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Diário de Guerra: A participação de um Redentorista na Primeira Guerra Mundial - Memórias

Introdução

No início do século XX o continente europeu vivia uma situação muito complicada. O período anterior à Primeira Guerra é justamente conhecido como o tempo da “paz armada”, pois os países europeus não entravam abertamente em conflito, mas procuravam aumentar seu poderio bélico, construindo fábricas de armas que, somadas à indústria metalúrgica, alavancavam ainda mais a economia destes mesmos Estados.

A corrida armamentista era aberta e acontecia em todos os lados. Uma das regiões mais conturbadas do continente era o leste, região dos Balcãs, onde vivia Gavrilo Princip. Ele era um estudante sérvio que viveu na Bósnia e, era declaradamente a favor da nação iugoslava. Foi ele que cometeu o atentado que matou, em 28 de junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando, então herdeiro do Império Austro-Húngaro, e sua esposa Sofia

 

Assassinato-francisco-ferdinando-sofia

O assassinato de Francisco Ferdinando e sua esposa apressou o início do conflito e mudou os rumos do mundo.

O que aconteceu depois disto só pode ser explicado pelos seus antecedentes. Naquela época algumas nações europeias já viviam um clima de tensão permanente, e o atentado apenas liberou “vontades e motivações históricas” que culminaram no conflito que durou de 1914 a 1918.

Ao saber do assassinato ocorrido nas ruas de Sarajevo, o Império Austro-Húngaro não declarou guerra imediata à Sérvia, mas esperou o aval da Alemanha para aí sim enviar um ultimato que continha, entre outras coisas, uma requisição para que agentes de segurança austro-húngaros fizessem parte das investigações do assassinato.

A não aceitação de certas condições levou à guerra iniciada oficialmente no dia 28 de julho do mesmo ano. Gradativamente outras nações foram entrando no conflito, de acordo com as alianças diplomáticas. E o que aconteceu depois foi aquilo que nós todos sabemos. O mundo entrou numa guerra que envolveu, direta ou indiretamente, mais de 30 países de todos os continentes, com maior ou menor grau de participação, inclusive o nosso Brasil.

A principio se pensava que este seria o conflito que daria fim a todos os demais, e que teria um fim rápido, mas não foi o que aconteceu, pois a guerra se arrastou por 04 longos anos, ceifando milhões de vida nos campos de batalha da Europa, provocando imensas perdas materiais.

Alguns historiadores, como Eric Hobsbawm, consideram que a guerra que teve início em 1914 só teve fim em 1989, com a queda do Muro de Berlim. Neste ano de 2014, o mundo está celebrando o centenário do início deste conflito.

 

Primeira Guerra Mundial

O conflito foi o primeiro a envolver países dos cinco
continentes e deixou cerca de 10 milhões de mortos e
20 milhões de feridos, além de resultar na queda de
quatro impérios
(Russo, Austro-Húngaro, Alemão e Otomano)

Na primeira guerra tivemos a participação de missionários redentoristas. Um deles, o Frater, depois Pe. Paulo Forster, da Província de Munique, na forma de diário, nos deixou as suas memórias, especialmente da guerra nas trincheiras e nos campos de batalha de Arras, em 1914; de Somne, em 1915 e de Verdun, em 1916 em que os soldados alemães combateram as tropas oponentes nos campos da França.

Ele narra com detalhes o terrível da guerra, como o estampido dos canhões, os bombardeios, as milhares de perdas humanas e o medo estampado no rosto de muitos.

O Pe. Geraldo Pires traduziu este diário que foi transformado em livro, com data de 09 de março de 1965, e que merece uma recordação, especialmente neste ano em que celebramos o centenário do conflito mundial. Tanto aqui, como lá, a guerra atinge a todos, por isso é um aprendizado histórico ver a maneira como as pessoas e nações nela se envolveram. Pelo menos para que nunca mais isso aconteça, pois a paz deve sempre prevalecer.

Aproveitamos a introdução explicativa feita pelo Pe. Pires e as muitas páginas do diário, para trazer detalhes das aventuras deste bávaro que depois viria trabalhar no Brasil, integrando a Vice-Província bávaro-brasileira entre os anos de 1919 a 1964.

Um Redentorista na Guerra

O Pe. Geraldo Pires foi também testemunha ocular dos dias daquela Guerra, até outubro de 1917. Ao estourar a guerra ele achava-se no fim do primeiro ano de teologia; Frater Forster, e seu companheiro de curso, Frater Guilherme Linsmaier, no fim do segundo ano de filosofia. O outro confrade, Frater José Sepp terminava o primeiro ano. Estes três foram logo convocados para as armas. Partiram no dia 19 de outubro de 1914, indo para Munique.

Pe. Geraldo Pires diz na introdução ao livro, que se lembrava muito bem de toda a agitação daqueles dias tempestuosos. Frater Linsmaier, num triste pressentimento disse uma tarde: ‘De certo a bala que vai me matar já está sendo fundida’. Mas não foi bala, foi granada que o matou como conta o diário. Os três mosqueteiros vieram uma vez visitar seus confrades em Gars, então nosso estudantado, perto de Munique.

Dali haviam saído em outubro. Durante os meses de treino Frater Forster escrevia muitas cartas interessantes, contando da vida do quartel, dos exercícios nos campos, das marchas pela cidade ao compasso dos tambores e bandas militares. Também visitavam muitas vezes as velhas irmãs Levy, benfeitoras dos nossos padres. Eram chamadas de "Fräuelein", porque eram solteironas. Elas, almas boas, tratavam muito bem os nossos, dos quais eram generosas benfeitoras, sempre. “Naturalmente, os três mosqueteiros recebiam alguns marcos para seus gastos pessoais, agasalhos de campanha etc” dizia Pe. Pires.

Naquela época, achava-se em tratamento no hospital de Passing, o Pe. Provincial João Batista Schmidt. Os três iam visitá-lo e pedir-lhe a bênção. Essa bênção era espiritual e material. Pe. Schmidt sabia que todo soldado tem sempre muita sede e muita fome. Punha-lhes nas mãos alguns marcos e endereçava-os ao "Loewenbrauhaus", afamada cervejaria de Munique. Com frequência nosso diarista escrevia cartas aos confrades em geral e a vários, em particular.

Diz Pe. Pires que “ele mesmo recebeu muitas cartas e todas eram lidas à mesa. Em belo estilo e muito descritivas, traziam toda a comunidade presa à sua leitura”. Segundo ainda Pe. Pires os clérigos ouviam também a leitura de jornais e dos comunicados do Quartel General que emolduravam as cartas do nosso confrade.

Na sua modéstia Fr. Forster não menciona as condecorações que recebeu pela sua bravura. Trouxe-as para o Brasil e depositou uma na Sala dos Milagres em Aparecida, com enternecida dedicatória à Virgem Maria. As memórias do Diário são cópias ou resumos de muitas cartas que escreveu, como se lê na introdução. Daí algumas repetições que aparecem. O Diário, que não segue dia por dia a semana e os meses, está escrito em bela caligrafia, mas em alemão gótico. Nem sempre foi fácil decifrar uma letra, mesmo a confrades alemães, que foram consultados.

A tradução procurou ser fiel e respeitadora do estilo do diarista. Duas cartas foram traduzidas também. Dos três convocados para a guerra só voltou o Fr. Forster. Os Frater Sepp e Frater Linsmaier ficaram no campo de batalha. O próprio Fr. Forster foi ferido em uma de suas mãos durante uma batalha, tendo que voltar pra casa antes do fim da guerra.

Por causa disso chegou a perder o movimento de três dedos, tendo que, mais tarde, pedir autorização ao então núncio apostólico de Munique Eugenio Pacelli, futuro papa Pio XII, para que pudesse ser ordenado. Na introdução ao livro termina Pe. Pires dizendo assim: “no estudantado eu fazia parte da turma que arrumava e despachava pacotinhos com doces, frutas etc. para os nossos combatentes no front, até setembro de 1917”. Em seu diário Fr. Forster termina falando dos ensinamentos que se pode tirar do conflito, se isso é possível.

 

Pe. Paulo Foster

Biografia

Pe. Paulo Forster era natural de Lanshut, na Alemanha. Nasceu a 26 de junho de 1888. Com 12 anos ingressou no Juvenato em Gars, professando em 1912. Teve de interromper seus estudos superiores, convocado para o exército, na Primeira Guerra entre 1914 e 1917.

Na Batalha de Verdum-França, onde houve o enfrentamento de mais de 500 mil soldados de ambos os lados, em 1916, foi ferido por um estilhaço de granada. Com dispensa especial, devido a um defeito que lhe ficou em uma das mãos, pôde continuar os estudos, sendo ordenado em 1919. Em abril de 1920 chegou ao Brasil, cumprindo a promessa que fizera na guerra, de trabalhar para Nossa Senhora na Vice-Província brasileira.

Pe. Paulo era dono de ótima inteligência. É o que mostra um de seus atestados de estudos, com as notas “Optime” e “excelenter” em todas as matérias. Muito bom desenhista, de letra impecável (apesar do defeito na mão), lecionou Matemática, Física, Química, Astronomia, Mineralogia, Latim e Grego; foram as suas matérias durante os 25 anos em que trabalhou no Juvenato (Aparecida).

Em 1949, já cansado de lecionar, foi transferido para Goiás. Morou depois em Araraquara e São João da Boa Vista, auxiliando nos trabalhos da Casa e da Igreja. Mais tarde, já com a saúde abalada, foi transferido para a Penha e aí travou sua última batalha, enfrentando pacientemente longos meses de sofrimento, para falecer a 11 de julho de 1964. O seu “Diário de Guerra” (manuscrito) está no nosso Arquivo Provincial.

Pe. Inácio Medeiros, CSsR

Equipe Missionária - Araraquara

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