor do que o que hoje eles recebem de outros produtores. Ou seja, mais uma vez vale a lógica capitalista de que “os meios justificam o fim”.
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