A Sinodalidade propõe um caminho de comunicação horizontal, onde todos caminham em unidade e assumem suas corresponsabilidades diante das atividades pastorais, missões e vocações.
Nesse caminho, o diálogo ecumênico tem também o seu espaço, pois convida cristãos de diferentes tradições a se encontrarem na escuta recíproca, no respeito e na busca daquilo que os une: a fé em Jesus Cristo.
Pe. José Bizon, assessor eclesiástico da Pastoral do Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso da Arquidiocese de São Paulo e diretor da Casa da Reconciliação, conversou com o A12 e destacou três pontos sobre a relação entre sinodalidade e ecumenismo.
“Primeiro, a partir da Palavra de Deus nas Sagradas Escrituras, que é a base, o fundamento da fé cristã. O segundo elemento é o diálogo, o ecumenismo é construído no diálogo. Juntos, partir da Palavra de Deus e ir buscando aquilo que nos diferencia na doutrina desses anos de distanciamentos e vai se ressignificando, vai dando sentido para que esse ecumenismo, esse diálogo, esteja fundamentado a partir da Palavra de Deus.
E o terceiro ponto que eu vejo importante dessa relação é o caminhar juntos. É aquilo que propõe o sínodo, o sínodo é isso, é caminhar juntos, na mesma direção [...] É uma caminhada em direção e em busca da unidade visível, da Igreja e do sonho e do testamento de Jesus. Do seu desejo que todos sejam um para que o mundo creia”.
Vivenciar o caminhar juntos significa também reconhecer a riqueza da diversidade cristã, promover espaços de escuta e testemunhar, de forma concreta, os valores do Evangelho.
“O ecumenismo está baseado na palavra de Deus e, se é um caminhar juntos, nós precisamos superar as divisões, as diferenças que surgiram no decorrer dos séculos, para a superação desses obstáculos, desses desafios, dessas diferenças que foram criadas, a alternativa é única, é um caminhar junto na mesma direção.
É por isso que a Igreja Católica, as igrejas cristãs, as igrejas ortodoxas, anglicanas, buscam esse caminhar juntos para construir a unidade, para construir e restaurar o sonho do Espírito Santo, o sonho e o desejo de Jesus Cristo que é a unidade entre todos aqueles que confessam que Jesus é o Senhor e o Salvador”, afirmou.
Simpósio Internacional que celebrou os 60 anos da Declaração Nostra Aetate em 2025. Padre Bizon à direita da foto de camisa clara.
O Padre explicou ainda como a escuta ativa e o discernimento comunitário contribuem para essa unidade.
“A divisão é pecado, contradiz a vontade de Jesus e se torna também um escândalo para a evangelização, mas também há o desejo que está implícito no testamento de Jesus, que todos sejam um. Então, por isso, a escuta ativa a partir das diferenças é importante para a construção da unidade tão desejada por Jesus.
Houve, sim, cismas, divisões e reformas dentro do cristianismo, mas há também um desejo a partir do Conselho Mundial de Igrejas Cristãs, a partir do Concílio Ecumênico Vaticano II, então há um desejo implícito para a construção da unidade entre os cristãos. Por isso, a escuta ativa é importante. Definitivamente necessária para a construção da unidade”.
A sinodalidade é um modo de ser Igreja marcado pela participação, comunhão e missão. Não é algo novo, é algo bíblico, é algo já vivido por Jesus e seus discípulos, e não compreender isso é um dos desafios para seguir no caminho sinodal.
“Creio que são vários desafios. Um deles é o não conhecer a história do cristianismo, não conhecer a história de cada uma das denominações, não conhecer aquilo que norteia a vida de cada uma dessas denominações cristãs. Então, portanto, o desconhecimento gera esse grande desafio.
O segundo decorre do primeiro pelo fato de eu não conhecer, gera o medo, gera a insegurança, é outro desafio. Você acha que tem pessoas melhores que pensam que viver a dimensão ecumênica é você renunciar elementos importantes e fundamentais da sua igreja? Não é isso, mas é valorizá-los e juntos sermos capazes de superar esse desconhecimento”, explicou o Padre.
:: Qual a diferença entre diálogo ecumênico e diálogo inter-religioso?
A sinodalidade e o ecumenismo se apresentam como caminhos complementares para fortalecer a unidade dos cristãos. No Brasil, a CNBB desenvolve e integra diversas ações ecumênicas que promovem a unidade cristã, como a Campanha da Fraternidade. e a Casa da Reconciliação, com sede em São Paulo, que promove iniciativas de ecumenismo e de diálogo inter-religioso. Estes organismos atuam em sintonia com o processo sinodal.
:: A unidade entre as religiões cristãs é possível?
Em São Paulo, a Congregação das Irmãs de Santo André realiza um serviço de ecumenismo que fortalece o caminho sinodal. A Ir. Ana Maria Cláudia dos Reis, contou ao A12 os frutos que brotam a partir do diálogo e da convivência entre cristãos de diferentes denominações.
“Os frutos são muitos. Em relatos num encontro de formação e convivência, promovido pela CNBB, nos últimos anos, fica claro que tudo pode começar com algo simples [...] Há lugares onde cristãos de igrejas diferentes usam o mesmo templo para suas liturgias num clima de muito respeito e amizade.
Atualmente, em Alagoinhas, na Bahia, uma comunidade ecumênica masculina denominada Irmãos de Taizé vive no Brasil desde fins da década de 60, cooperando com a Igreja Católica local, dando um testemunho de abertura, diálogo, respeito e solidariedade, num bairro pobre com muitos desafios”.
Ela também falou sobre a importância de ações como a Semana pela Unidade Cristã e a Campanha da Fraternidade.
“Durante a Semana de Oração pela Unidade Cristã, os encontros entre cristãos se intensificam. Nas últimas décadas, as Campanhas da Fraternidade Ecumênicas contribuíram muito para o surgimento de cooperação entre igrejas de denominações diferentes: projetos sociais, cuidado da dignidade da pessoa humana, promoção do bem e da paz; pobreza, habitação, cuidado da casa comum, solidariedade diante de catástrofes ou calamidades, violência, etc”.
Ir. Ana Maria recordou ainda a entrega de Jesus Cristo por todos nós, uma experiência fundamental para a unidade da nossa fé:
“A entrega de Jesus Cristo à cruz por todos nós é a experiência fundante de nossa fé. Antes de ser entregue, Jesus reúne os seus discípulos que tanto amava. Abre o coração transbordante de amor, reza para que todos tenham a vida com ele junto com o Pai, na oração sacerdotal, em João 17: 'Para que todos sejam um, como sou um em ti, ó Pai.' A graça do batismo nos faz ecumênicos. Bebemos do único batismo, somos sepultados com Cristo e somos nova criatura. A consciência da vocação batismal e compromisso no seguimento de Jesus nos leva ao anúncio e ao testemunho onde quer que estejamos”, concluiu.
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