A Quaresma é um tempo que nos convida a voltar ao essencial, busca nos aproximar de Deus por meio da oração, da conversão e da penitência. A oração é uma ferramenta fundamental em nossa vida espiritual, ela nos auxilia na conversa com Deus e na escuta. Não apenas a escuta das palavras do Evangelho, mas a escuta profunda que vem do silêncio interior.
Aprender a silenciar o exterior é uma atividade que traz benefícios em diversos aspectos de nossa vida, principalmente para nossa vida espiritual, mas atualmente a população tem dificuldade em se desconectar, pois vivemos a era mais conectada de todos os tempos.
A pesquisa Consumer Pulse, realizada pela Bain & Company, em setembro de 2025, revelou que os brasileiros passam, em média, 9 horas conectados à internet por dia, sendo mais de 3 horas dedicadas somente às redes sociais. O estudo indica ainda que essa hiperconexão já provoca desconforto nos usuários, que demonstram um desejo crescente por equilíbrio.
O Padre Laércio Lima, S.J., mestre em teologia espiritual, escritor e conferencista, ajuda a compreender melhor a importância de saber silenciar e se desconectar para conseguir se aproximar de Deus.
“O silêncio interior é essencial para a vida cristã, porque a vida cristã nasce de uma escuta, um chamado, e esse chamado quem faz é uma pessoa que tem nome, tem uma cultura, que tem uma vida, [...] esse é um chamado da pessoa de Jesus. Se não há silêncio, se não há interioridade, se não há essa atitude de desacelerar para essa escuta profunda, eu diria mais radicalmente que não há cristianismo ou há uma caricatura do cristianismo que a gente segue, um cristianismo próprio, esquece do chamado da vocação, do ouvir esse chamado da parte de uma pessoa que tem um projeto, que tem um Reino.”
Muitas pessoas chegam aos retiros católicos com a sensação: “não consigo mais me ouvir”, “estou cansado”, “não sinto presença de Deus”. Esse é o reflexo da vida moderna, marcada por ritmos acelerados e estímulos constantes, que atrapalha a interioridade e rouba a percepção da ação de Deus na vida pessoal e comunitária.
“É preciso que o recolhimento, a intimidade e o silêncio caibam em nossa agenda, porque assim como usamos os meios sociais, a internet e tanta coisa, tantas horas por dia, precisamos também encontrar esse caminho do recolhimento como algo importante da minha vida, no meu dia. [...] Se eu não gosto de estar comigo mesmo, na solidão, nessa experiência de intimidade, de silêncio, eu corro para aquilo que me dá mais prazer, então é preciso ter essa capacidade de ir ao encontro de si mesmo e de Deus no mais profundo da vida”, afirmou Padre Laércio.
Em meio à rotina diária, é preciso silenciar, e não falamos de silêncio somente como a ausência do barulho, mas sim o silêncio que nos faz praticar a escuta. Escuta de Deus, escuta de nós mesmos e escuta do irmão que precisa de nós.
A sinodalidade convida a caminharmos juntos, e esse caminhar se traduz também em escuta, em parceria, em colaboração, em encontro. E para que tudo isso seja vivido da melhor forma, é preciso buscar a Deus, escutar o seu chamado, ter Deus no centro de nossas vidas. Conforme explicou o Padre:
“Se não há silêncio, não há oportunidade e possibilidade para o encontro sincero. Então, com o tempo, com a prática da contemplação, da meditação, do encontro, do silêncio, a gente vai percebendo justamente essa necessidade de silenciar não apenas como não fazer barulho, não cantar, não falar. Mas é um encontro profundo consigo mesmo que gesta e gera identidade. O silêncio nos abraça, o silêncio nos devolve a nós mesmos, o silêncio nos faz ir em busca não de si, por si, mas desse Deus que habita a nossa interioridade e a nossa identidade, a essência da nossa vida”.
Padre Laércio também disse que, para viver o caminho sinodal, esse caminho conjunto de discernimento, diálogo e comunhão, é preciso silenciar o coração e escutar.
“A Igreja sinodal tão sonhada por Francisco só existe se houver silêncio, porque o sínodo é uma escuta, sem escuta não há discernimento e sem discernimento não encontramos a vontade de Deus”.
Sem vida interior, a sinodalidade se torna apenas um conceito, uma palavra, um sonho. Com o silenciar dos barulhos externos e o escutar da vida interior, a sinodalidade torna-se o caminho espiritual de comunhão.
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