Notícias

Como a religiosidade se desenvolve como sentido da vida

Como a fé amadurece ao longo da vida? Psicologia e sentido se encontram em uma reflexão atual sobre desenvolvimento religioso

Escrito por Beatriz Nery

23 ABR 2026 - 11H44

Rian Torres/A12

A busca pelo sentido da vida acompanha a história da humanidade. Ela atravessa culturas, épocas e biografias pessoais. No livro “Psicologia do desenvolvimento religioso: a religiosidade nas fases da vida” publicado pela Editora Ideias & Letras, o psicólogo e filósofo Mauro M. Amatuzzi propõe uma leitura sistemática desse movimento interior à luz da Psicologia.

A obra reúne mais de dez anos de pesquisas acadêmicas e escuta de relatos caracterizados como inquietações, escolhas e experiências que revelam como a religiosidade se transforma ao longo das fases da vida.

Amatuzzi, doutor em Filosofia da Educação e professor com longa atuação em universidades como USP e PUC-Campinas, reconhece sua identidade cristã. Ele defende que, no campo da Psicologia da Religião, a neutralidade absoluta é ilusória. O importante, segundo ele, é a clareza e a abertura ao diálogo.

Mariana Joffre/A12 Mariana Joffre/A12


Um itinerário em quatro etapas

O livro está organizado em quatro partes: primeiro, caracteriza o movimento interior humano que se expressa como religiosidade ou senso religioso. Em seguida, examina a experiência religiosa propriamente dita.

A terceira parte trata do desenvolvimento religioso sob a perspectiva psicológica. Por fim, apresenta contribuições para o aconselhamento, a orientação espiritual e a psicoterapia, com distinções claras entre essas práticas.

Amatuzzi explica: “Desenvolvimento não é simplesmente sinônimo de mudança. É uma transformação pela qual se agregam valores; portanto, de certa forma, para melhor.”

A proposta é compreender como a fé amadurece e como pode se tornar mais consciente, refletida e integrada à vida.

Tradição, conversão e decisão pessoal

O autor retoma uma distinção clássica: há quem viva a religião por tradição familiar e há quem a abrace por conversão. No contexto brasileiro, essas formas muitas vezes se misturam.

“Tradicionalmente se diz que há duas maneiras de ser religioso: por tradição e por conversão”, explica o autor.

Segundo Amatuzzi, muitos mantêm a religião herdada, mas em determinado momento a assumem de modo pessoal e refletido. Outros buscam formação, estudo e aprofundamento doutrinal. Há ainda aqueles que relatam uma experiência marcante de encontro com Deus, capaz de redefinir toda a vida.

Os graus de consciência variam. Alguns se identificam com a religião pelos ritos e normas principais. Outros percorrem um caminho de discernimento mais elaborado.

A necessidade humana de sentido

O livro dialoga com a reflexão de Viktor Frankl, fundador da Logoterapia. Para Frankl, o ser humano é movido pela vontade de sentido. Sem ele, instala-se o vazio existencial.

Amatuzzi amplia essa perspectiva. Para ele, há um movimento interior em direção a uma orientação última. Esse impulso pode estar abafado, produzido ou descoberto. Raramente se apresenta de forma pura.

add_box  O que Viktor Frankl revela sobre Deus e a cura?

Ele observa que, quando uma pessoa investe energia total em uma causa ou visão de mundo, pode surgir o que chama de “quase-religião”. A estrutura é semelhante à experiência religiosa: há orientação, devoção e entrega. A questão central permanece: que sentido merece tal dedicação?

Rian Torres Rian Torres

Crescimento, autoconhecimento e autotranscendência

O desenvolvimento religioso envolve autoconhecimento e autotranscendência. Trata-se de um processo que acompanha o crescimento humano.

Para o autor, amadurecer religiosamente significa avançar em direção a maior complexidade psicológica e a um conceito de eu mais realista e flexível. Essa transformação impacta a maneira de se relacionar com Deus, com os outros e consigo mesmo.

O livro também diferencia “religião” e “espiritualidade”. Enquanto religião pode indicar sistema de crenças e instituição, ela também designa o movimento interior de religação a um sentido último. Sem essa dimensão interior, a estrutura externa perde vitalidade.

add_box  Por que viver com sentido é mais urgente do que nunca?

Seja o primeiro a comentar

Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.

0

Boleto

Carregando ...

Reportar erro!

Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou de uma informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por Beatriz Nery, em Notícias

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.

Carregando ...